Arte e Ciência

Publicado em: 08/03/2013

Como já escrevi aqui, neste espaço, António Damásio tem realizado um importante trabalho no campo da neurobiologia. A pesquisa do neurocirurgião, que desafia os dualismos tradicionais do pensamento ocidental – mente e corpo, razão e sentimento, explicações biológicas e explicações culturais –, pretende oferecer uma visão científica e integrada do ser humano, sugerindo hipóteses inovadoras sobre o funcionamento do cérebro humano.

Damásio verifica em seu trabalho que cada tipo de emoção corresponde a uma zona precisa do córtice, que envia comandos para todas as partes do corpo, enfatizando a proximidade das conexões anatômicas e fisiológicas entre cada emoção e a regulação do estado interno do organismo.

Em “O Mistério da Consciência”, lançado aqui no Brasil pela Companhia das Letras, Damásio afirma: “Durante as emoções, neurônios localizados no hipotálamo, no prosencéfalo basal e no tronco cerebral liberam essas substâncias químicas em várias porções mais rostrais do cérebro e, assim, transformam temporariamente o modo de funcionamento de muitos circuitos neurais. Entre as consequências típicas do aumento ou da diminuição na liberação desses transmissores inclui-se a sensação de prazer ou desconforto que permeia a experiência mental. Essas sensações fazem parte de nosso sentimento de uma emoção.”

Foi a primeira vez que regiões cerebrais ativadas por emoções foram localizadas com tal precisão. As dúvidas sobre os diferentes estados de alma vêm de longa data e os neurocientistas do século 19 já se interrogavam sobre essas variações de humor. Mas os trabalhos que produziam não dispunham das possibilidades técnicas que o final do século 20 conheceu.

O cérebro foi estudado a partir de lesões cerebrais até os anos 1940, época em que, por força do desenvolvimento da neurofisiologia, da neurofarmacologia e da neuroquímica, este método passou a ser secundário. E a razão era que esse estudo dependia da autópsia. Só podia haver confirmação do que de fato se havia passado muitos anos depois, quando o doente falecia. Apesar dessas limitações, os neurocientistas do século 19 e de grande parte deste século foram estabelecendo uma cartografia cerebral. O mapeamento era, porém, aproximativo. Nos últimos anos, o equipamento PET, uma espécie de scanner, permitiu aos cientistas observar os fenômenos do cérebro ao executar uma série de funções.

E por que eu insisto na relação ciência e arte? Para o ator, compreender que a falta de emoção e sentimento pode destruir a racionalidade, como propõe Damásio, pode ser fundamental em seu processo criativo. Na visão inovadora do neurologista, sentimentos e emoções são percepções diretas de nossos estados corporais e constituem um elo essencial entre o corpo e a consciência.


* por Ivam Cabral, especial para o portal da SP Escola de Teatro.

 

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