O país do teatro

Publicado em: 02/10/2017

Em Cabo Verde festejou-se o teatro durante 31 dias em praticamente todas as ilhas. Para se entender a evolução destas duas últimas décadas, é preciso ter consciência que o Dia Mundial do Teatro foi comemorado de uma forma cerimonial, pela primeira vez, já no final do século XX, em 1999. No ano seguinte, a Associação Artística e Cultural Mindelact surgiu com um novo conceito, o “Março – Mês do Teatro” e a ideia era estender as comemorações do Dia Mundial do Teatro por todo o mês. O primeiro lema, que ainda hoje perdura, foi “mais teatro para um melhor teatro”.

O interessante é que uma atividade que nasceu de um movimento associativo local, se transformou, hoje e passado uma década e meia, numa iniciativa nacional, adotada por grupos, companhias, associações, governo central e prefeituras. O mês de março se transformou num mês de teatro no arquipélago e o principal objetivo que o originou – a promoção da arte cênica em Cabo Verde – é plenamente atingido.

Em todas as ilhas se fez e promoveu o teatro em Cabo Verde. Na minha cidade, no Mindelo, foram apresentadas mais de duas dezenas de peças diferentes. Uma das companhias locais, com uma produção chamada “Cinco peças para cinco sentidos”, atingiu a proeza de apresentar 70 espetáculos no espaço de quatro dias, num dos edifícios mais antigos e emblemáticos da cidade. Essa companhia, chamada Trupe Pará Moss, e cuja diretora artística é Janaina Alves, uma brasileira do Piauí, propôs cinco peças curtas. Em cada uma delas o público era como que obrigado a utilizar um determinado sentido. No paladar, as pessoas viam a peça à volta de uma mesa, enquanto comiam uma refeição completa, com entrada, prato principal e sobremesa. No tato, as pessoas entravam numa sala de operações de um hospital e no escuro eram levadas para a maca, sendo “operadas”. Na audição, a peça passava-se dentro de um automóvel, e o público ouvia a conversa através da amplificação sonora, a uma distância considerável do veículo. A companhia repetia as cinco peças três vezes por dia e, no terceiro dia de apresentação, a procura foi tanta que resolveram fazer mais uma sessão extra.

Isso de alguma forma exemplifica o entusiasmo que a arte cênica vem conquistando em todos os cantos destas ilhas, mesmo que o lugar-comum seja a falta de condições. Ensaia-se em terraços, quintais, casas particulares, salas emprestadas, em qualquer lugar. Por haver falta de auditórios e espaços equipados para apresentação de espetáculos, a imaginação avança e faz-se onde e como se pode. Novamente em terraços, quintais, nas ruas, edifícios que se transformam em pequenos auditórios. Não se pode é deixar de fazer teatro. A arte cênica tornou-se, em Cabo Verde, um bem de primeira necessidade.  Lindo, isso, não?

Há falta de formação, de material, de técnicos, muitas vezes de conhecimento. Não há falta de vontade, de energia, de atrevimento e hoje, pasme-se, o teatro deixou de ser o lugar do contrapoder, para ser poder. O número dois do nosso Ministério da Cultura é um ator e diretor de teatro. Vários dos responsáveis pela política cultural das prefeituras, são diretores de companhias de teatro nas suas cidades. A visibilidade que o teatro hoje permite também se tornou apelativa. Os meios de comunicação social sabem que o assunto interessa, correm atrás, entrevistam, promovem e a vaidade, tão natural quanto humana, torna-se uma motivação extra e ajuda a entender os muitos sacrifícios que se fazem aqui para conseguir montar uma peça de teatro.

Num país de emigração, onde a necessidade (e tantas vezes o sonho e a ilusão) de evasão sempre foi grande – a psicologia social explica que esse é um fenêmeno natural nos ilhéus – o teatro tornou-se também um passaporte para o exterior, com a proliferação do mercado dos festivais de teatro e a democratização da informação. Hoje, já é natural que criadores apostem em espetáculos de pequeno formato, pensando em futuras e imediatas candidaturas a festivais no exterior. O teatro cabo-verdiano internacionalizou-se. Tornou-se apelativo e sedutor.

Se tudo isto apenas traz sinais positivos? Naturalmente que não. A pressa continua sendo inimiga da perfeição e a sede de protagonismo que esta onda teatral provoca, dá azo a que em muitos casos o produto final seja descuidado e de má qualidade. Sorte nossa que temos um público generoso mas conhecedor. Que admite o esforço mas não passa a mão na cabeça dos criadores. Sendo verdade que falta uma cultura crítica – ela é próxima do zero, atualmente –, também podemos dizer que hoje, no patamar em que nos encontramos, fruto de muitas e belas conquistas, temos que nos obrigar a fazer melhor, ser muito mais exigentes conosco e com os nossos parceiros de cena, nos grupos e companhias onde estamos inseridos. A popularidade carrega consigo muitas vezes a mediocridade e mais do que incentivo deveria servir de alerta.

Pessoalmente, e depois de uma temporada, de uma estreia, fica sempre um vazio, uma angústia muito grande. Mesmo depois de tantas palavras elogiosas – “incrível”, “intenso”, “diferente”, “estou de boca aberta”, “extraordinário trabalho” – que alguns espectadores deixaram registado à saída do local de apresentação, mesmo sabendo que cumprimos a nossa missão, com suor, sangue, muitas nódoas negras e horas de sono perdidas, fica-me um vazio, como o de um filho que já foi, para longe, viver a sua vida. Hoje, como de todas as outras vezes, parece que carrego comigo todas as dores do mundo.