Rede de solidariedade

Publicado em: 13/09/2013

Acabo de voltar de Cabo Verde, país da África para onde fui com duas missões: primeiramente, para participar, com a minha companhia, Os Satyros, da 19ª edição do Festival Internacional de Teatro do Mindelo, o Mindelact, que acontece anualmente na cidade de Mindelo; depois, para falar sobre a nossa SP Escola de Teatro no 1º Encontro Internacional de Programadores de Artes Cênicas, a convite do Ministério da Cultura de Cabo Verde.

Foram dias intensos, nos quais aprendizado, trabalho e diversão se mesclaram. Não sei dizer o que é mais importante, mas, para mim, o trabalho é sempre uma grande festa. E vou além: só acredito no trabalho quando ele é feito disso tudo, quando torna-se inerente ao prazer, à felicidade e à própria vida.

Travei contato com vários grupos, autores, encenadores e artistas de Cabo Verde, que me mostraram um teatro vivo e pulsante. A montagem de “Tempêstad”, adaptação da peça de William Shakespeare “A tempestade”, dirigida por João Branco – e toda interpretada em criolo, o dialeto cabo-verdiano –, é antológica e ficará certamente entre as coisas mais fantásticas que vi em toda minha vida. Mostrando que a erudição pode – e deve – se mesclar ao popular, a peça provou que Shakespeare, em Cabo Verde, continua atualíssimo.

Conhecer o teatro cabo-verdiano e comprovar que existe tanta vida e inteligência além dos nossos territórios é não apenas importante, mas motivador. Um exercício de alteridade que nos faz concluir, com nossos próprios olhos, que a arte é universal e que qualquer tentativa de fazer com que ela se limite a este ou aquele padrão será vã.

Estamos falando de um país constituído por dez ilhas, localizado no meio do oceano Atlântico, onde não existe sequer um rio de água doce. Trata-se de um país onde eu sinto que existe esperança, onde apostam no futuro como algo transformador – ao contrário de nós, que parecemos viver em um abismo.

Um país onde a construção ainda está em processo, mas as pessoas acreditam no futuro. Onde não existe disparidades entre classes sociais, mas sobra solidariedade, e as pessoas se doam em todos os aspectos, de uma maneira linda, das pequenas às grandes relações. Onde a troca ainda é vista como uma possibilidade e o capital ainda não os devastou.

Naquele lugar de paisagens incríveis, apresentamos, com muito sucesso, nosso “Inferno na paisagem belga”. E que honra foi receber o elogio de João Branco, diretor do Mindelact: “A Companhia Os Satyros, com o seu espetáculo (…) juntou poesia com provocação, e ofertou-nos um teatro de alma lavada! O Teatro precisa de ser re-inventado? Sim, mas com grupos como este o caminho fica mais visível.”

Tivemos a oportunidade de apresentar a Escola e abordar o nosso complexo sistema pedagógico em dois encontros. No primeiro, para programadores de vários lugares do mundo: Portugal, Espanha, Itália, Angola, Brasil e Cabo Verde. Além disso, pudemos mostrar um pouco da Escola para o público e firmamos o desejo de ter entre nós aprendizes de Cabo Verde.

Finalmente: há muito o que se fazer pela África. Venho com a ideia de criar uma rede de solidariedade. Mas por enquanto é só, depois conto mais sobre isso…

* por Ivam Cabral, especial para o portal da SP Escola de Teatro.

 

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