Heróis da resistência

Publicado em: 02/10/2017

Neste momento, estou em Los Angeles, com a minha companhia de teatro, Os Satyros, participando do Hollywood Fringe Festival, o maior evento teatral da Califórnia. Neste ano, a mostra recebe mais de 200 companhias de teatro, vindas de várias partes do mundo. E, nossa razão de maior orgulho: nós, Os Satyros, somos o único grupo brasileiro.

Embora tenha a designação “fringe”, o festival não possui uma mostra “oficial”. É “fringe” porque é livre, a curadoria é feita pelos empresários teatrais.

Várias coisas incríveis aconteceram desde que chegamos aqui. O L.A. Weekly, importante jornal de Los Angeles, selecionou nosso espetáculo, “Philosophy in the boudoir” (“Filosofia na alcova”, em português), entre as 10 melhores peças do festival. Com isso, estamos concorrendo ao prêmio Best Internacional, concedido pelo jornal e pela Associação dos Críticos de Teatro de Los Angeles (leia mais sobre essa indicação aqui).

Foram publicadas excelentes críticas, como a do próprio L.A. Weekly, assinada por Steven Leigh Morris: “A produção de Vázquez (Rodolfo García Vázquez, co-fundador da companhia) captura visualmente o que o texto aponta filosoficamente. São várias cenas sadomasoquistas, banhadas, cuidadosamente, por uma luz vermelha e outra azul clara, que tornam a violência alegre e a sexualidade, um gráfico, onde nenhum canto da anatomia humana é deixado coberto pelos trajes de época. Os artistas são tão graciosos quanto corajosos, embora a decisão de atuar em inglês – em vez de português, sua língua nativa – é, provavelmente, um erro, dada uma certa falta de jeito para o que já é um mergulho difícil e delicado, pelos recantos mais obscuros, que nos tornam humanos.”

E há também o comentário do crítico Erin Scott: “Definitivamente, este não é o tipo de teatro com o qual o público americano está acostumado. É, de longe, o mais ‘marginal’ e ‘independente’ espetáculo que já vi. Grande obra e uma produção bem feita. Mas, se você se sente totalmente desconfortável com nudez total ou cenas de sexo, talvez não seja uma peça para você (ou talvez seja o espetáculo perfeito pra você!). Não deixe de ler a sinopse antes de ir. É uma hora de teatro da qual você, certamente, não se esquecerá!”.

E a do ator e roteirista Gregory Crafts: “Só para corações (e estômagos) fortes. A peça de teatro mais marginal que já vi.”

Essa foi a segunda viagem internacional dos Satyros deste ano. Em março, aportamos na Suécia com nosso “Cabaret stravaganza”. Felizmente, a epopeia da companhia não para por aí. Em agosto, levaremos “Inferno na paisagem belga” a Cabo Verde.

Essas conexões artísticas internacionais são boas para se pensar e exercitar o fato de que o teatro pode mais. É bom pensar que o teatro pode mais. Que, enfim, somos capazes de emocionar e fazer refletir.

Nessa linha, o que nos chamou a atenção, aqui nos Estados Unidos, é que até o teatro, mesmo quando feito por um grupo de pesquisa, pensa nas bilheterias. É a bilheteria quem vai possibilitar a sobrevivência do artista/grupo. Não há subvenções públicas. Nenhuma empresa investe em teatro. Ou, pelo menos, nas propostas destes pequenos grupos. Mas, o mais interessante, é que, apesar deste quadro, há um movimento artístico bastante potente e criativo por aqui (ainda bem!).

Não à toa, a Califórnia está no topo de algumas revoluções importantes, como a tecnológica, a partir dos anos 1950, no Vale do Silício, com a implantação de um conjunto de empresas para geração de inovações científicas e tecnológicas, destacando-se na produção eletrônica e informática (leia-se Google, Apple, etc), e a sexual, nos anos 1960. Soube aqui, ainda, que as primeiras preocupações com o meio ambiente surgiram na Califórnia.

Inevitável também não pensar na indústria do cinema. Em todas as esquinas, vamos reconhecendo a cidade em alguma cena de filme perdida em nossas memórias.

Mas, o bom de tudo é ter sentido que o teatro, como um Dom Quixote, ainda respira e resiste, bravo, diante da maior indústria de entretenimento do mundo. E nós, felizmente, fizemos parte dessa resistência, como bravos heróis.