Meia dúzia de curtas considerações irrelevantes

Publicado em: 02/08/2012

Interrogações ontológicas distribuídas a cada esquina do texto.
Descoberto o mito de origem de toda a tradição da cultura ocidental.
Três dormitórios, sendo uma suíte. Lavabo e duas vagas na garagem.
Pé direito alto. Face norte. Carrara de cabo a rabo. De frente para o Rio Tietê.
Lindos jardins com folhas de plástico imitando Burle Marx no hall de entrada principal.
E duas novas seções. Tudo para o seu conforto, leitor!

1 – Nova seção: Procon – reclamações justas sobre fatos injustos – coisas que você nunca gostou, mas não teve ninguém que o apoiasse ou defendesse… Agora tem!

Dois itens.

a – As fábricas de calças e de camisas – e de roupas, em geral – têm secretamente um acordo com as fábricas de botão e com os alfaiates de bairro. É por isso que TODA roupa nova vai soltando sorrateiramente os botões. É inacreditável. Escandaloso! Como pode a população aceitar passivamente uma coisa dessas? (não será que a fábula ‘a roupa nova do rei’ tinha, bem no fundo, a ver com isso?). A roupa é nova. Mas os botões são pregados propositadamente frouxos. As linhas já vêm se soltando. Por que também os carros novos não chegam aos consumidores com as rodas bambas, prontas para se separar dos veículos? Fica como sugestão.

b – Os técnicos e médicos responsáveis por exames de imagem (ultrassom e outros) deveriam nascer mudos (e sair calados). E sem expressão facial. Uma longa sessão de botox no rosto seria suficiente para subtrair qualquer vestígio de reação. Nada pior do que, ao fazer um exame, notar a cara de espanto ou, pior, de horror dos técnicos aplicadores da geleia gelada. Se for por sadismo, não basta a tortura daquela gosma fria na barriga? E das privações e jejuns intermináveis… Precisa mais? Ao notar seu rosto contraído de terror, o paciente aflito pergunta: alguma coisa errada? “Fale com o seu médico”, é a resposta. Melhor assim: sem muitas considerações… Será que eles querem espirrar e não conseguem? – e então fazem aquela cara de leão no cio? Ou será que eles se lembram de fatos dolorosos de suas histórias bem na hora do exame? E o que temos nós a ver com isto?
2- duas indagações ontológicas.

a – Nas receitas gastronômicas, sempre chama a atenção que, depois de vários “faça isso e isso e isso”, numa certa altura das etapas de preparação dos pratos, aparece escrito: “descanse”. Quem? A massa ou a cozinheira? Nesse caso, haveria um colchãozinho na cozinha para ela se deitar?

b – Recebi uma mensagem do “linkedln” avisando que um amigo morto há vários anos quer ser adicionado (ou quer me adicionar…). Perguntas: quem me enviou a mensagem: o site ou o amigo morto? Na segunda opção, ele me mandou a solicitação antes ou depois de morrer? Terceira pergunta: o que é linkedln? Tipo de quindim?

3- Sessão azeda. Situações desagradáveis com pessoas desaforadas…

a – Desagradável quando, por distração, cumprimentamos sem querer (automaticamente) um
ex-amigo. Quando está feito, não há como voltar atrás. Não é possível deletar um “oi” dado. Moral: é preciso estar sempre em guarda, cuidando de carregar uma cara neutra, um rosto que nada expressa, e que se fecha ou se abre com critério e calma de acordo com quem cruza nosso caminho… (essa é boa dica para quem coleciona desafetos).

b – Quando alguém me conta alguma coisa e eu não escuto uma palavra de seu discurso, pergunto educadamente: “O que? Como? Você pode repetir?”. Quase sempre, porém, essa pessoa repete tudo o que eu já tinha ouvido, menos justamente a única palavra que eu queria. Isso me estraga o dia…

4 – parte teórica – três breves reflexões: psicanálise, zen-budismo e o nascimento do vento…

a – ‘negação’ – ou o avesso dela…
Pessoas carentes dizem coisas desnecessárias. Telefonam e deixam recados estranhos na secretária eletrônica. Dizem, por exemplo: “- Aqui é fulano (a), ligue pra mim, quando puder…”. E acrescentam: “Mas se não puder, não ligue”. Querem nos dar um direito que já temos. Todos têm evidentemente o direito de não ligar de volta. Mas algumas pessoas nos reasseguram disso. Querem parecer democráticas. Isso ocorre justamente porque, democráticas, elas não são. E onde dizem “não me ligue de volta se não puder’” deve-se ouvir “ligue de volta mesmo que você não possa, ou mesmo que não queira” (vide justamente o texto “A Negação”, Freud).

b – Psiu! Falta de assunto:
Há pessoas que diante de um acontecimento de impacto necessitam falar alguma coisa. Outras têm que mudar de assunto. Ou voltar ao assunto anterior ao momento do impacto… Poucos são aqueles que conseguem ficar com o susto. Poucos conseguem ficar sem assunto…

O Parque da Água Branca, em São Paulo, tem uma característica pitoresca: como nos vernissages e lançamento de livros (eventos em que ninguém sabe o que dizer), o parque retira todo assunto que o visitante possa ter. Fica-se sem assunto. Completamente! Como a porta magnética de um banco detecta metais e impede a entrada de certos clientes, o parque obriga que deixemos qualquer assunto ali na entrada. Então os passeios por ali são silenciosos. Mesmo assim, muita gente volta sempre para caminhar no parque. Sem dúvida: o silêncio purifica. É bom ficar sem assunto.

Apesar disto, muitos temem não ter o que dizer. Toda a tradição oriental se constrói sobre a ideia de esvaziar a mente. A tradição oriental é sabiamente sem assunto. O homem ocidental carrega muita poluição na cabeça. Deveríamos ser simples e silenciosos. Há placas que dizem “take your shoes off” (favor tirar os sapatos). Vemos essas placas em centros de meditação, por exemplo. Sapato é sujo. Para pisar o terreno sagrado de certos espaços, tira-se o sapato. Deveria haver uma placa pedindo, também, para que o cidadão que pretende entrar no recinto, além dos sapatos, retirasse seus assuntos. Seria lindo ver o monte de assuntos retidos na porta de muitos estabelecimentos. E o silêncio dentro do recinto. A palavra rara é cara.

c – um mito de origem anterior ao patriarcado (encontrado em meio a escavações arqueológicas e ruínas de Jerusalém) – A antiquíssima fábula do vento…

O vento nasceu no dia em que a primeira mãe soprou a ferida do primeiro filho para aliviá-lo da primeira dor. O sopro se transformou no vento. O vento ventou sementes que floresceram. Nasceram as plantas, as flores, os verdes e os pastos. Num canto do jardim, a mãe primeva plantava chicória e salsinha. Eis o mito da horta primitiva.

5 – Outra nova seção da coluna deste mês… Duas mini-estórias autobiográficas.

Preâmbulo: as vantagens da autobiografia são muitas. Menciono poucas: a pessoa que a escreve fica muito emocionada, por estar falando sobre si mesma. Ela acha que domina o assunto. E não há ninguém para contradizê-la, ao menos enquanto ela escreve. No processo, ela chega a se sentir uma heroína. Ela chora, se enxerga humilíssima, bondosa, belíssima, nobilíssima. Se porventura confessar faltas graves, sentir-se-á ainda mais sincera – honestíssima, na sua própria opinião. Acaba sendo quase um processo de análise sem analista – o que também é uma vantagem, financeiramente falando (mas mais do que isso: não há ninguém para discordar ou interromper a enxurrada discursiva). E, depois do resultado pronto e acabado, o livro na mão e nas prateleiras, no caso de nenhum leitor elogiar, pelo menos o autor do escrito terá gostado – tanto do processo, quanto do fruto de seu esforço e ventre.

Portanto, vamos nós também nessa:

a – pombas…

Dizem que as pombas são criaturas imundas. Ratos voadores nojentíssimos.

Lembro, entretanto, há muitos anos, dos meus avós voltando de viagem. Ei-los em fotos nas praças europeias, cercados de pombas. Vejo gente com milho nas mãos e pombas nos ombros. Isto era uma coisa normal.

Nem precisava ir à Europa. Em São Vicente, ao lado de Santos, na Biquinha, ali próximo à Ponte Pênsil (1914), todo brasileiro probo ia dar milho às pombas.

E o que dizer, então, da pomba branca, o símbolo da paz?

Sabe-se hoje que elas, as coitadas das pombinhas, são os animais mais imundos do universo, pestes dos infernos.

Vai entender a humanidade…

E pobres dos meus avós… Que Deus os tenha.

b – bombril…

Os seriados a que assistíamos na minha infância eram muitos: “Lucille Ball”, “Perdidos no Espaço”, “Rim Tim Tim”, “A Feiticeira”, “Jeannie É Um Gênio”, “Lassie”, entre outros. Eram dublados e eu não me importava com isso. Hoje em dia, é impossível assistir a filme dublado. Das duas, uma: ou a dublagem piorou com o tempo, ou era eu que não sabia de nada!

A televisão chegou para nós bem no início dos anos 60. A imagem era em branco-e-preto com chuviscos na tela, um fog londrino. Vultos! Meu avô era especialista em colocar na ponta da antena uma esponja de aço, para amenizar a revolta das imagens. Essa era a sua função e, cá entre nós, essa era, sem sombra de dúvida, a atividade em que ele foi mais bem sucedido na vida inteira.

Observação: em nome da justiça, devo dizer que ele tinha outros dois inquestionáveis talentos:

i) era extremamente afinado e musical e fazia segundas e terceiras vozes com inacreditável pontaria quando alguém cantava em reuniões familiares…

(dizem que ele tocava piston muito bem. Em Moscou, era da banda e do balacobaco. Mas deixou o instrumento na Rússia, em 1934 – então, qual a vantagem, para quem passou os 60 anos seguintes no Brasil? Tudo o que ele assoprou em terras tapuias foram velinhas, até o seu octogésimo terceiro aniversário… Assim sendo, nunca o ouvimos tocar uma única nota que fosse…)

ii) segundo talento, em nome da justiça: ele também grudava tampinhas de refrigerante na própria testa em festas infantis. E fazia isso muito bem – quase tão bem quanto o bombril na antena..

6 – para terminar, aos leitores, o que é dos leitores…

Separei apenas dois feedbacks que recebi por e-mail, relativos à coluna passada:

(se você, leitor, não foi contemplado com a publicação de sua carta neste mês, e sem nem sequer a menção de seu gesto, nada de angústias. Mês que vem a sorte grande talvez esteja consigo)

a – Um grande performer do Baixo Augusta, cujo talento soma teatro, circo e dança, dono de um corpo de flexibilidade impressionante (além do cérebro hipertrofiado), que pode ser visto atualmente nos palcos numa peça de Petrônio (e mais que isso não digo), leitor assíduo de nossos textos (plural majestático), mandou mensagem à caixa postal zzzzlot, comentando que a última coluna – que foi curta – termina fazendo uma brevíssima consideração sobre o bocejo. Donde ele acha que, em vez de prosseguir escrevendo, eu dormi. Genial suposição. Fiquei feliz, pois me pareceu como se ele tivesse desejado que o artigo fosse mais longo, e que minha soneca vespertina veio interromper seu prazer.

b – Na sequência, porém, dessa discussão da extensão dos escritos no mundo virtual, uma grande analista junguiana, da região de Moema, assim se posicionou (aparentemente a favor dos escritos curtos) também em mensagem enviada à minha caixa postal: “Seus textos longos, Dr ZZZlot, eu os leio aos pedaços. Um pedaço pela manhã. E arquivo o resto para ler depois. Este último escrito, li inteiro. Portanto, tem vantagens o modelo pequeno: a gente goza logo, combinando com os valores da atualidade. Tudo rápido!”. Eu pergunto: será que os seguidores de Jung preferem gozar logo cedo pela manhã? Só sei dizer que, reza a lenda, os freudianos costumam gozar mais à tardinha… Com chá e sachertorte.

Nota póstuma: O ombudsman infelizmente sumiu. Saiu de férias? (ou terá falecido?). Assim sendo, perdi a crítica. E tive de ser pai e mãe aqui neste espaço, o que cansa. Esperemos que ele (ou ela?) volte em setembro. Eu voltarei com certeza. Felicidades a você, leitor, nesse agosto de cachorro louco. Agasalhe-se. E coma legumes. Ou sachertorte à tardinha…

Em tempo: não sabemos o sexo do ombudsman. Mas que importância isso tem?

Caso queria enviar uma mensagem, fique à vontade (contanto que não seja longa); zzzzlot@gmail.com . Abraços sinceros, from honestíssimo dr zlot!

PS1 – note-se a contradição: o colunista não se preocupa com a extensão da coluna. Mas quer regular a extensão das cartas dos leitores. Milton Santos tem razão: direito e privilégio são confundidos facilmente nesses nossos tempos de globalização…

Ps2- “À César o que é de César! Em relação à coluna de maio, ainda uma nota: há cartas de leitores até hoje revoltados com a ideia de que a sexualidade humana recorta um território autônomo que absolutamente não coincide com a natureza – senão que dela se afasta bastante. Outros leitores ficaram felicíssimos com minhas afirmações. De todo modo, renovo aqui os créditos devidos a: GARCIA-ROZA, L. A . Ver especialmente Acaso e repetição em psicanálise – uma introdução à teoria das pulsões. Rio de Janeiro, Zahar, 1996. Ali, ao referir-se à pulsão como ‘disjuntora dos esquemas corporais inatos’, o autor a situa como produtora de novos esquemas, ‘perversos em relação ao natural’ [p. 113-114]. Haveria como que uma ‘desnaturalização’, tanto do corpo, quanto do objeto (ao qual a pulsão vai se ligar), ao serem ambos submetidos à ordem simbólica, que perverte esquemas biológicos inatos. Assim, quanto mais humano, mais perverso é o homem em relação ao natural (idem, ibidem). Essa discussão, com bem mais extensão, e com as devidas citações, estão também em: ZLOTNIC, S., Um estudo sobre a técnica na psicanálise freudiana: contribuições à metapsicologia da atenção flutuante. São Paulo, 2002. Tese (doutorado) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo. Grato!”.

 

* por Sergio Zlotnic, especial para o portal da SP Escola de Teatro – zzzzlot@gmail.com




 

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