Heroísmo não: obrigação

Publicado em: 02/10/2017

Nesta semana, recebi uma notícia linda e gratificante. Flávia Araújo, transexual que trabalha conosco na Biblioteca da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, foi aprovada em Biblioteconomia, no Senac, com bolsa integral.

Para tentar explicar o que isso significa para mim e para a gente da Escola, preciso retornar à época da concepção do projeto da Instituição. Foi lá, na raiz de tudo, que decidimos que as oportunidades de trabalho em nossa recepção seriam exclusivamente reservadas a transexuais. Quantos foram os que me advertiram não se tratar de algo possível ou prudente? Perdi a conta, pois não foram poucos. Essa era a opinião da maioria absoluta, na verdade.

Hoje, uns quatro anos depois, quando penso comigo e olho para trás, é impossível não me orgulhar. Desde a primeira ideia até agora, passaram por aqui, graças a essa singela iniciativa, tantas pessoas interessantes.

Brenda Oliver, Kimberly Luciana, Renata Peron, Andréa Zanelato e Paloma Assunção são nossas atuais recepcionistas. Mas tivemos muitas outras, como Fernanda de Moraes, Helena Dandolo, Janaina Lima, Laura Prevato a própria Flávia, que entrou nesse cargo e depois, demonstrando grande interesse pela leitura – em 2011, ela se formou em Letras pela Uniesp –, passou a auxiliar da Biblioteca.

Não as tratamos como um único tipo de pessoa. Cada uma delas tem suas singularidades respeitadas. Inclusive, suas posições sobre a questão da sexualidade e do gênero. Algumas, por exemplo, não gostam de falar sobre isso. Outras são até militantes e participam de ONGs que lutam em prol da diversidade sexual. Enquanto umas adoram dar shows e enveredam pelo mundo artístico, outras preferem manter a discrição e preservar a privacidade.

 

Mas existe algo que une todas elas: todas, sem exceções, sofreram na pele as dificuldades impostas por um mundo ainda muito preconceituoso e que, no geral, não sabe conviver com as diferenças. Boa parte delas teve de se envolver com prostituição e adentrar um submundo complicado e, acima de tudo, perigoso. E o fizeram por sobrevivência, não por brincadeira. Afinal, quantas empresas que você conhece empregam transexuais? Pois é…

Aqui na Escola, todas elas puderam voltar a sonhar. E, com isso, não quero dizer, absolutamente, que é o melhor emprego do mundo e que estamos em um paraíso. Mas existe respeito, existe oportunidade, existe perspectiva. E, muito mais que isso, é importante ressaltar: não é um favor que fazemos, não é um ato heroico de nossa parte e, definitivamente, não salvaremos o mundo sozinhos.

 

Tudo o que fizemos ao acolher essas meninas – que têm um grande potencial, é bom lembrar – foi abrir portas, mostrar caminhos, garantir acessos. Vejam só, essa palavra aparecendo novamente: acessibilidade.

Brenda, por exemplo, sempre sonhou em ser artista. E ela já pôde ser, aqui na Escola. Realizou shows de dublagem, dançou e encantou. Renata Peron é cantora e, há alguns meses, lançou seu CD, com ajuda da Instituição, onde também fez vários shows. Kimberly também é chique: já foi Miss São Paulo, ficou entre as cinco primeiras no Miss Brasil e em segundo lugar no Miss World. Não é brincadeira, não. Andrea já prefere as câmeras de televisão, e vira e mexe faz entrevistas e apresenta vídeos.

Recentemente, Paloma teve um grave problema de saúde e teve de ficar internada e, consequentemente, afastada do trabalho por um bom tempo. Em um lugar sem o olhar humanista que procuramos adotar aqui, o que aconteceria a ela? Rua, sem pensar duas vezes. Essa é a lógica do mercado capitalista, que trata a todos como objetos, força de trabalho que pode gerar lucro. E nada mais.

 

Enquanto ela esteve internada, organizamos um recolhimento para arrecadar alguma quantia, auxiliando-a no tratamento e nas despesas do dia a dia. Isso porque, infelizmente, afastada pelo INSS, ela não poderia receber o salário durante aqueles meses.

 

Felizmente, ela se recuperou e, já há algumas semanas, voltamos a contar com sua presença em nossa recepção.

É por tudo isso que, quando Flávia entra em minha sala para dar uma linda notícia como a que citei há pouco, sinto algo que não é apenas orgulho ou felicidade. É mais que isso. Cada passo dado por elas significa também uma vitória minha e de todos que acreditam em nosso projeto. Noto que, enfim, estamos mudando o mundo.

Posso parecer chato ao insistir nisso, mas eu não posso, de forma alguma, ser visto como herói por isso. Estas são obrigações cidadãs. Quando chegamos à Praça Roosevelt e batalhamos para que este lugar se tornasse um ambiente saudável e que proporcionasse uma convivência segura, inclusive para os que ali moravam, tiramos, de certa forma, o espaço delas.

Em 2000, existiam dois edifícios inteiros que alugavam apartamento para transexuais com preços muito baixos. Elas podiam viver ali porque conseguiam pagar um aluguel aceitável. Também existiam bares (mais de um) que serviam de ponto de encontro pra elas. Enfim, tudo era mais simples, pelo menos para elas.

 

O que aconteceu – e está acontecendo, desenfreadamente – foi uma espécie de gentrificação. Hoje, o preço do metro quadrado da Praça equivale ao de um bairro nobre da cidade. Mas vivemos uma mentira, porque a Roosevelt não tem infraestrutura adequada. Não tem escolas decentes, nem supermercados, nada.

A Escola resolveu apenas pagar parte da dívida que a sociedade tem com as trans. É por isso que criamos esse programa de acessibilidade – que, aliado a outros fatores, como a realização do SP Transvisão, nos rendeu o 13º Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade, outorgado pela Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT), na categoria Ação Cultural, pelo “exemplar protagonismo para a promoção dos direitos humanos da população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais”.

Não há heroísmo nisso, eu repito. Não há.

Ao contrário, esse é apenas um capítulo de nossa saga por um mundo com menos candidatos a super-heróis e mais operários da solidariedade.