42 Anos sem Cacilda

Publicado em: 14/06/2011

Em 13 de junho de 1969, o mundo perdeu uma das maiores atrizes brasileiras de todos os tempos, Cacilda Becker. Filha de Edmondo Yáconis e de Alzira Becker, com nove anos, viu sua vida se transformar, quando seus pais se separaram. 

 

Sem a menor condição de sustentar três filhas pequenas, Alzira se mudou para Santos, onde Cacilda foi matriculada em um bom colégio. Porém, como sua mãe não tinha condições de pagar a mensalidade, teve de mudar de escola.

 

Pobre, a pequena Cacilda não se relacionava com pessoas de alto nível social. Entretanto, sua beleza exótica chamava tanta atenção que seus amigos intelectuais sempre tentavam colocá-la nas capas de revista da cidade.

 

Quando completou 20 anos, em 1941, foi ao Rio de Janeiro, por intermédio de seu amigo Miroel Silveira e de alguns contatos do ramo teatral, participar de uma montagem amadora da peça “3.200 Metros de Altitude”, de Julien Luchaire, no Teatro de Estudante do Brasil. 

 

Não demorou muito e a novata atriz já estava brilhando nos palcos. Após idas e vindas no teatro, novamente por intermédio de seu amigo Silveira, Cacilda entra na companhia de Bibi Ferreira. Contudo, não teve muitas chances de irradiar seu talento, diante da já estrela Bibi Ferreira. 

 

Em sua breve passagem pelo grupo Os Comediantes, Cacilda encenou a remontagem da peça que deu início à modernização do teatro brasileiro: “Vestido de Noiva” (1947), de Nelson Rodrigues, com direção de Zbigniew Ziembinski.

 

No ano seguinte, ingressou no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), local onde permaneceu por 10 anos e que marcou definitivamente sua trajetória. Lá, encenou as peças “Seis Personagens à Procura de um Autor”, de Luigi Pirandello, “Antígona”, de Sófocles, entre outras. Após Nydia Lícia ter recusado um papel no espetáculo de Abílio Pereira de Almeida, “Mulher do Próximo”, produzida pelo TBC, Cacilda a substituiu, porém, exigiu que lhe contratassem como atriz profissional.

 

Em 1953, o jornal O Estado de S. Paulo criou o prêmio Saci de Teatro, contemplando os que se destacavam. O TBC, como a companhia teatral mais bem estruturada da época, levava todas as premiações, inclusive a de Melhor Atriz, graças ao talento de Cacilda.

 

Talento que emprestou também ao cinema. Em 1947, Cacilda trabalhou no melodrama “A Luz dos Olhos Meus”, que contava com a participação dos atores Celso Guimarães, Grande Otelo, Manuel Pera, Heloísa Helena e Luiza Barreto Leite. Todas as críticas foram negativas, o que a fez ter aversão ao cinema. Somente sete anos depois, participou de “Floradas na Serra”, que recebeu elogios da crítica.

 

Em 1958, ao lado do marido, o ator Walmor Chagas, do diretor Ziembinski e de sua irmã Cleyde Yáconis, Cacilda cria sua própria companhia de teatro, onde encenou mais de 26 espetáculos até 1969, ano em que morreu.

 

No intervalo entre o primeiro e o segundo ato do espetáculo “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, apresentando em 6 de maio, Cacilda sofre um derrame cerebral que a deixa 38 dias em coma. 

 

Lucia Camargo, coordenadora de Difusão Cultural da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, estava na plateia, nesse dia. “Assistir àquela peça foi uma das grandes emoções da minha vida, mesmo sem saber que seria seu último espetáculo.” Lucia contou, ainda, que já presenciou outras montagens do mesmo texto, mas nenhuma se compara à que Cacilda fez.

 

Ao tomarem conhecimento de sua morte, seus colegas a definiram como “a maior atriz brasileira, a melhor amiga de seus amigos e a mais combativa representante da classe teatral brasileira”.

 

Cacilda era tão querida e admirada que o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu sobre ela após seu falecimento. “A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Eram tantas…”

 

Mais de 40 anos após sua morte, seu nome ainda é sinônimo de talento e inspiração e continua tão presente no imaginário dos amantes da cena que foi o mais votado para batizar a mascote da SP Escola de Teatro. Assim, através de nossa “Cacilda”, também reverenciamos Cacilda Becker. 

 

 

Foto capa: Divulgação / Folha Imagem

Foto interna: bia-sion.com