O Taxidermista

Publicado em: 08/09/2020

“Como você se imagina, para sempre?”
Dr. Sharif, em “O taxidermista”

 

Para Roland Barthes, em “A câmera clara”, estar diante de uma lente objetiva significa, metaforicamente, fazer a existência depender do fotógrafo. Mas essa aflição da incerteza de como o que eu gostaria que fosse captado e apresentado aos pósteros é sempre vã. A fotografia traz a experiência de um momento sutil em que não somos nem sujeito e nem objeto, mas antes um sujeito que se sente tornar-se objeto: uma microexperiência da morte. O gesto do fotógrafo é o embalsamento da vida.

A essência da fotografia consiste em ratificar o que ela representa: tudo que interessa já aconteceu ou daquilo que foi, nas palavras de Barthes. Essa autenticação — estado de desvelamento — da vida, da existência, é o que elevaria, sem mesmo ser necessário, o status da força constativa da fotografia.

“O taxidermista”, escrito e dirigido por René Piazentin, montado com a Cia. dos Imaginários na 1ª Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos, do Centro Cultural São Paulo – fotografado em 2015 – opera nessa mesma lógica da tentativa humana de se manter perene, vivo. A obra, que partiu de uma matéria jornalística sobre um zoológico na região da Cisjordânia onde animais mortos eram empalhados, apresenta a figura do Dr. Sharif, um veterinário que se torna taxidermista de forma autodidata e tenta perpetuar parte do que a morte varreu da sua realidade.


A grande beleza da encenação, proposta por Piazentin já em sala de ensaio, está na transposição dos figurinos realizada — durante toda a encenação — pelo elenco, composto por Aline Baba, Kedma Franza, Luana Frez, Renata Weinberger e Waldir Medeiros, potencializando a ideia de taxidermia, em que o mais importante está na estrutura e, também, na ideia de transitoriedade e das múltiplas identidades assumidas no cotidiano. Apenas a personagem do Dr. Sharif, interpretado por Rodrigo Sanches, se mantém constante, quase como uma testemunha “grandi” ocular das mudanças ocorridas na cena: um fotógrafo em busca de indícios fragmentados pelos modos de viver.

René também assina a idealização do cenário e divide a criação dos figurinos com Vanusa Costa e da iluminação com Rodrigo Sanches.

A taxidermia proposta pela Cia. dos Imaginários, bem como a fotografia, fabricam um outro corpo, metamorfoseando-o em imagem de culto, imagem mortificada. Ambas propõem uma associação ao modo como queremos/necessitamos ser vistos perante a sociedade, o produto dessa operação, nossa situação financeira, estética e social.

A ideia de uma fotografia operando como espelho da realidade, a imagem fidedigna de uma vida ou um modo de viver — a imitação mais perfeita da realidade —, esbarra na desconstrução de um modelo ideológico determinado culturalmente e na constatação de que a imagem fotográfica não se impõe como uma evidência para qualquer receptor: essa recepção necessita de um aprendizado dos códigos que serão lidos.

Diante do exposto, penso que podemos ser imaginados, para certa posteridade, como a soma das nossas escolhas, para além das nossas carcaças ideologizadas, mas nem sempre disso conscientes.

– Concorda, Dr. Sharif?

 

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