A grande partilha

Publicado em: 03/09/2013

por João Branco*, especial para o portal da SP Escola de Teatro

Ponto de ordem para quem (ainda) não sabe: o Festival Internacional de Teatro do Mindelo – Mindelact decorre todos os anos na cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, em Cabo Verde, pequeno arquipélago plantado no Atlântico perto da costa oeste Africana.  Esta semana vai começar a sua 19ª edição e este festival é, hoje, o maior acontecimento teatral da África Ocidental e Lusófona. Com uma duração média de dez dias, comporta cerca de 40 espetáculos de teatro de todos os gêneros e para todos os gostos e idades, oriundos de quatro continentes e de muitos países diferentes. Isto pode não parecer muito para uma cidade como São Paulo, por exemplo, mas, proporcionalmente, e fazendo as contas, 40 espetáculos numa cidade como a do Mindelo, com 70 mil habitantes, corresponderia, para uma metrópole de 11 milhões, a quantia extraordinária de 6.285 peças de teatro a serem apresentadas no mesmo período de tempo. Um número razoável, não acham?

Há alguns anos, um amigo que nos visitou em setembro para tentar entender o que era isto do festival Mindelact (o festival internacional de teatro do Mindelo, perguntava-me: “Como é que vocês conseguem? Que família é esta e o que é que vos move?”). Não consegui ter ali uma resposta, à mão de semear, para lhe oferecer. Mas cada vez mais penso que, embora possa haver algum misterioso denominador comum, o que move cada uma das muitas pessoas que participam, direta ou indiretamente, neste festival internacional de teatro, varia bastante e se alguns estão ali pelo teatro, outros estarão pelo convívio, outros pela partilha, outros pelos ensinamentos, outros pela sensação de se estar a participar na construção de uma grande obra coletiva, outros, finalmente, por uma mistura de duas ou outras destas motivações parcelares.

Quando os membros dos grupos de teatro nacionais gastam o pouco tempo livre que têm, mais a mais em pleno verão, para ensaiar horas e horas seguidas, quando podiam estar a fazer outras coisas, entre as quais estar com a família, ler, ir à praia, ver televisão, descansar de um duro dia de trabalho, praticar desporto, entre muitas outras atividades possíveis e imaginárias, temos toda a legitimidade de nos questionar: Por que? O que motiva estes homens e estas mulheres, a tantas horas de sacrifício? Os aplausos depois de uma hora e pouco de saudável confronto? E se corre mal? O que os faz correr? O que os faz investir tanto de cada um, para participar numa atividade onde não há dinheiro que pague ou valorize esse tremendo esforço? Poucos sabem responder, mas muitos sabem que querem estar. Viver o festival Mindelact é um orgulho, dirão muitas destas pessoas. Orgulho por que, para quê?

O que move grandes companhias internacionais, com a dos Satyros, que pela primeira vez toma parte deste fantástico festival, para aceitarem participar neste festival, em condições hoje consideradas inaceitáveis do ponto de vista da economia da cultura? Sem hotéis de luxo, nem grandes ementas ou cachês e, muitas vezes, sendo os próprios grupos a procurar apoio nos seus países de origem para conseguir o necessário para as passagens? O que faz esta gente aceitar vir, participar, dar do muito que tem, mostrar o seu trabalho, transmitir a sua experiência e conhecimento, apenas pelo prazer de estar, de partilhar, de conhecer outros iguais, de viver a experiência viva e única de participar desta grande festa? O que os faz correr? Alguém sabe?

O que faz com que um número significativo de homens e mulheres, jovens, crianças, pais e mães de família se ofereçam para trabalhar que nem uns loucos durante 11 dias em troca de uma camiseta e um crachá, que ostentam de forma altiva e orgulhosa perante os cidadãos da cidade do Mindelo e seus convidados temporários, com a palavra mágica “organização?” O que justifica o suor, as marcas que o corpo guarda, as noites mal dormidas? A fome de teatro explica todo esse esforço? O que justifica o sorriso permanente nos lábios, a vontade de bem receber, a criatividade com que se resolvem os problemas mais bicudos?

Estas perguntas são pertinentes, muito pertinentes, nos dias que correm. Estamos na época do individualismo, do salve-se quem puder, do cada um por si e o resto que se lixe. Estamos na época em que se passam mais horas a conversar virtualmente do que olhando nos olhos do outro. Neste tempo em que nos vendemos por dá cá aquela palha, sempre com a desculpa, por vezes demagógica, de que precisamos colocar comida na nossa mesa, mesmo que, na verdade, o importante realmente seja ir para aquela festa badalada ou adquirir aquela roupa fashion que se viu na vitrina numa das boutiques da cidade. Continuo a achar que o segredo para todas estas questões se encontra no núcleo do que é o festival Mindelact e sempre foi: a própria natureza da arte cênica. O teatro é a arte que coloca o homem perante si próprio, sem desculpas ou omissões. É portanto, a mais humana das artes. E hoje, não tenho dúvidas disso, a mais necessária. E é daí que emana o tal espírito mindelact.

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