Alguns pensamentos sobre o curso e o processo seletivo na Dramaturgia

Publicado em: 02/10/2017

Caminhamos para um novo processo seletivo, que escolherá candidatos para novas vagas nos cursos de DRAMATURGIA, ILUMINAÇÃO, SONOPLASTIA E TÉCNICAS DE PALCO. A SP ESCOLA DE TEATRO é uma escola tão dinâmica que a perspectiva de termos novos APRENDIZES no decorrer do ano letivo nos coloca sempre em estado de reelaboração de procedimentos, novas possibilidades, desejo de conhecimento.
Exames de seleção nunca são iguais. A cada semestre ou ano, é preciso revê-los, avaliá-los, colocá-los em perspectiva em relação aos módulos. Ocorre-me que no caso ESPECÍFICO da DRAMATURGIA, que é o curso pelo qual respondo, é importante que o candidato esteja aberto para o signo do PARADOXO, o senhor dos movimentos e das mudanças. A chave principal está na visão de mundo: regras e técnicas vêm depois (ainda que ambas as ações devem e podem estar em tensão, atrito, choque).

A FORMAÇÃO de um DRAMATURGO está para///vai muito além da MERA APREENSÃO de regras ou técnicas.

LEMBRO DO MESTRE ANTUNES FILHO, quando, como coordenadora do CÍRCULO DE DRAMATURGIA DO CPT, me aconselhava para conversar com qualquer DRAMATURGO que entregasse um TEXTO MEDÍOCRE:

“Não adianta FICAR MUDANDO um TEXTO PRA MELHORÁ-LO: É A CABEÇA que tem que MUDAR.”

Por isso, não há o menor sentido em OFERECER um caudal de técnicas de escrita, REGRAS E ESQUEMAS no curso de DRAMATURGIA, se o APRENDIZ não quiser///puder desenvolver UM PONTO DE VISTA DISTINTO SOBRE O MUNDO; se não prezar uma POSTURA e um AGIR NO MUNDO que vá contra a PRODUÇÃO DO DISCURSO deste mesmo MUNDO.

Como NOS DIZ FOUCAULT (A ORDEM DO DISCURSO),

“Suponho que em toda SOCIEDADE a produção do DISCURSO é sempre ao mesmo tempo CONTROLADA, SELECIONADA E REDISTRIBUÍDA com a função de conjurar seus poderes e perigos e DOMINAR seu ACONTECIMENTO ALEATÓRIO, ESQUIVAR SUA PESADA E TEMÍVEL MATERIALIDADE.”

Uma peça de teatro tem uma MATERIALIDADE DISCURSIVA que age sobre o mundo, contra o SENSO COMUM, o DISCURSO DOMINANTE, a superficialidade das ARENGAS MIDIÁTICAS.

Prestes a preparar um novo processo seletivo, me recordo com muitas saudades dos quase seis anos que estive no CENTRO DE PESQUISA TEATRAL. Tudo no CPT soava novo, instável e denso. A última coisa aceitável ali era a certeza MASSIFICADORA, A CRISTALIZAÇÃO DO CONHECIMENTO, sua SEDIMENTAÇÃO em REGRAS ESTANQUES.

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O que mais me atrai no projeto da SP ESCOLA DE TEATRO, além do estímulo à autonomia criativa, é poder trabalhar na chave do PARADOXO, que proporciona o MOVIMENTO:

– A criação COLABORATIVA e a criação SINGULAR;

– As bases canônicas e as formas contemporâneas, desconstruídas e fragmentadas;

– O artesanato com a alta tecnologia;

– A relação vertical entre mestre e aprendiz (como eu fui educada) e a horizontal entre conteúdos não subordinados, não HIERÁRQUICOS;

É uma escola que prepara o aprendiz para estar e não estar pronto. E que propõe ao formador, à maneira freireana, voltando ao início desta conversa: Quem ensina APRENDE AO ENSINAR e quem APRENDE ensina ao APRENDER.