Vertigem terceira: Pandemia, teatro, Defoe e Camus

Publicado em: 06/05/2020

Mauri Paroni

Chá e Cadernos 100.28

“Aqui, não posso ir adiante. Serei considerado um censor talvez injusto se entrar na desagradável tarefa de refletir, por qualquer que seja o motivo, sobre a ingratidão e o retorno a todas as formas de perversidade entre nós, das quais eu fui muito testemunha ocular”.

O segundo livro mais instigador ao teatro narrativo foi escrito nada mais nada menos que pelo autor de Robinson Crusoé, Daniel Defoe (1660-1731): O Diário de um Ano da Peste.

 Quando ele tinha cinco anos de idade, no ano de 1665, uma epidemia de peste bubônicdizimou 70.000 vidas em Londres. Defoe foi um jornalista por vocação: fazia muito sucesso narrando confissões finais de criminosos prestes a serem executados, um pesadelo escandaloso de assassínios como os atuais programas de mundo cão. Estava longe, porém, da atual peste informativa que desinforma, ou melhor, deforma pelo contexto.

Apesar de sua natural vocação, ninguém pode dar a entender que o Diário da Peste tenha sido uma reportagem realizada aos cinco anos de idade. Anos depois, Defoe criou uma personagem que vaga pela cidade a ouvir as estórias da peste. Narrou-as em forma jornalística, colhendo fatos, relatos e documentos da época do ocorrido. Criou cenas e diálogos vertiginosos cujo rigor descritivo que não trai uma suposta verdade. Serviu-se da beleza da forma onde os dados não a ofereceram. Quem é poeta, também é poeta na prosa. Três séculos mais tarde, Brecht usou a distância da frieza, mas sempre se serviu da beleza da poesia. Peter Weiss foi mais preciso ainda. Prosa poética. Fatos, mas não só: muitas boas ideias. Um ponto de vista forte, possível, que agora precisamos como nunca na arte.

A linha de raciocínio do autor é baseada na descrição do comportamento das pessoas e de fatores que, além da doença física, lesavam psicologicamente as pessoas. Há narrações que antecipam as barbaridades genocidas do século XX: bastava uma casa ser marcada com a peste, trancavam-se todos inapelavelmente. Onde houvesse apestados, famílias inteiras, numerosíssimas, eram sigiladas. Os mais necessitados não tinham recursos para sair da cidade ou para isolarem-se sem sair às ruas. Graças ao progresso do conhecimento, sabe-se hoje o que propaga uma pandemia de peste bubônica. Pensava-se fosse através da respiração do mesmo ar, segundo a medicina aristotélica. Mas a transmissão da peste bubônica ocorria quando o rato contaminado alimentava pulgas que posteriormente picavam o ser humano.

Hoje, ironicamente, o fetichismo do crescimento do consumo faz governantes fomentadores de ignorância afrouxarem a única arma reconhecidamente eficaz contra a propagação da pandemia atual. Isso é resultado da hipocrisia falsamente democrática de um sistema sedizente civilizado – o qual escolhe pagar, naquela mesma Europa, um milhão de euros mensais a um jogador de futebol e “oferecer” um salário de fome a um pesquisador cientifico; a estrangular universidades, a sustar bolsas de estudo, a isentar crendices e igrejas de impostos devidos, abrir cassinos – incentivo à lavagem de dinheiro e incremento da desigualdade social. Calculo e uso frio da mortandade como práxis política. Não é possível não voltarmos à pestilência – não é esta que vem até nós.

Defoe nos traz a Albert Camus (1913-1960). Depois da Segunda Grande Guerra, o ator e diretor Jean Louis Barrault (1910-1994) trabalhava sobre o Diário de Defoe. Sabia que Camus também trabalhava sobre o assunto, redigindo A Peste, publicado em 1947 (em português, publicado pela Editora Record na tradução Valerie Rumjanek).  Perguntou a Camus se lhe interessava fazer alguma coisa teatral com o seu romance. Provavelmente, queria algo mais simbolicamente político, dado o momento de reconstrução depois da Segunda Guerra e da memória sobre o Nazi fascismo. Disso nasceu a peça Estado de Sítio.

Para o palco, Camus acentuou a simbologia. Criou uma protagonista metafórica, a Peste. Transformou a sua prosa num moderno auto sacramental, ao modo ibérico que usou para a dramaturgia de seu próprio romance. Foi autor e dramaturgista ao mesmo tempo, atacou as abstrações dos intelectuais da época; com isso, granjeou boa parte do ostracismo a que foi relegado por ser libertário. Por toda a entourage de Sartre, por exemplo. Em resposta, ganhou o prêmio Nobel da Paz de 1957, antes de morrer num acidente de automóvel, talvez um atentado. Irritou os soviéticos estalinistas e ao mesmo tempo a direita colonialista com todos os seus escritos, mas ele considerava Estado de Sitio a sua obra mais perto de sua personalidade intelectual. Basta ler poucas frases de um de seus ensaios para perceber o porquê foi tão isolado no final de sua vida, apesar de ser o diretor da Nouvelle Revue Française, da Gallimard.

Cito o Homem Revoltado, de 1951, pivô da briga com Jean Paul Sartre (1905-1980) o qual atiçou um de seus cães de guarda contra livro. Camus respondeu-lhe diretamente. A briga foi enorme e importante. Sartre, oficialmente alinhado com o Partido Comunista Francês, cujo viés estalinista da época estava já decaindo, inspirou um verdadeiro linchamento a Camus. Como todo linchamento, mentiras ressentidas empurraram-lhe a pecha de direitista simplório, que não era absolutamente o seu caso.

Vale a pena ler a integra, mas cito breves trechos:

 “Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a des­culpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar as­sassinos em juízes. Heathcliff, em O morro dos ventos uivantes, seria capaz de ma­ tar a terra inteira para possuir Kathie, mas não teria a idéia de dizer que esse assassinato é racional ou justificado por um sistema. Ele o cometeria, aí termina toda a sua crença. Isso implica a força do amor e caráter. Sendo rara a força do amor, o crime continua ex­ cepcional, conservando desse modo o seu aspecto de transgressão. Mas a partir do momento em que, na falta do caráter, o homem corre para refugiar-se em uma doutrina, a partir do instante em que o crime é racionalizado, ele prolifera como a própria razão, assumindo todas as figuras do silogismo. Ele, que era solitário como o grito, ei-lo universal como a ciência. Ontem julgado, hoje faz-se lei.

(…)

“O ateísmo marxista é absoluto. No entanto, ele restabelece o ser supremo ao nível do homem. A crítica da religião chega a esta doutrina na qual o homem é para o homem o ser supremo. Sob este ângulo, o socialismo é um empreendimento de divinização do homem e adquiriu certas características das religiões tradicionais.”

“O movimento revolucionário, no final do século XIX e no começo do XX, viveu como os primeiros cristãos, à espera do fim do mundo e da Parúsia do Cristo proletário.”

(…)

“A revolução russa continua só, viva contra seu próprio sistema, longe das portas celestes, com um apocalipse a organizar. A Parúsia ainda está longe. A fé está intacta, mas se curva a uma enorme massa de problemas e [segunda vinda de Cristo à Terra, para o Juízo Final. (MP)] descobertas que o marxismo não havia previsto. A nova igreja está de novo frente a Galileu: para conservar a fé, ela vai negar o sol e humilhar o homem livre.”

(…)

“Depois de descartada a hipótese de suicídio só nos resta o otimismo.”

(…)

“Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.”

(…)

“O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.”

(Tradução de Valerie Rumjanek, Editora Record, 1996.)

Prefiro não citar trechos de Estado de Sítio para convidar o leitor a visionar o texto da peça toda. Hoje vivemos exatamente a mesma fantasmagoria do uso político e econômico das versões sobre o que ocorre numa pandemia.  Já a obra camusiana traz a realidade através da metáfora e da fabulação da história: esta requer tempo e espírito crítico para não se naufragar na cegueira política, que é mais pestilenta que a peste.

Albert Camus, por Petr Vorel

Encerro sugerindo a intrigante resenha do filosofo francês Roland Barthes sobre a Peste, disponível aqui

 Acontece que às vezes o mal tem feições humanas, e é isto o que a Peste não é capaz de dizer. Defender-se da Peste é, apesar dos esforços do livro, um problema antes de conduta que de escolha. Mas defender-se de homens, ser seu carrasco para não ser sua vítima – todo o problema começa quando a Peste não é mais apenas a Peste, mas também imagem de um mal de rosto humano.” (…)

Roland Barthes

 

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