Do amor e da loucura: O Elogio do Amor – breve aventura de apresentação

Publicado em: 06/03/2020

Mauri Paroni
Chá e Cadernos 100.24

 

Entre as centenas de exemplos do pensamento da contemporaneidade está o costume historiográfico francês do século XX, mesmo o mais recente, ao qual pertencem Alain Badiou (1937 -) e seu entrevistador Nicolas Truong (1967 – ), jornalista do Le Monde e já diretor do Festival de Avignon. Ilumina temas como política, ética, morte, geografia, vida quotidiana, culinária, e uma infinidade outros sujeitos de investigação como o amor. Entabularam um diálogo planejado para resultar num… elogio. Inspiraram-se no filme homônimo do diretor franco suíço Jean Luc Godard (1930 -) – o autor, critico e militante anticonformista autor de Acossado, de 1960 – À  Bout de Souffle. Poderiam ter redigido uma História do Amor, mas elogio é a palavra mais exata para o que fizeram juntos. Seguem percursos como o do filosofo francês Michel de Montaigne (1533 – 1592), de Ensaios (baseado em sua existência e personalidade), e o do neerlandês Erasmo de Roterdam (1466 – 1536). Prosseguem a tradição com um paralelismo surpreendente. Desde o começo, Badiou traça duas linhas antagônicas sem jamais cair no maniqueísmo; apenas revela dois lados de uma mesma questão:

 

“(…) Relembro (…) uma história da França em que se sucedem filósofos do Iluminismo, Rousseau, Revolução Francesa, Junho  de 48,  Comuna de Paris, Frente Popular, Resistência, Libertação e Maio de 68. Tudo bem. O problema é que há uma outra história: Restauração de 1815, Tratado de Versalhes, a União Sagrada durante a Segunda Guerra Mundial, Pétain, guerras coloniais horríveis … e Sarkozy. Há, portanto, duas histórias da França entrelaçadas umas nas outras. Na verdade, onde são desencadeadas grandes histórias revolucionárias a resposta será invariavelmente reacionarismos obsessivos. Deste ponto de vista, acho que no jogo também está o amor, que sempre esteve ligado a eventos históricos: o Romantismo amoroso está relacionado com as revoluções do século XIX; André Breton significa Frente Popular, Resistência, luta contra o fascismo; Maio de 68 foi uma grande explosão em que se investigou novas concepções de sexualidade e amor. Quando o contexto é opressivo e reacionário, o que se tenta colocar na agenda é a identidade, mas esta pode assumir várias formas e ainda assim permanecer sempre identidade. (…)”

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Este Elogio está assim organizado: Apresentação; O amor ameaçado; Os filósofos e o amor; A construção amorosa; Verdade do amor;  Amor e Política; Amor e Arte; Uma conclusão, seguida de extensa e apetitosa bibliografia, fundamental ao leitor para diversificar e personalizar a sua leitura e fruição. São seis capítulos que valem a leitura de uma inteira enciclopédia histórica, coisa de milênios de filosofia, coisa que requer reflexão; Ficamos na obrigação de escolher qual percurso a nossa (reflexão) pode tomar.

Um caminho obrigatório será artístico – veja-se a serie de artigos precedentes para um entendimento algo mais facilitado deste.

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Como um ato de respeito à redação do Elogio na forma de seu diálogo com Nicolas Truong, o leitor permita que eu traduza – ou adapte ligeiramente ao contexto presente – algumas frases relativas ao teatro tratado nos últimos quatro artigos; ainda que a leitura completa e original da obra seja absolutamente necessária.

“Você pode amar sem se apaixonar!”, “Você pode se apaixonar sem sofrer.” O site de encontros Meetic, que há algum tempo cobria Paris de cartazes publicitários”, são o ponto de partida em que Alain Badiou torna-se um irredutível apologista do amor. “Como na guerra a “morte zero” dos conflitos armados do nosso tempo, assim o amor ao ‘risco zero’ é baseado em um ‘seguro’ de vida. Em sites de namoro, tudo é muito bem calculado, os parceiros são selecionados com o máximo cuidado – não é imagem, são listados seus gostos em detalhes, data de nascimento, signo do zodíaco, e assim por diante – para evitar qualquer perigo. Como no casamento arranjado, que antigamente os pais despóticos impunham em nome de ordem, da família, um acordo preliminar que evita aleatoriedade. Você possui um bom seguro, um bom exército, um bom policial, uma boa psicologia de prazer pessoal? Por que não possuir também um bom amor, livre de risco? É o triunfo da apólice de seguro e do conforto de permanecer dentro dos limites do prazer. Ele também é o triunfo das duas figuras que incorporam realizações semelhantes: o liberal e o libertário. O primeiro, proponente de uma vida conjugal pré-embalada na doçura do consumidor; o segundo, de compromissos sexuais de prazer sem obrigação. Ambos concordes num regime de economia da paixão, na idéia de que o amor é, afinal, um risco desnecessário. Encalacrado nessa armadilha, o amor está tão seriamente ameaçado que o defender virou uma tarefa filosófica: Reinventá-lo, como disse Rimbaud, para reinventar o risco e a aventura, à segurança e ao conforto. Uma tarefa que estas páginas se desincumbem totalmente, mostrando como, movendo-se de um ponto de partida que em si não seria nada mais que um encontro ou uma coisa pequena, o amor é uma experiência única no mundo com base na diferença e não apenas na identidade. (…)”

Uma experiência pessoal da universalidade possível que “é filosoficamente essencial, como Platão intuiu antes de todos.”

“Platão diz algo muito preciso sobre o amor: ele diz que na urgência do amor há uma faísca universal. A experiência do amor é um impulso para algo que ele chama de Idéia. Neste sentido, mesmo quando estou simplesmente admirando um belo corpo, queira eu ou não, enveredei pelo caminho que conduz à idéia de beleza. Eu penso algo parecido … ou seja, que no amor se experimente uma passagem da singularidade pura do evento a um elemento que tem um valor universal “.

 

Filmagens de “À bout de souffle” (1960), de Jean-Luc Godard

https://www.comunidadeculturaearte.com/ha-um-poema-entre-a-bout-de-souffle-e-le-livre-dimage-de-jean-luc-godard/

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“É importante que o filósofo se recorde das muitas circunstâncias da vida nas quais não se o distingue de nenhum outro. De resto, a tradição teatral – em particular a comedia – irá refrescar-lhe a memória.

(…) Sábio, artista, militante e amantes, estes são os papeis que a filosofia exige de quem as prática. Chamei-as de as quatro condições da filosofia. (…)”

Ainda há uma honrosa menção a Platão: “um elogio do amor (…), essa força cosmopolita, misteriosa, sexual, que supera fronteiras e condições sociais (…) que, se por ele não se começa, jamais se saberá o que é filosofia.”’

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Para sugerir o espírito de um modo agradável de metabolizar intelectualmente este elogio, tomo a liberdade de mencionar um outro: O Elogio da Loucura (1511), do anteriormente citado Erasmo de Rotterdam (1466 – 1536). Através de alegorias e metáforas da antiguidade clássica, a Loucura se compara aos deuses. Obteve imenso sucesso, até junto ao poderoso Papa reinante. O grande pintor Hans Holbein (1497 – 1543) chegou a ilustrar a edição. A criação intelectual do século XVI foi profundamente influenciada pela obra; o Renascimento inteiro deve muito de sua estética e pensamento a ela. Era de leitura e estudo obrigatórios para todos os estudantes das universidades da época.

Retrato de Erasmo de Roterdam, por Hans Holbein

https://www.wikiart.org/pt/hans-holbein-o-jovem/retrato-de-erasmo-de-rotterdam-1523

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O capítulo A Construção do Amor nos dá uma chave de leitura importantíssima que parte de duas perguntas de Nicolas Truong: “Rimbaud queria reinventar o amor. Mas a partir de qual ideia de amor é possível reinventa-lo?” e “Por que o Senhor toma distância de uma concepção fusional do amor?”

(…)“amor é uma coisa que se constrói”; (…)“um amor verdadeiro é aquele que triunfa duradouro, por vezes duramente, sobre obstáculos postos pelo espaço, pelo mundo, pelo tempo.”; (…) “gostaria de precisar que por ‘duração’ não pretendo dizer o amor que dura, que se ama sempre ou para sempre; o que quero dizer é que o amor inventa uma maneira diferente de perdurar  na vida, que a existência de cada um, na prova do amor, confronta-se com uma temporalidade nova. Para dizer com o poeta, o amor também é `o duro desejo de durar` [Paul Éluard(1895 – 1952), em Últimas poesias de amor ].  Além disso, é o desejo de uma duração desconhecida. Porque, sabe-se, o amor é uma reinvenção da vida. E reinventar o amor significa reinventar essa reinvenção.”

Badiou responde com uma visão do amor além da concepção que ele chama de “fusional”, opondo-a a uma alegórica, “dual”, baseada na surpresa e na continuidade de tempo de um relacionamento que è humano. Alude à morte deste após consumada a fusão, pois isso não conferiria sentido à continuidade amorosa da relação. Sua poderosa visão intelectual descreve a fusão como um problema narrado pela mitologia de Tristão e Isolda, da ópera homônima do alemão Richard Wagner (1813 -1883) – jamais degradando a obra enquanto arte ou mito – até elogiando-a por isso, contrariamente a tantas igrejinhas maniqueístas demonizadoras daquele compositor. Cita também o romantismo fusional da morte de Romeu e Julieta ao mesmo tempo em que ressalta a surpresa da alteridade projetada na metáfora das duas famílias que se odeiam (Montecchio e Capuletto), confrontada tragicamente pelo amor de seus herdeiros que floresce acima das conveniências.

Isso nos guia a uma leitura onde a alegoria traz o respeito à alteridade; e à luta aventurosa pela duração do amor no tempo, ao invés de ocasionar a sua consumação. Em senso lato, é um preservar às avessas, um preceito para reler e reinventar a vida, uma construção do amor enquanto reinvenção daquela, por sua vez reinvenção intelectual que somente o tempo pode prover; e não a ignorância do consumo apressado da informação sem que e possa assimilá-lo via assimilação da alteridade. Utiliza o desejo como estímulo para enriquecer a existência, e não para satisfação e produção de herdeiros ou mão de obra. Diferença estrutural, essa é uma surpreendente sugestão de como pensar a arte no momento em que a realizamos.

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O momento latente em que o amor vira acontecimento é o momento em que ele emerge da existência. E somente a arte pode representa-lo; l’amour fou, o amor louco, como lembram o surrealista André Breton (1896 – 1966) e o poeta Arthur Rimbaud (1854 – 1891); aludem que não há lei para o que é irredutível a qualquer lei. Esses dois artistas nos acompanham desde o primeiro capítulo, onde se relata o amor como atualmente depauperado de sua riqueza, transformado via celulares e redes sociais em produto a ser vendido com um “seguro anti-sofrimento” e outros opróbios.

Isso é especular a qualquer forma de representação; quer dizer, qualquer tipo de arte, de qualquer cultura.  É o capítulo do Elogio que mais liberta, formalmente, um artista que venha a tocar concretamente o objeto do amor.  A sua definição gramática depende da profundidade e da transparência existencial com que o artista concretamente o atinge. Vale tudo qualitativamente, da pior à melhor experiência artística. Sendo arte, vale mais o que se pode formar em seu publico; para isso, a sinceridade da vivência precisa ser suportada pela forma que o artista escolhe.

Na reflexão ad  hoc escolhida há uma breve e vertiginosa análise sobre a duração que parte de O triunfo do amor, delicado e magistral texto do setecentista francês Pierre Marivaux (1688 – 1763). Nele, jovens vencem uma ditadura de conveniências familiares senis. Acrescenta um velho casal onde a mulher encontra-se com metade do corpo enterrada na areia a meditar sobre a felicidade na desgraça vista pelo marido posto num buraco de  onde sai somente rastejando – Happy Days – Dias Felizes, do irlandês Samuel Beckett (1906 – 1989); metáforas do amor  que irrompe, sem leis, destruindo qualquer logica; Mito(s) de Sísifo(s), como no ensaio do franco argelino Albert Camus (1913-1960).

[Il y a seulement de la malchance à n’être pas aimé: il y a du malheur à ne point aimer – Não sermos amados e’ somente falta de sorte; não amar é a verdadeira desgraça.

De L’Eté (O Verão), escrito em 1954 por Albert Camus. ]

Isso é alvissareiro – ou deveria ser – se pretendemos sermos chamados de artistas enquanto sicários de todo o gênero atrelam-se ao poder, corrompem-no, tentando destruir a arte. Destruir o amor. Impossível: onde há ser humano, há arte. Há o elogio do amor.

Andre Breton

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