Ministério da Dor

Publicado em: 02/10/2017

O ensaísta português João Barrento escreveu no seu livro “A espiral vertiginosa”: “Não conhecemos a dor. Não queremos conhecê-la, nas sociedades anestesiadas em que vivemos, no mundo ocidental ou ocidentalizado. Perguntar-se-á: e todas as dores deste século? E África, e a Palestina, e o Kosovo, agora mesmo? Direi ainda que não as conhecemos: não fizemos o trabalho de luto sobre elas, podemos reconhecer a dor de cada vítima da barbárie, mas a dessolidarização constitutiva da sociedade de massas, mediatizada e globalizada, impede-nos de chegar a uma catarse coletiva, de ir além de um simulacro, de viver mais o espectáculo da dor.”

 

Estou cada vez mais convencido que é isso mesmo que nos falta. E nos vai faltando de forma mais grave e urgente à medida que o tempo passa e continuamos com as nossas cabeças enfiadas num monte de areia constituída por certos conceitos que nos embriagam ou, pior ainda, nos anestesiam, como sejam os de desenvolvimento sustentado, entretenimento, indústrias culturais, investimento externo, crescimento econômico. Sim, todas estas pílulas que nos são fornecidas tão generosamente pela sociedade capitalista nos fazem olvidar que um lugar que não chora as suas dores perde a sua identidade.

 

Quem conhece minimamente a História está consciente de que isto não é nenhuma novidade. Na verdade, desde os gregos que não se choram as dores com olhos de ver e o coração em sangue. No mundo de paixões que era o da tragédia antiga clássica, a dor – e também a alegria, o canto e o êxtase – eram matéria-prima da vida ritualizada. Escreve João Barrento, “a vida foi-se dessacralizando, tornou-se mais confortável, mais baça… e mais longa. Ficamos mais sós. Sós, não porque nos faltassem os outros, muito pelo contrário. Ficamos sós porque fomos amputados de alguma coisa que era parte de nós”.

 

Ao contrário, em vez de identificar, isolar e ritualizar as dores das nossas vidas, sejam elas individuais ou coletivas, acumulamos coisas. Objetos, muitos. E sentimentos transformados em coisas. Acumulamos panfletos, convicções sem significado, namoradas e amantes, amigos no Facebook, downloads de músicas em formato mp3, experiências pouco ou nada vivenciadas, canais de televisão. Acumulamos celulares e computadores portáteis. E a acumulação converte-se em lixo. As nossas dores estão resumidas ao conteúdo do saco do lixo que vomitamos todos os dias para os contentores (quando os há).

 

Cabo Verde já foi um povo que chorou e viveu as suas dores. O ato de abrir a porta para oferecer um prato de comida, de contar histórias ao final da tarde, do sair pela noite cantando serenatas não programadas previamente, são resquícios e sinais de uma certa sociologia do estar com o outro que eram o resultado de uma forma peculiar de viver a dor, fosse ela a miséria, a fome, as dificuldades, a seca, a morte de um ente querido. Ainda no mundo rural das ilhas esses sinais estão presentes, mas diluem-se nessa tal perspectiva global de desenvolvimento que quer fazer de Cabo Verde uma plataforma de uma série de parâmetros econômicos ou de negócio. Onde antes se acumulavam simpatias, hoje acumulam-se projetos de plataformas globais.

 

O que vou dizer agora não é nenhuma novidade. É pela arte e pela criação artística que melhor se pode exorcizar as dores de um lugar, de uma sociedade, de uma cidade, de um país, de uma cultura particular. Não há outra forma. E ao olvidar e deixar para trás tudo o que diz respeito a este componente fundamental da existência humana corremos o risco, melhor, já estamos a viver essa realidade concreta, de viver em permanente anestesia, confundindo o espetáculo da dor com a dor propriamente dita. Parece que nunca vimos (ouvimos? sentimos?) Paulino Vieira a tocar com a sua harmônica a introdução à morna “Cria ser poeta”, transportando para aquelas notas musicais e para o seu jeito de tocar todas as suas dores de forma concentrada, única, reveladora.

 

Por que nos emocionamos perante uma obra de Manuel Figueira, um do mais importantes artistas plásticos do arquipélago? Por que nos vêm lágrimas ao olhos quando vemos os bailarinos da companhia Raiz di Polon em êxtase corporal? Por que paramos perante um poema de Armênio Vieira, o nosso Prêmio Camões? Por que nos parece que Sara Tavares, essa alma pura, nunca jorrou as suas dores de forma tão intensa como quando canta, em crioulo, a música “Guisa”, como se quisesse partilhar conosco todas as dores do mundo? Nós, que choramos os mortos de forma tão intensa e ritualista, por que nos esquecemos cada vez mais de chorar a dor dos que ainda cá estão?

 

Estamos cada vez mais sós e por paradoxal que possa parecer, o ato da criação artística é a nossa salvação. Paradoxal porque esse ato de criação é um ato isolado, incomensuravelmente dorido e não partilhado, tantas vezes resultado de urgentes, interiores e intransmissíveis reflexões pessoais. No entanto, o resultado, esse sim, pode ser um reflexo que nos desperta, nos obriga a olhar para o outro e para nós, de fora para dentro, que nos questiona. Nós não fazemos a mínima ideia, mas é assim mesmo: o ato criativo, quando levado a sério, implica um enorme sacrifício, isolamento e uma capacidade de sofrimento que, por ser partilhada a posteriori, faz do artista-criador o mais generoso dos seres.

 

Ah! Se soubessem como dói! Uma história verídica que me contaram: uma pintora famosa – muito famosa, mas cujo nome omito aqui por ser pessoa viva – quando se fechava no seu atelier pintando, proibia a entrada de qualquer outra pessoa no seu espaço de criação, incluindo os próprios filhos. Se estes quisessem comunicar com a mãe teriam que fazê-lo colocando folhas de papel por debaixo da porta. Querem maior ato de sacrifício do que este? Podemos nos chocar e bradar aos céus que tudo isto não faz muito sentido, mas depois vemos as obras e ilumina-se-nos o espírito. Faz sentido, sim. Todo o sentido. Há maior dor que a dor do parto? E o resultado não faz todo o sentido? Faz sentido, sim.

 

Quando falamos com uma verdadeira criadora como é, por exemplo, a pintora Luísa Queirós, entendemos a sua pintura porque é o reflexo claro e imperturbável de muitas dores acumuladas. Quando vemos o músico e compositor Vasco Martins ao piano olhando para o céu antes de tocar o primeiro acorde de mais um tema exaltante, entendemos porque um homem daqueles se isola num vale como um eremita para ficar mais perto dos Deuses… e das suas dores, certamente. Um verdadeiro criador está sempre a um pequeno passo de um abismo qualquer. E muitas vezes salta para o vazio. Por isso quando é bom, quando se revela, falamos em soco no estômago. Andamos a precisar de levar porrada. Mas porrada a sério.

 

Um país que não entende isto, que não se identifica com as suas próprias dores, exteriorizadas pelos seus criadores e artistas, nunca poderá ser um país cultural. Um país que não respeita as dores de parto de cada obra de arte que é capaz de gerar será também incapaz de se olhar interiormente. E acabará invadido e assimilado por este tsunami global. É urgente pararmos com este fingimento de que temos muitos museus, gênios espalhados pelos quatro cantos do arquipélago e uma política para a cultura neste país. É urgente transformar o Ministério da Cultura num verdadeiro Ministério da Dor. E acabar com a anestesia. Desligar a televisão e voltar às montanhas.