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Formalidade versus futuro

Publicado em: 24/05/2022

Chá e Cadernos 100.91
Mauri Paroni

Para narrar imagens em uma sinopse, uso o artifício de criá-la com a forma de um resumo biográfico qualquer – com vênia pelo protagonismo, diante das exigências projetuais de qualquer atividade cultural. É inútil tentar mudar de ares. Humanóide, cairá sempre no corte longitudinal uterino – um mapa geográfico do oceano que me separou daquele ser em que evoluí ao lado de meu irmão gêmeo; sem jamais ter podido enxergar aquela experiência social antes de ter “nascido” da e na maternidade. É a geografia intuitiva simbólica que nos atira na cara a unicidade do outro de si. São consequências agradáveis, mas muito duras. Dentro de qualquer outro ambiente foi relativamente imediata a percepção do pensamento do também outro. Jamais poderia não virar um bicho de palco, roteirista adivinho de sentimentos de convivas – mergulho no “lago” sem luz dentro de meu corpo. Também deve ser assim para meu gêmeo. Sempre que moramos em países diferentes, havia um mar ou um canal entre a gente. Foi condição existencial. Fosse poesia, teria aparentado versos de Cecília Meireles (1901-1964): naufrágio arriscado enquanto escrita de vida que une o líquido que separa. Que, separando com tinta azul escuro, define a forma. Que, definindo formas, cria o drama do outro – havendo o outro, nasce a possibilidade da escolha pela união. Nas uniões há afinidades eletivas. Último Goethe, estas afogam faustos e werthers no fundo lodoso do lago onde tive uma conversa séria com uma senhora, felizmente adormecida a contragosto (dela).

Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional (Itaú Cultural-fonte)
Cecília Meireles, s.d.
[ Poeta, cronista, educadora, ensaísta, tradutora e dramaturga. Seus três irmãos mais velhos morrem antes de ela nascer; seu pai, três meses antes de seu nascimento; e a mãe, antes de ela completar 3 anos. É criada pela avó materna, Jacinta Garcia Benevides. ]

Não posso deixar de reproduzir este seu poema:

[ Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.]

Em fado, por Amalia Rodrigues, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=rcNpV5vNpt8

Alguns mapas sucessivos, algumas imagens sucessivas, alguns mares sucessivos emergem e submergem. Podem sobreviver até no esquecimento da cegueira da memória interior, mas exige uma linguagem social, uma narração por palavras, um palco ou uma lente que conte socialmente aos outros a raiz deste sonho. Nas últimas semanas, criei o mago Nacal, cadeirante cego na noite da história das perseguições religiosas, mas isso fará parte de outra paisagem.

Do acervo Estado https://fotos.estadao.com.br/fotos/acervo,a-escritora-cecilia-meireles,976249

***
Quanto ao primeiro mapa, sonhei, no sentido do surrealismo “irracional” de André Breton e Luis Buñuel, dolorido por duas repentinas partidas. Foram excelentes e próximos atores, um do brasileiro e outro italiano; manifestei em letra alta (voz) a tristeza das perdas. A voz social do outro de si manifestou-se, seguida de um silêncio sedizente respeitador. Diante de uma penosa notitia mortem fui aconselhado ao silêncio. Tensão existencial muito além do insuportável silêncio “educado”, este continua entre a gente que não o faz diante da morte consequente à própria dor, mas passa pelo silêncio auto protetor. Formalidade que pode continuar por uma ou duas gerações; e nada mais restará, senão o vento entre folhas secas, segundo o Budismo, ou “o vento que pelas torres passa”, segundo o Jovem Brecht de Na Selva das Cidades, ou todos os Griots de vozes ancestrais com a palavra responsável pela transmissão do conhecimento de um povo inteiro.

Verbalizar – em voz alta – pensamentos, sentimentos, dores, risos, poemas, ideias, de qualquer arquibancada… produz solidão e fogueira. Estes são tempos em que a leitura deve ser silente e o grupo, eletrônico. São tempos em que levantar a voz importa – portanto, é perigoso. Assim aprendi. Assim continuarei a ser: só, com os meus próximos, em verdade.