Língua no divã e língua no palco

Publicado em: 02/10/2017

SERGIO ZLOTNIC
Especial para a SP Escola de Teatro

Há pouco mais de um século, mas remontando ao “Oráculo de Delfos”, a psicanálise se insinua como um espaço-promessa, fonte de respostas, mesmo que o psicanalista não se disponha a responder, mesmo que ele saiba que o próprio sujeito que interroga é aquele que se responderá. Sustentar esta posição – a de acenar com uma promessa que não se sabe se será cumprida, e aceitar o saber embutido na expectativa daquele que procura ajuda – envolve inúmeras providências, inclusive a da suspensão fenomenológica, nomeada na teoria de Freud de atenção flutuante: aquela que obriga os analistas a se despirem justamente de todo prévio saber.

Ao receber pessoas em busca de alívio, o psicanalista acena com uma promessa de transformação e de futuro. Nesse jogo, faz semblante de oráculo. E se dispõe a construir, em parceria com o paciente, em coprodução, cenas que nada ficam a dever ao universo do teatro. São vinhetas trágicas inventadas na hora. Improvisações para uma estreia que nunca se dá. Ensaios para uma temporada que jamais chega! Ou será que chega?

A clínica psicanalítica é uma orelha. Enorme. Orelha-continente! Entretanto, escutar não é simplesmente deixar soar a voz de alguém. Pois o que importa numa análise é a “outra voz”: essa que habita as entrelinhas do discurso e que aponta para um estrangeiro adormecido nos porões.

Outra é a língua que fala essa voz que se deseja mobilizar. É através dela que o sujeito chega à mensagem perdida, que ele mesmo se enviou nalgum dia. Ali, naquele comunicado extraviado, consta o que ele precisa se dizer. Algo-que-não-se-sabe-bem-o-que… É através dessa outra voz que o paciente descobre qual é o apelo que o fez comparecer ao espaço analítico e o que é que ele veio realizar ali.

Ao atender as instruções que essa voz oculta assopra, uma construção se ergue no cenário clínico. Entretanto, percorremos o caminho meio às cegas, pois nunca compreendemos bem o pedido contido na mensagem. Nossos ouvidos são limitados e a voz sussurra baixinho. E conversa conosco numa outra língua, que não dominamos. Mesmo assim, algo é levantado ali: um espetáculo, com elenco, figurino, iluminação, sonoplastia, roteiro, encenação e texto. Espetáculo com um único espectador.

Quando esse propósito abstrato se cumpre, o paciente vai embora. Na verdade, ao contrário do que escrevi acima, sua estreia se realiza sim, mas longe do olhar do analista: na vida lá fora. Por isso, nós, analistas, não sabemos muita coisa dessa temporada, cujos ensaios acompanhamos tão de perto. O diretor é demitido na véspera da inauguração!

Esta é a cura pela palavra, iniciada por Freud, distante das químicas da farmacologia. Nesse território de linguagem, nenhum mapa tem valor. Ali, no escuro das conversas íntimas, apenas impactos de presença e carne: sensorialidades sem representação.

Ao estrear, portanto, o paciente simultaneamente demite o analista e se dá alta. Essa é a “cura”: saber que não há cura! O fim da análise, a dissolução da transferência, é isto: a constatação de que a poltrona do analista está vazia! Esteve sempre vazia. O paciente se reconhece assim autor (dramaturgo) da estória produzida – como que se dando conta da distância que há entre estória história.

Explico: a história oficial da subjetividade é aquela que o paciente se repetia e na qual estivera capturado; ela o punha numa condição relativamente estável, mas insatisfatória. De outro lado, a estória extraoficial dos afetos é a narrativa fabricada no cenário clínico. Diferentemente da versão oficial, esta outra é úmida e não se pretende absoluta: sabe-se provisória…

A “cura” é, assim, uma troca de ilusão, com um benefício em relação à história antiga: o de levar incorporado na alma alguma noção da transitoriedade de todas as coisas. Além disso, o sujeito assume a responsabilidade sobre os seus próprios fantasmas. “É minha a dramaturgia dessa peça”, ele diz. E, assim, seu espetáculo começa… Pobres de nós que ficamos pra trás!

 

SERGIO ZLOTNIC é psicanalista, escritor e colunista da SP Escola de Teatro.




 

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