Genet – o poeta ladrão

Publicado em: 01/09/2020

Para Susan Sontag, colecionar fotos é colecionar o mundo.

 

As fotografias podem nos ajudar a recriar o mundo tal como imaginamos, seja em sua harmonia consoladora ou em seus delírios provocantes. Com o intuito de preenchermos a realidade cada vez mais esvaziada, as novas experiências provocadas pela fotografia podem ser capazes de revigorar as experiências antigas, retroalimentando novas crises e nos ajudando a contar novas histórias.

O poeta Jean Genet, na cela 46 da prisão de Fresnes, nos arredores de Paris, no início da década de 1940, colou as fotos de vinte criminosos que recortou de jornais. Para ele, aqueles rostos estampavam “o sinal sagrado do monstro” e lhe serviram de “musas inspiradoras” para a obra Nossa Senhora das Flores (1943). O poeta escreve que os retratos “[…] são a única família que tenho e meus únicos amigos” e que os rostos “[…] velam minhas pequenas rotinas”. Privado de sua liberdade, Genet tenta ampliá-la ou potencializá-la por intermédio das fotografias.

E foi no imbricamento das obras Nossa Senhora das Flores e O diário de um ladrão (1986), entre outras, que o dramaturgo Zen Salles escreveu Genet – o poeta ladrão, espetáculo que estreou na Sala Beta do Sesc Consolação, em 2013, com curadoria de Adriana Macedo. A obra apresenta um retrato da cidade de Paris, na primeira metade do século XX, onde o poeta viveu grande parte de sua vida marginal entre ladrões, homossexuais e prostitutas.

A direção de Sérgio Ferrara é uma celebração imagética do amor homossexual da vida e da obra de Genet, na qual as mulheres têm pouco espaço ou apenas acolhem os prazeres dos amantes, travestis e assaltantes – numa alusão à mãe do autor, uma prostituta que ele não conheceu. A encenação encontra no elenco, composto por Ricardo Gelli, Fransérgio Araújo, Nicolas Trevijano, Rogério Britto, Felipe Palhares, Ralph Maizza, Gabriele Lopez, Jhe Oliveira, Magno Argolo e Bruno Bianchi, a potência libertária que a obra de Jean Genet carrega com seus delírios fetichistas.

A iluminação de Rodrigo Alves e os figurinos de Iraci de Jesus reforçam a construção não realista das fantasias eróticas e do universo desesperado no cárcere e no submundo marginal da cidade em que Genet viveu.

As fotografias nos trazem a sensação de estarmos isentos do fracasso, privação, desgraça, dor, doenças – ou da miséria e da solidão que Genet resolveu viver em contraposição aos dogmas de uma sociedade castradora -, uma vez que essa sensação já pode ser vivida por intermédio do contato com a imagem.

A fotografia, para Susan Sontag, reforça “[…] o sentimento de estar a salvo”, já que aquilo aconteceu e não atingiu a nossa realidade.
Ao final do espetáculo, com o elenco perfilado para os aplausos, não consegui fotografar. Apenas levantei a câmera em homenagem silenciosa. Estava diante do “sinal sagrado dos (meus) monstros”.

Essas imagens também são uma homenagem a Zen Salles, o dramaturgo maranhense, que partiu tão cedo e nos deixou mais tristes.


 

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