Movimento dos Teatros da Praça Roosevelt (MTR)

Publicado em: 02/10/2017

Impressionante, mas impressionante mesmo.

Tanta gente fala bem ou mal, tanto faz, do Movimento dos Teatros da Praça Roosevelt (MTR) sem nunca ter pisado lá.

 

E viram o meu convencimento? Criei – propositadamente é importante ressaltar – até uma sigla para o movimento. Sim, é indiscutível que o MTR lançou um novo olhar para o fazer teatral. Sobretudo, para a dramaturgia nacional. Que antes – e me perdoem a total falta de humildade, mas agora que comecei vamos lá – era lançado apenas às grandes produções.

No Satyros (e apesar de todas as críticas), fazemos há anos um verdadeiro rodízio de produções. Um pequenino espaço que, há mais de uma década, recebe semanalmente dezenas de produções distintas. Before Satyros, era impossível pensar, por exemplo, que as salas do (saudoso) Sesc Paulista pudessem existir. Já tinham pensado a respeito? Isso é fato; história, portanto.

Curioso: prêmios de todos os tipos foram concedidos a produções apresentadas neste espaço pequenino, espremido e fora do eixo.

Mas ok. O jornal O Globo falou, no último fim de semana, alguma coisa sobre o MTR e, no Facebook, um monte de gente – um monte mesmo! – veio com armas em punho dizer coisas como:

Praça Roosevelt! Bleargh!!! Rsrsrs

O que será que isso quer dizer? Esta pessoa (um ator que eu não tenho nenhuma relação e não sei direito quem é), com este “Bleargh!!!”, está me chamando pra uma briga? Será?

Ou quando um outro comentário diz assim:

…nunca emplacou nada no rio e foi pra são Paulo tentar a vida na tal praça Roosevelt, ou seja, em luigar nenhum (sic)

Será, também, que essa pessoa aí (um diretor renomado), quando faz este comentário, está dizendo o quê? Por que tanto preconceito? Ele nunca viu o trabalho do pessoal do MTR.

O mesmo diretor ainda faz algumas comparações tipo:

 …que este artista nunca foi visto nem por duas casas lotadas do João caetanos e somarmos todo mundo. (sic)

E, para justificar um monte de barbarismos, o diretor em questão cita “Mozart, Bach, Bethoven (sic), Tcheckov, Ibsen, Shaw, Martins Pena e Nelson Rodrigues” para afirmar que “nenhum deles trabalhou para seus próprios pares e todos, sem excessão (sic também), buscavam atingir alguém, o público, sem o qual, o artista é apenas onanista”.

Será que eles, ao refletirem sobre o “peixe pequeno” e o “tubarão” não pensaram que as “grandes” revoluções – não apenas no campo das artes – aconteceram sempre a partir de movimentos singulares com poucas – pouquíssimas mesmo! – pessoas agindo? No início, a revolução cubana, por exemplo, foi a revolução do lápis, só isso. Só depois é que aconteceu a adesão popular. Ou a dos cravos, em Portugal, que foi detonada por uma canção. Uma simples canção, a “Vila Grândola Morena” que, até aquele momento, nem tinha sido comercializada, conhecida por meia dúzia de sonhadores.

No teatro, e para citar só algumas poucas revoluções, temos Grotowski, Kantor ou Beckett, gente que levou anos e anos até lotar “duas casas do João Caetano”, mas que mudou a história do teatro –  e da humanidade – pra sempre. Estes gênios nunca cobiçaram as lotações esgotadas de qualquer musical da Broadway porque eles não faziam teatro pensando nas bilheterias.

Mas é assim. Eu sou um sonhador e continuarei a imaginar que do Satyros, meu casebre da Praça Roosevelt, ainda vou chegar à burguesia, aos humildes, à periferia para levar, ainda que timidamente (a plateia do Satyros tem, em média, 50 lugares), uma nova alternativa para os meus contemporâneos. Porque, escrevam aí: “Eu quero mudar o mundo!”.