Pausa nas grandes reflexões ligeiras e irrelevantes!

Publicado em: 02/10/2017

Uma palavra sobre a morte… Ninguém morrerá: seremos todos morridos!

1) Frequentemente, na psicanálise e no teatro, os fenômenos que se dão à revelia do sujeito são aqueles que mais nos interessam. Eu explico: aqueles fenômenos que ocorrem na contramão do famoso non ducor duco, conforme já se disse noutro lugar [veja-se o ensaio “a pegada e o pé”, revista A[L]BERTO #1.

Na passagem do século 19 para o século 20, esse mote – que traduz nossa ilusão de controle – levou um grande tombo: “não sou conduzido, conduzo”, era a utopia da ciência que, via racionalidade, decifraria os mistérios todos, até que não sobrasse pedra sobre pedra.

Essa era a promessa. Mas o cobertor foi curto: a linguagem fracassa na tentativa de cobrir o real. O território não se encaixa no mapa. Um resto de vertigem sobra inexplicado, desafiando o investigador.

Esse zeitgeist inunda todas as áreas do saber, da filosofia à estética. Do lado da psicanálise, Freud ilumina justamente os pedaços estrangeiros de que somos compostos: aquelas porções indispostas em se deixar capturar num corpo teórico que aplacasse nosso desamparo. Habitamos um mundo vasto e sem sentido, composto de heterogêneos, estranhas indeterminações, sobre os quais não há trégua, pausa ou descanso. Um mundo que exige do sujeito um trabalho de decifração sem-fim.

Do lado do teatro, razão de ser das artes, a força dionisíaca sempre esteve intacta, aquela força anterior à forma, e que escapa dos códigos, que não cabe em logos, porque não tem cabimento. Os expedientes de simbolização do sujeito humano encontram um muro intransponível em seu trabalho de digestão.

É assim, nesse espírito, que no teatro, como se sabe, o ator é agido. Na psicanálise, o paciente é falado pelo seu próprio discurso. Nos sonhos, o sujeito é sonhado – e invadido por imagens que desfilam, escapando do controle do sonhador… interrogando-o.

Essa posição apassivada dos tempos que correm é extremamente dolorosa, porque ela nos retira de um lugar utópico de ilusão. Não há mais bússola. Não há mais modelo de saúde, nem sexual, nem psíquico. Daqui pra frente, estamos sempre diante de arranjos, recortes, cacos, fragmentos. Enlutados pela unidade que se perdeu (e que de fato nunca houve…).

2) Uma confissão. Sempre me impressionou, sobretudo quando criança, que ao anunciar o falecimento de alguém próximo (ou distante), se diz: “Fulano morreu”. A mim parecia que o falecido havia ativamente “feito alguma coisa”. E não “qualquer coisa”, mas a coisa mais radical que se pode fazer. Talvez eu me impressionasse porque a própria notícia e o fato ficavam na minha cabeça e no meu peito sempre-ocorrendo. A voz do mensageiro ficava sempre-me-informando daquela morte. E o morto, sempre-morrendo. E eu sempre me perguntando: “Mas, afinal, por que ele ‘fez’ isso?”.

Acho hoje que, nesse ponto, há um equívoco da língua, noutras vezes tão sábia. Pois no momento em que é mais passivo, ao morrer, entregando-se a mais completa e irreversível escuridão, o sujeito não morre, mas, ao invés, é morrido…

Não penso, entretanto, evidentemente, que uma correção no léxico faria com que encarássemos a morte com menos espanto.




 

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