Percepções em Cursivo

Publicado em: 26/10/2020

Mauri Paroni
Chá e Cadernos 100.32

 

Ao inventar um curso sobre expressão artística e pandemias na história para a SP Escola de Teatro, das bíblicas pragas do Egito até a Covid-19, algumas percepções afloradas na dialética do tema vieram radicalmente chamar-me a atenção:

A construção de uma determinada obra

Obra = opera = latim opus. Gosto de ler este termo como “somatória de experiências”; meus velhos professores de história do teatro (Ettore Capriolo), de museologia e de história da arte (Concetta Zingales e Philippe Daverio) alertaram-me: desconfie se uma publicação grita “este é um artista do nosso tempo, é o futuro, é a genuína vanguarda”. Se fosse verdade, nada seria notado, pois é necessário tempo, historia e… Pandemia – a melhor criatividade nasce da revolta diante de suas consequentes mortes. Sem isso, não há meios para imaginar, criar e firmar qualquer previsão; quem prevê um percurso de construção é a arte e não o crítico de arte. O alemão Heiner Müller martelou-me quotidianamente: “se um artista importa de verdade, será perseguido pelo poder e pelo crítico… quando a arte é importante historicamente, é silenciada”.

A contração do tempo a que estamos sujeitos

Um animal como o cão percebe o tempo a 80 fotogramas por segundo. Vê em câmara lenta. O gato, a 64 – mais veloz, como num filme mudo. Seres humanos, a 60. Relativizamos tudo. A velha ideia de duração do tempo muda. A velocidade atual ainda não grita tal evidência, mas já se manifesta diante das sérias consequências comunicativas – ergo, políticas – das diferentes percepções. Ao vermos filmes sobre figuras de há mais de sessenta anos, como o super-8 do assassinato de John Kennedy, em 1963, ou as terríveis filmagens 16mm dos campos de extermínio nazistas, temos outra percepção daqueles que narraram a história por signos imagéticos antes impossíveis de serem vistos.

Espetáculos em prisões, hoje tão contemporâneos, nasceram com o Open Theatre do diretor e pedagogo Jo Chaikin (1935-2003) durante a experimentação norte americana das décadas de 1960/70; ouvir palavras de Pirandello (1867-1936) gravadas ou o último dos solistas operísticos castrados; ver a foto do suplicio e êxtase do último executado pelo império chinês feitas por George Bataille (1897-1962); sentarmo-nos numa cadeira de plástico estilo anos 70; Enfim, signos percebidos como contemporâneos são, entretanto, do passado. Max Horkheimer (1895-1973), filosofo da escola de Frankfurt, sustentava que a história um dia aparentaria estar parada. Seu colega Walter Benjamin (1892-1940) vaticinava a vertiginosa da velocidade da visão de escombros históricos deixados para trás pela progressão do anjo de Angelus Novus – pintura e ensaios homônimos. Atenção: o que escrevi aqui é MUITO diferente da picaretagem fukuyamista do “fim” da história. Em tempos da agressão desesperada de uma ordem restauradora prestes a exaurir-se, pude tatear, concretamente, na atividade pedagógica e cultural diária da SP Escola de Teatro, um aspecto importante que está se modificando nas artes do espetáculo sob a pandemia da Covid-19. Trata-se da afirmação concreta de um paradoxo: a fusão concreta das artes performativas na bidimensionalidade de uma tela – de telefone, de tablet, de computador. Cria a mesma credibilidade – pela suspensão da desconfiança descrita por Samuel Colleridge no século XVIII ocidental – das transmissões orais dos griots da África subsaariana, ou dos escritos clássicos que utilizei no curso.

Verbo

Na antiguidade clássica, o conceito de “verbo” revela um termo designador de “ação”; hoje, poderíamos amplia-lo à performance (action painting e instalação aqui incluídas). Naquele mesmo mundo antigo, a “palavra”, oriunda do latim “parabola”, trazia em si o conceito de narração. Fundiam-se. A parábola é uma invenção afro mediterrânea, presente também nas aglutinações asiáticas e ameríndias, onde a repetição induzia ao conceito de “verdade”; coisa/ação/conceito enquanto litania, em liturgia, em espetáculo – como vi nos griots. O exato oposto do emprego raso utilizado por Goebbbels e atuais discípulos mal ressuscitados.

Se este artigo fosse uma tese longa várias dezenas da páginas, poderia cartografar o paradoxal “indivisível ergo infinito” de Zenão de Eleia (490/85 – 430 a. C.). Nele, a distância entre uma lebre e uma tartaruga em competição de velocidade será sempre a mesma, uma vez que é infinita na quantidade de zeros que a exprime. Bem mais tarde, a infinitude do zero, no cálculo infinitesimal, retirou, através da matemática, o conceito de infinito do jugo do poder de Deus – o que alertou a Igreja a ponto de convocar o Concilio de Trento (1545-1563). Este, não por acaso, proibiu o teatro, condenou os seus artistas à fome, amaldiçoou os atores, sepultou-os em terras desconsagradas, destinadas aos suicidas e hereges. Ocasionou a guerra dos 30 anos – aquele da Mãe Coragem, de Bertolt Brecht (1898-1956)-, cobriu de sangue a Alemanha – cuja população foi de 24 a 4 milhões, bem mais que o horror da Segunda Guerra. Falo de uma época onde a nudez foi escondida por panos nas igrejas a mando do papado – e hoje, por exigência diplomático-comercial feita por governantes fundamentalistas islâmicos em visita comercial a Roma. Falo do cultíssimo e cientista Cardeal Francesco Barberini (1597-1679), que reprimiu a ciência – aquele papa de Vida de Galileu, do mesmo Brecht. Falo do sangue deitado pelos escravizados até hoje. Falo de repressão da expressão qual respiro depois de se conseguir escapar a um afogamento. Exatamente como após o Concilio de Trento, tenta-se, hoje, expulsar-nos do tempo. Fundir o teatro à prática on line nos permite resistir a isso. Do templo já estamos fora há muito.

Serei crítico sem ser utópico

Qual agente artístico on line nesta escola que produz cultura ao preparar novas gerações de artistas sob a agressão estrutural do status quo da desigualdade, entendo o mundo a partir da idéia que faço de como ele poderia ser para vivermos melhor, na medida do tempo que tenho para explanar (e o leitor, para ler) a experiência do teatro sob a covid-19. Sob uma estética de sintaxe teatral que já deu o que tinha que dar, por assunto, narração e performance, a somatória de experiências de “fundição” da representação força o enfrentamento à quem insiste na nostalgia do que ocorre só presencialmente. O momento atual exige desprendimento formal, ousadia existencial, inteligência política, estudo, erros crassos, desfaçatez experimental e tolerância ao diverso. Exige habilidade semântica.

O leitor não se assuste

Habilidade semântica e tempo: nosso presente é de vertiginosa mudança da capacidade semântica das pessoas. Não é a primeira vez que ocorre: Houve em Roma, em Grécia, em Índia, em África, em América pré colombiana.

Gostaria de deter-me aqui numa situação particularmente parecida à que agora vivemos, por via da velocidade da escritura.

Paris era um lugar lúgubre quando o analfabeto – portanto, de raciocínio oral – Carlos Magno (742-814) impôs o seu reino católico. Mente simples, originou um fato que revolucionaria as relações políticas herdadas da antiguidade em meio ao isolamento feudal: criou uma chancelaria que anotava os atos da política, do comercio, da estética. Ela passou, aos poucos, a ser o veículo utilitário do poder. Foi numa Paris lamacenta e inculta, com parcos meios em relação à urbe clássica, ao iluminado califado ibérico, aos impérios astecas e incas, aos chineses, aos egípcios e a boa parte dos centenários povos da África. Para encurtar a estória: era um novo princípio que se resumia na frase latina “TU ME DEFENDAS GLADIO; EGO TE DEFENDAM CALAMO!” (“Tu me defendas com o gladio, eu te defendo com o cálamo”), oriunda de uma disputa entre o poder papal versus o poder temporal, via filosofia canônica escolástica. Cálamo era o pequeno pincel, lento, das miniaturas medievais, que havia substituído, séculos atrás, o “stillus” romano que escrevia e cancelava os rolos e os papiros. O cálamo permitiu a invenção do “liber”- o livro – que permitia o folheio de uma obra ao invés de desenrolá-la – que livrava o leitor de dever decorá-lo para se ter ideia exata de seu conteúdo.

Serei prático

O cálamo, apetrecho concreto do poder temporal, foi substituído pela pena de ganso. Um cálamo escrevia no máximo três palavras sem reabastecimento de tinta. Lento, era reflexivo. Uma pena percorria frases inteiras. O pensamento passou a ser anotado muito mais rapidamente. A capacidade semântica modificou-se. Não se tratava de um pensamento “melhor” que o outro, mas de dois pensamentos diversos que exararam um paradoxo entre eles: a volta da tartaruga e da lebre, do velho Zenāo.

Não sendo auto diplomado, evito a comparação fajuta feita por sedizentes filósofos. Mas imagino o paradoxo entre o teatro presencial fundido com outras artes pelo novo meio on line, que o anacronismo atávico de muitos recusa. Quero imaginar que problemas poderão, talvez e finalmente, encontrar uma comunicação teatralmente mais adequada às atuais angústias e risos.

Assim como o cálamo alinhou-se e renovou a oralidade, que partiu antes, o isolamento da pandemia hodierna alinhou-se a presumíveis protocolos teatrais que, sim, encerram grande história, ancestralidade e dialética, fundamentais à nossa arte, mas não abarcam com precisão o que passamos a viver: não nos permitem resistir aos desmandos de um poder a serviço do status quo da desigualdade. Este é precisamente o lado político do que vivemos. A arte padece sob – mais uma – doença que mata, que destrói, instrumento de genocídios e aniquilações ambientais em curso, facilmente ignorados pela improvável desinformação intelectual.

Hoje

Tudo foi adiante, fomos além de Francis Bacon (1909-1992), testamos todas as representações que nos parecem possíveis da natureza humana. Em qualquer cultura, estamos adiante do pós moderno, e por isso vale muito a pena ver o que foi representado na ideografia religiosa a partir da repressão daquele velho Concílio. Um pouco antes dele, foi com Giotto (?-1337) que, pela primeira vez na pintura, viu-se dentes, afrescados na Capella degli Scrovegni, em Pádua, Itália.

Isso é relevante? É: em época de crença religiosa abertamente usada como instrumento de poder, um artista inverteu os papéis e subverteu a coisa. Pintou, na parede interna de um templo, a oralidade e a imagem, juntas. Duradouras. Também pintou sexos, pênis, pelos, empalamentos, danações infernais, línguas, torturas punitivas. E ainda: a primeira lágrima da história da pintura. Linguagem que forneceu material precioso para um período fundador do Brasil: o barroco. Seja no Ocidente, seja no Oriente, entre ameríndios e africanos, a essencial visada barroca se deu. Foi resultado de mutações, perspectivas, pequenas obras cotidianas contrapostas às “grandes obras”’. Artes menores e maiores fundiram se. Como hoje, de novo.

Representações do tipo fazem valer a importância da velocidade do pensamento adequada à semântica, das palavras e das imagens, produzida na mente do narratário, aquele que recebe a mensagem do artista.

O velho professor citado no começo deste artigo aconselhava a passar adiante o saber que se herda. REPENSAR. Revoluir, mais que evoluir. Gosto do neologismo. Reconstruir um imaginário na mente de quem frui de uma obra de arte define a sua qualidade.

Fechar os olhos a essa situação dos “res” promove um comodismo de graves consequências. Favorece o que Marcelo Coelho chama de radicalização política, de incapacidade crítica , de perda do senso de realidade, de bolha de opinião impenetrável.

Numa discussão recente na internet, um colega disparou: “O teatro online é a maior farsa contemporânea.” (sic.) Mais o afirmou que o criticou. O que seria o teatro senão “farsa”? Como a vida, a cada segundo se esfarela. Morre. No calor da discussão, respondi-lhe a obviedade de que não há mais o teatro que nos arrogamos a ter conhecido um dia. Construir a ilusão, para quem realmente vive a realidade do teatro, garante a sua eficácia na impermanência no tempo. Como qualquer ilusão, a ilusão progrediu no tabuleiro da brincadeira. Um exemplo: a família é um primeiro teatro em qualquer cultura humana. Crianças, naquele teatro – desde que sobrevivam à desgraça da violência e da iniquidade -, entendem o significado mais profundo e vital de…”acabou” [a brincadeira].

Adolescente, tive o privilégio de me apaixonar por Hamlet. Lia-o semanalmente; pude intuir porque artistas de palco exigem que a caveira de Yorik tenha, um dia, pertencido a um ser humano. Se não, o azar consequente é pior que o causado pela quebra de um espelho: a cegueira quanto ao outro de si. Mais tarde, soube que muitos atores herdeiros de famílias centenárias da tradição do kabuki suicidaram-se quando do advento do cinema. Atuaram a morte, a única coisa que não se pode fingir; e a única coisa que não se pode viver. Outros, menos desesperados, viraram narradores nas próprias salas de cinema. Era a figura do benji, nascida nova num meio arquitradicional.

O teatro “mesmo” está morto? É um clichê, mas está, sim. Está vivo? É outro clichê, mas, sim, também está. Por fim, isso nos faz parecer que a peste ateniense de há 2400 anos, narrada por Tucídides, tenha acontecido ontem, pela similaridade das narrações sobre a covid atual.

Há uma lenta e paradoxal progressão circular na arte, creio em espiral.

Percepções em Cursivo

Publicado em: 26/10/2020

Mauri Paroni
Chá e Cadernos 100.32

 

Ao inventar um curso sobre expressão artística e pandemias na história para a SP Escola de Teatro, das bíblicas pragas do Egito até a Covid-19, algumas percepções afloradas na dialética do tema vieram radicalmente chamar-me a atenção:

A construção de uma determinada obra

Obra = opera = latim opus. Gosto de ler este termo como “somatória de experiências”; meus velhos professores de história do teatro (Ettore Capriolo), de museologia e de história da arte (Concetta Zingales e Philippe Daverio) alertaram-me: desconfie se uma publicação grita “este é um artista do nosso tempo, é o futuro, é a genuína vanguarda”. Se fosse verdade, nada seria notado, pois é necessário tempo, historia e… Pandemia – a melhor criatividade nasce da revolta diante de suas consequentes mortes. Sem isso, não há meios para imaginar, criar e firmar qualquer previsão; quem prevê um percurso de construção é a arte e não o crítico de arte. O alemão Heiner Müller martelou-me quotidianamente: “se um artista importa de verdade, será perseguido pelo poder e pelo crítico… quando a arte é importante historicamente, é silenciada”.

A contração do tempo a que estamos sujeitos

Um animal como o cão percebe o tempo a 80 fotogramas por segundo. Vê em câmara lenta. O gato, a 64 – mais veloz, como num filme mudo. Seres humanos, a 60. Relativizamos tudo. A velha ideia de duração do tempo muda. A velocidade atual ainda não grita tal evidência, mas já se manifesta diante das sérias consequências comunicativas – ergo, políticas – das diferentes percepções. Ao vermos filmes sobre figuras de há mais de sessenta anos, como o super-8 do assassinato de John Kennedy, em 1963, ou as terríveis filmagens 16mm dos campos de extermínio nazistas, temos outra percepção daqueles que narraram a história por signos imagéticos antes impossíveis de serem vistos.

Espetáculos em prisões, hoje tão contemporâneos, nasceram com o Open Theatre do diretor e pedagogo Jo Chaikin (1935-2003) durante a experimentação norte americana das décadas de 1960/70; ouvir palavras de Pirandello (1867-1936) gravadas ou o último dos solistas operísticos castrados; ver a foto do suplicio e êxtase do último executado pelo império chinês feitas por George Bataille (1897-1962); sentarmo-nos numa cadeira de plástico estilo anos 70; Enfim, signos percebidos como contemporâneos são, entretanto, do passado. Max Horkheimer (1895-1973), filosofo da escola de Frankfurt, sustentava que a história um dia aparentaria estar parada. Seu colega Walter Benjamin (1892-1940) vaticinava a vertiginosa da velocidade da visão de escombros históricos deixados para trás pela progressão do anjo de Angelus Novus – pintura e ensaios homônimos. Atenção: o que escrevi aqui é MUITO diferente da picaretagem fukuyamista do “fim” da história. Em tempos da agressão desesperada de uma ordem restauradora prestes a exaurir-se, pude tatear, concretamente, na atividade pedagógica e cultural diária da SP Escola de Teatro, um aspecto importante que está se modificando nas artes do espetáculo sob a pandemia da Covid-19. Trata-se da afirmação concreta de um paradoxo: a fusão concreta das artes performativas na bidimensionalidade de uma tela – de telefone, de tablet, de computador. Cria a mesma credibilidade – pela suspensão da desconfiança descrita por Samuel Colleridge no século XVIII ocidental – das transmissões orais dos griots da África subsaariana, ou dos escritos clássicos que utilizei no curso.

Verbo

Na antiguidade clássica, o conceito de “verbo” revela um termo designador de “ação”; hoje, poderíamos amplia-lo à performance (action painting e instalação aqui incluídas). Naquele mesmo mundo antigo, a “palavra”, oriunda do latim “parabola”, trazia em si o conceito de narração. Fundiam-se. A parábola é uma invenção afro mediterrânea, presente também nas aglutinações asiáticas e ameríndias, onde a repetição induzia ao conceito de “verdade”; coisa/ação/conceito enquanto litania, em liturgia, em espetáculo – como vi nos griots. O exato oposto do emprego raso utilizado por Goebbbels e atuais discípulos mal ressuscitados.

Se este artigo fosse uma tese longa várias dezenas da páginas, poderia cartografar o paradoxal “indivisível ergo infinito” de Zenão de Eleia (490/85 – 430 a. C.). Nele, a distância entre uma lebre e uma tartaruga em competição de velocidade será sempre a mesma, uma vez que é infinita na quantidade de zeros que a exprime. Bem mais tarde, a infinitude do zero, no cálculo infinitesimal, retirou, através da matemática, o conceito de infinito do jugo do poder de Deus – o que alertou a Igreja a ponto de convocar o Concilio de Trento (1545-1563). Este, não por acaso, proibiu o teatro, condenou os seus artistas à fome, amaldiçoou os atores, sepultou-os em terras desconsagradas, destinadas aos suicidas e hereges. Ocasionou a guerra dos 30 anos – aquele da Mãe Coragem, de Bertolt Brecht (1898-1956)-, cobriu de sangue a Alemanha – cuja população foi de 24 a 4 milhões, bem mais que o horror da Segunda Guerra. Falo de uma época onde a nudez foi escondida por panos nas igrejas a mando do papado – e hoje, por exigência diplomático-comercial feita por governantes fundamentalistas islâmicos em visita comercial a Roma. Falo do cultíssimo e cientista Cardeal Francesco Barberini (1597-1679), que reprimiu a ciência – aquele papa de Vida de Galileu, do mesmo Brecht. Falo do sangue deitado pelos escravizados até hoje. Falo de repressão da expressão qual respiro depois de se conseguir escapar a um afogamento. Exatamente como após o Concilio de Trento, tenta-se, hoje, expulsar-nos do tempo. Fundir o teatro à prática on line nos permite resistir a isso. Do templo já estamos fora há muito.

Serei crítico sem ser utópico

Qual agente artístico on line nesta escola que produz cultura ao preparar novas gerações de artistas sob a agressão estrutural do status quo da desigualdade, entendo o mundo a partir da idéia que faço de como ele poderia ser para vivermos melhor, na medida do tempo que tenho para explanar (e o leitor, para ler) a experiência do teatro sob a covid-19. Sob uma estética de sintaxe teatral que já deu o que tinha que dar, por assunto, narração e performance, a somatória de experiências de “fundição” da representação força o enfrentamento à quem insiste na nostalgia do que ocorre só presencialmente. O momento atual exige desprendimento formal, ousadia existencial, inteligência política, estudo, erros crassos, desfaçatez experimental e tolerância ao diverso. Exige habilidade semântica.

O leitor não se assuste

Habilidade semântica e tempo: nosso presente é de vertiginosa mudança da capacidade semântica das pessoas. Não é a primeira vez que ocorre: Houve em Roma, em Grécia, em Índia, em África, em América pré colombiana.

Gostaria de deter-me aqui numa situação particularmente parecida à que agora vivemos, por via da velocidade da escritura.

Paris era um lugar lúgubre quando o analfabeto – portanto, de raciocínio oral – Carlos Magno (742-814) impôs o seu reino católico. Mente simples, originou um fato que revolucionaria as relações políticas herdadas da antiguidade em meio ao isolamento feudal: criou uma chancelaria que anotava os atos da política, do comercio, da estética. Ela passou, aos poucos, a ser o veículo utilitário do poder. Foi numa Paris lamacenta e inculta, com parcos meios em relação à urbe clássica, ao iluminado califado ibérico, aos impérios astecas e incas, aos chineses, aos egípcios e a boa parte dos centenários povos da África. Para encurtar a estória: era um novo princípio que se resumia na frase latina “TU ME DEFENDAS GLADIO; EGO TE DEFENDAM CALAMO!” (“Tu me defendas com o gladio, eu te defendo com o cálamo”), oriunda de uma disputa entre o poder papal versus o poder temporal, via filosofia canônica escolástica. Cálamo era o pequeno pincel, lento, das miniaturas medievais, que havia substituído, séculos atrás, o “stillus” romano que escrevia e cancelava os rolos e os papiros. O cálamo permitiu a invenção do “liber”- o livro – que permitia o folheio de uma obra ao invés de desenrolá-la – que livrava o leitor de dever decorá-lo para se ter ideia exata de seu conteúdo.

Serei prático

O cálamo, apetrecho concreto do poder temporal, foi substituído pela pena de ganso. Um cálamo escrevia no máximo três palavras sem reabastecimento de tinta. Lento, era reflexivo. Uma pena percorria frases inteiras. O pensamento passou a ser anotado muito mais rapidamente. A capacidade semântica modificou-se. Não se tratava de um pensamento “melhor” que o outro, mas de dois pensamentos diversos que exararam um paradoxo entre eles: a volta da tartaruga e da lebre, do velho Zenāo.

Não sendo auto diplomado, evito a comparação fajuta feita por sedizentes filósofos. Mas imagino o paradoxo entre o teatro presencial fundido com outras artes pelo novo meio on line, que o anacronismo atávico de muitos recusa. Quero imaginar que problemas poderão, talvez e finalmente, encontrar uma comunicação teatralmente mais adequada às atuais angústias e risos.

Assim como o cálamo alinhou-se e renovou a oralidade, que partiu antes, o isolamento da pandemia hodierna alinhou-se a presumíveis protocolos teatrais que, sim, encerram grande história, ancestralidade e dialética, fundamentais à nossa arte, mas não abarcam com precisão o que passamos a viver: não nos permitem resistir aos desmandos de um poder a serviço do status quo da desigualdade. Este é precisamente o lado político do que vivemos. A arte padece sob – mais uma – doença que mata, que destrói, instrumento de genocídios e aniquilações ambientais em curso, facilmente ignorados pela improvável desinformação intelectual.

Hoje

Tudo foi adiante, fomos além de Francis Bacon (1909-1992), testamos todas as representações que nos parecem possíveis da natureza humana. Em qualquer cultura, estamos adiante do pós moderno, e por isso vale muito a pena ver o que foi representado na ideografia religiosa a partir da repressão daquele velho Concílio. Um pouco antes dele, foi com Giotto (?-1337) que, pela primeira vez na pintura, viu-se dentes, afrescados na Capella degli Scrovegni, em Pádua, Itália.

Isso é relevante? É: em época de crença religiosa abertamente usada como instrumento de poder, um artista inverteu os papéis e subverteu a coisa. Pintou, na parede interna de um templo, a oralidade e a imagem, juntas. Duradouras. Também pintou sexos, pênis, pelos, empalamentos, danações infernais, línguas, torturas punitivas. E ainda: a primeira lágrima da história da pintura. Linguagem que forneceu material precioso para um período fundador do Brasil: o barroco. Seja no Ocidente, seja no Oriente, entre ameríndios e africanos, a essencial visada barroca se deu. Foi resultado de mutações, perspectivas, pequenas obras cotidianas contrapostas às “grandes obras”’. Artes menores e maiores fundiram se. Como hoje, de novo.

Representações do tipo fazem valer a importância da velocidade do pensamento adequada à semântica, das palavras e das imagens, produzida na mente do narratário, aquele que recebe a mensagem do artista.

O velho professor citado no começo deste artigo aconselhava a passar adiante o saber que se herda. REPENSAR. Revoluir, mais que evoluir. Gosto do neologismo. Reconstruir um imaginário na mente de quem frui de uma obra de arte define a sua qualidade.

Fechar os olhos a essa situação dos “res” promove um comodismo de graves consequências. Favorece o que Marcelo Coelho chama de radicalização política, de incapacidade crítica , de perda do senso de realidade, de bolha de opinião impenetrável.

Numa discussão recente na internet, um colega disparou: “O teatro online é a maior farsa contemporânea.” (sic.) Mais o afirmou que o criticou. O que seria o teatro senão “farsa”? Como a vida, a cada segundo se esfarela. Morre. No calor da discussão, respondi-lhe a obviedade de que não há mais o teatro que nos arrogamos a ter conhecido um dia. Construir a ilusão, para quem realmente vive a realidade do teatro, garante a sua eficácia na impermanência no tempo. Como qualquer ilusão, a ilusão progrediu no tabuleiro da brincadeira. Um exemplo: a família é um primeiro teatro em qualquer cultura humana. Crianças, naquele teatro – desde que sobrevivam à desgraça da violência e da iniquidade -, entendem o significado mais profundo e vital de…”acabou” [a brincadeira].

Adolescente, tive o privilégio de me apaixonar por Hamlet. Lia-o semanalmente; pude intuir porque artistas de palco exigem que a caveira de Yorik tenha, um dia, pertencido a um ser humano. Se não, o azar consequente é pior que o causado pela quebra de um espelho: a cegueira quanto ao outro de si. Mais tarde, soube que muitos atores herdeiros de famílias centenárias da tradição do kabuki suicidaram-se quando do advento do cinema. Atuaram a morte, a única coisa que não se pode fingir; e a única coisa que não se pode viver. Outros, menos desesperados, viraram narradores nas próprias salas de cinema. Era a figura do benji, nascida nova num meio arquitradicional.

O teatro “mesmo” está morto? É um clichê, mas está, sim. Está vivo? É outro clichê, mas, sim, também está. Por fim, isso nos faz parecer que a peste ateniense de há 2400 anos, narrada por Tucídides, tenha acontecido ontem, pela similaridade das narrações sobre a covid atual.

Há uma lenta e paradoxal progressão circular na arte, creio em espiral.




Posts Archives

Percepções em Cursivo

Posted on

Publicado em: 26/10/2020 Mauri Paroni Chá e Cadernos 100.32   Ao inventar um curso sobre expressão artística e pandemias na história para a SP…

Read more

Esta é uma coluna de testes

Posted on

Coluna de teste. Coluna de teste. Coluna de teste. Coluna de teste. Coluna de teste. Coluna de teste. Coluna de teste. Coluna de teste. Coluna de teste. Coluna de teste. Coluna de teste. Coluna…

Read more