A vida dos animais

Publicado em: 16/09/2013

por Marici Salomão, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Uma das recordações da primeira infância é o Bussa, o cachorro fox que meu pai havia adotado de um português que estava voltando à terra natal. Morávamos no Itaim (antes de ser Bibi), numa casa gostosa de ladrilhos vermelhos, e meus olhos encontravam sempre os olhos dele. Bussaque, esse era o estranho nome, dado pelo primeiro dono, morreu com quase 16 anos. Teve que ser eutanasiado, em razão de um câncer que só foi piorando, na região da face. Eu já estava com sete ou oito anos quando ele morreu. Meu pai, chegando em casa à noite, contou com profunda tristeza que o último ato foi dividir com Bussa um picolé de groselha. Depois, a despedida. (Meu pai não lembra de ter me contado isso, mas eu lembro). Bussa teve uma vida digna: espaço, carinho, comida, veterinário, passeios. Do que mais precisa um animal de estimação? 

 

Com essa memória tento apenas mostrar que não sou da moda “indústria pet”. Gosto de cachorros (e animais de estimação) desde que me reconheço ser humano. Nunca me preocupei com raça, tamanho, cor. Isso não quer dizer que não saiba ver a beleza de uma raça. Mas nunca fui seduzida a ponto de achar que deveria sair desfilando por aí com um cachorro de raça. Minha cachorra é uma vira-lata recolhida de uma rua de praia há dez anos e alguns meses e eu tenho o maior orgulho dela. 

 

O brasileiro é a “raça” mais misturada que existe sobre a face da terra. Será que é para compensar essa bobajada de sentimento de inferioridade que tantos cidadãos deste país fazem questão de adquirir poodles, chihuahuas, labradores retrievers, pugs, schnauzers e chow-chows? Outro dia vi um husky siberiano caminhando sob o sol do meio-dia com seu musculoso dono. Língua de fora, exausto. Não acho justo – um cão com características para viver num país frio sendo arrastado sob um sol arrasador. São as pequenas crueldades diárias, como essas, que me deixam com o coração na mão. Louca pra dar meu grito de revolta.

 

Ao invés de gritar, escrevo. Ao invés de me revoltar, leio. Recentemente, abri finalmente “A VIDA DOS ANIMAIS”, do prodígio J. M. Coetzee, que recomendo. Dele já havia lido “DESONRA”, “CENAS DE UMA VIDA” e, recentemente, “A VIDA DE JESUS”. Vegetariano, preocupado com o bem estar animal, Coetzee cria a personagem ficcional Elizabeth Costello, que apresenta em forma de palestra sua defesa contra o que vê como abusos praticados contra os animais. Já chorei horrores nas primeiras páginas do livro, em que não há relatos de maldade, mas um discurso potente sobre os direitos dos animais. O que faz com que humanos esclarecidos sejam desnecessariamente cruéis com os animais ou comprometidos com a crueldade?

 

Estou pensando em cachorros, mas diariamente deparo com o mundo de ações bárbaras – abates ainda crudelíssimos e covardes, maus tratos, rodeios, touradas, brigas de galo, rinhas de cachorro, uso indiscriminado de animais em testes de laboratório. Sinto horror sempre que penso que o animal não tem voz para se defender. E que sufocamos os pequenos crimes na inação do próprio animal. Fora ou dentro da mata, sob coleiras, armas ou grades criadas pelos humanos, pouco ou nada podem fazer. Sinto horror, simplesmente horror. Uma solução, para sair do lamento que me expia diariamente? Comer MUITO menos carne, denunciar os abusos e maus tratos constatados (sei que é difícil, pois não temos autoridades competentes preparadas para isso), tentar se informar sobre produtos que são testados em animais, não comprar roupas e acessórios de couro animal, mudar a atitude com o próprio bicho de estimação. No caso dos cães, conheço donos que não passeiam com seus chamados “amigos”, não vacinam com regularidade, não levam ao veterinário quando o animal fica doente (mesmo podendo pagar). Ao não conseguirem se colocar no lugar deles (empatia), não atinam para o possível sofrimento desses que chamam de amigos. Muito perto de mim um casal de proprietários foi obrigado a cuidar decentemente de seu cachorrinho, que há alguns meses teve uma grave cistite. Por que mal passeava e não podia urinar em local específico dentro do apartamento, ficou doente. Hoje vejo mais o casal sair com ele. Talvez tenha doído no bolso. Não sei.

 

Quando tirei a Naga da rua, senti muito medo. Decidida a ficar com ela, teria que cuidar de verdade. Nada a ver com a balela de cuidar do cachorro como a uma criança, de substituir o animal pela criança. Isso é bobagem (tanto do lado de quem pratica essa injusta substituição, quanto do lado de quem argumenta genericamente com jargões famosos como: Ah, mas e as crianças? (e quem está proibindo alguém de fazer algo pelas crianças? E quem está dizendo que cuidar bem de um animal significa não cuidar bem de uma criança?) e só serve para atrasar o desenvolvimento de ações pró-animais. Voltando à Naga, mudei parte do meu estilo de vida, jamais aprisionando a cachorra em uma única parte do apartamento ou deixando de sair com ela duas ou mais vezes por dia. Tampouco eu me sinto aprisionada. Aprendo muito com ela a toda hora. Hoje conto com o serviço de uma pessoa que é remunerada para sair com ela todos os dias, até três vezes ao dia, porque não estou em casa o dia todo. Amenizo o horror que sinto pelas crueldades contra a vida dos animais cuidando bem da minha querida. Mas não só isso: mesmo não vendo saída em breve no fim do longo túnel (a terra deve ser mesmo o lugar da expiação mais atroz), como cada vez menos carne (peixe ainda como) e nutro respeito pelos animais, em atitude e denúncia. Além disso, não compro cachorro, não aprisiono passarinho, não recuso comida e água a um animal abandonado, não elogio rodeio, não humilho nem um camundongo. Atitudes como essa poderão ajudar a melhorar as condições dos animais?

 

* Querer falar sobre esse assunto agora teve por fundo provocador o belíssimo material do livro “CHICO QUE QUERIA SER FELIZ”, escrito por Ivam Cabral, ainda a ser publicado. Tive a honra, mais uma vez, de receber o material para leitura com antecedência. E dizer que senti a perda de MOCINHA, a querida cachorra tetraplégica que foi cuidada como uma pequena rainha pelos guerreiros Julia Bobrow e Daniel Guth. O DIÁRIO DA MOCINHA, página que eles mantinham no Facebook, fará falta.