Meyerhold: Alguns Apontamentos

Publicado em: 29/06/2012

Meyerhold iniciou sua carreira na companhia fundada por Stanislavski e Dantchenko, o Teatro de Arte de Moscou, onde trabalhou por quatro anos, desde sua fundação, em 1898. Templo do naturalismo e do realismo psicológico, o Teatro de Arte foi a grande escola de Meyerhold, que em 1902 decidiu percorrer caminhos próprios, fundando com Kochévérov, outro ator do Teatro de Arte, uma nova trupe, a Sociedade do Drama Novo.

 

Farto do naturalismo, Meyerhold irá dizer:

 

O teatro naturalista esforça-se por transformar a cena numa exposição de objetos de museu. (…) O encenador e o pintor procuram determinar o mais exatamente possível o ano, o mês, o dia da ação. (…) Assim nasceu, no teatro naturalista, o processo de cópia de estilos históricos. (1)

 

Meyerhold irá se inspirar no impressionismo, no cubismo e, finalmente, no expressionismo alemão para desenvolver uma pesquisa de trabalho muito particular. Propôs uma nova abordagem: um teatro que “intoxicaria o espectador com força dionisíaca do eterno sacrifício” (2), um teatro estilizado como substituto da fantasia apolínea sugerida pelo naturalismo.

 

A partir de pesquisas com a commedia dell’arte, as improvisações, a pantomima, o grotesco e o simbolismo cênico, desenvolveu uma disposição frontal das personagens com pesquisas voltadas à dicção do ator e com a substituição da cenografia complexa do naturalismo pela iluminação como síntese.

 

Criou o teatro de linha reta: o ator, juntamente com o autor, o diretor e o público são criadores absolutos do fenômeno teatral.

 

O encenador, depois de ter penetrado a arte do autor, leva a ele sua própria arte – fazendo apenas um, o autor e o encenador. Depois de ter absorvido a arte do autor através do encenador, o ator – sustentado pelo autor e pelo encenador – volta-se para o espectador e abre-lhe a alma livremente; reforça, assim, a interação dos dois fundamentos principais do teatro: o comediante e o espectador.(3)

 

Embora a participação do público fosse apenas emocional, nunca física, sua imaginação deveria ser empregada “criativamente, a fim de preencher os detalhes sugeridos pela ação do palco”. (4) Dessa forma, liberaria o ator e levaria o espectador a passar, de uma simples contemplação, ao ato criador:

 

Veremos que não pretende, de forma alguma, criar o horror em cena, mergulhar o espectador na histeria, fazer fugir o público despavorido. Pelo contrário, pretende levar o espectador a contemplar o inevitável, fremente, mas calmo; quer fazê-lo chorar e sofrer, mas também enternecê-lo, para chegar a um estado de serenidade e de graça. Seu objetivo essencial é apaziguar as nossas dores, fazendo germinar a esperança na nossa alma, que ora se extingue ora se reanima. Uma vez fora do teatro, o homem prosseguirá sua vida com todas as suas paixões, mas estas deixarão de lhe parecer vãs; as alegrias, os desgostos e os deveres que a vida comporta terão um sentido, porque então ser-nos-á permitido sair das trevas ou, pelo menos, suportá-las sem amargura.(5)

 

Também se aproxima do movimento construtivista, que buscava no campo das artes plásticas e da arquitetura uma arte baseada no materialismo.

 

A antiga técnica teatral utilizava combinações de diversos acessórios, geralmente camuflados por telas pintadas; oferecia, portanto, esse precedente: combinação de elementos de construção standard. Rejeitando a decoração do tablado, o construtivismo punha o acessório a nu: construía um dispositivo com diversos elementos, modificando as dimensões e as formas em função das suas necessidades, quer dizer, em função da concepção do conjunto da encenação. (…) Assim, encontram-se materializados os seguintes princípios:

 

1º – Construção linear a três dimensões;

 

2º – Ritmo visual determinado pelos efeitos, cuja natureza não era nem pictural nem em relevo;

 

3º – Inclusão no dispositivo unicamente de partes construtivas ativas, necessárias ao trabalho do ator.(6)

 

Ivam Cabral é ator, dramaturgo, diretor executivo da SP Escola de Teatro e mantém o blog Terras de Cabral

 

(1) Vzévolod Meyerhold, O teatro teatral, Lisboa, Arcádia, 1980, p. 31.

(2) Idem, p. 111.

(3) Idem, p 44.

(4) Idem, p. 32.

(5) Idem, p. 46.

(6) Idem, p. 166.

 

por Ivam Cabral, especial para o portal da SP Escola de Teatro.

 

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