
Antes de tudo, é preciso reconhecer que Ninguém Morre na Véspera nasce de um gesto raro: transformar a ausência em linguagem. Em seu romance de estreia, lançado pela Editora Mondru, Igor do Prado constrói uma narrativa que atravessa as fronteiras entre ficção, memória e homenagem para imaginar os últimos pensamentos de uma mãe diante da morte. Ao acompanhar o fluxo de consciência de Valquíria, personagem inspirada por experiências e afetos profundamente enraizados na realidade suburbana brasileira, o autor cria uma prosa marcada pela oralidade, pela fragmentação e pela recusa de qualquer idealização da vida. Mais do que um livro sobre o fim, a obra investiga aquilo que permanece: as lembranças, os vínculos familiares, as contradições humanas e a necessidade de atribuir sentido ao que já não pode ser dito. Nesta entrevista, Igor reflete sobre os desafios éticos e literários de escrever a partir da memória, sobre a construção dessa voz feminina tão potente e sobre a literatura como espaço de reconexão com aqueles que amamos.
Bob Sousa – Em Ninguém Morre na Véspera, você imagina os últimos pensamentos de sua mãe e transforma esse exercício em ficção. Como foi lidar com a fronteira entre memória, invenção e responsabilidade afetiva durante o processo de escrita?
Igor do Prado – Foi difícil. Por isso demorou tanto, por isso me sabotei tanto. Porque eu duvidava do que estava fazendo. Eu me senti, por diversas vezes, um usurpador, um mentiroso, um ousado. Tive de expor algo que pode se confundir com a realidade. Mas é o que é, porque é baseado em fatos reais e em memórias de minha mãe me dando sermão, enquanto estava deitada na rede ou enquanto fazia algo em casa. Ela falava muito e de muita gente. Contava histórias, falava mal e falava bem. E por mais que isso me cansasse, eu ouvi durante 30 anos e guardei muito, inclusive, só pra mim. Eu passei a acreditar no que criava, quando me caiu a ficha que eu estava, sem querer, escrevendo um romance, e que a história deveria ser a história de tantas mães e avós das periferias do Brasil.
Bob Sousa – A estrutura do romance rejeita a linearidade e reproduz o fluxo fragmentado da consciência. De que maneira essa forma narrativa dialoga com sua compreensão da memória e da experiência humana diante da finitude?
I.P – Quando Dona Val tenta criar uma linha racional da memória, ela se distrai com o presente e se perde, preocupada, principalmente, com uma data importante, do dia seguinte, que é a chave de uma outra porta do romance. Então, por mais fragmentada que seja a sua memória, ela faz uma força brutal para manter algo vivo nela, que são as lembranças. Ela se agarra nesse recurso da memória, e nessa fragmentação, ela mostra que está virtualmente ao lado de pessoas e situações, utilizando a sua única alternativa.
Sobre a ligação desse fluxo intenso e curto de pensamentos com a experiência humana diante da finitude, eu fui estudar para tentar entender o que se passa na cabeça de uma pessoa que sabe que está morrendo. Não há indícios concretos de que de fato se passa o filme da vida na cabeça de quem está partindo. Então, eu criei esse embrulho pesado de memórias a partir dessa ideia. Pensei comigo: porque não dizer tudo o que ela pensou – e que pode estar pensando – naquele momento? Com alguma ficção, escrevi coisas que não foram ditas a ninguém, só a mim; e coisas que eu sabia que ela sabia, mas também nunca me disse.
Bob Sousa – Valquíria surge como uma personagem marcada por contradições, durezas, ternuras e sobrevivências. Quais foram os maiores desafios para construir uma figura materna complexa, distante tanto da idealização quanto do julgamento?
I.P – Eu tive que partir para a crueza da pessoa, despida de rótulos, apesar de ser um clichê suburbano. Sem deixar de valorizar os seus sonhos, a sua sabedoria, baseada numa simplicidade antiga, a partir de ditados populares, que filosofavam e rumavam a sua vida. O difícil foi parar de escrever fatos e transformá-los em ficção, sem deixar de manter as características mais notórias de alguém. Então, apesar dela ser uma figura pronta, o desafio foi tirar essa casca do clichê, mostrando sua complexidade humana, a partir de desejos, arrependimentos, valores e preconceitos. É uma mãe e também avó. É uma mulher anônima, que tenta manter o neto vivo no dia a dia da quebrada. Não é necessariamente alguém ideal, mas se trata de alguém julgável aos olhos de desconhecidos.
Bob Sousa – A oralidade ocupa um lugar central no livro, preservando regionalismos, desvios da norma culta e marcas da fala cotidiana. Em um momento em que tantas narrativas buscam uniformizar a linguagem, qual é o valor político e literário de escrever a partir dessas vozes frequentemente invisibilizadas?
I.P – Quando eu decidi manter o regionalismo e trazer a oralidade para a escrita, eu quis que quem lesse, também ouvisse: a sua avó, a sua mãe, o seu avô, a sua tia – ou simplesmente um ancião ou uma anciã que lutou para se manter e manter a sua prole viva e produtiva. Quem cria, ensina, corrige, não faz isso escrevendo. O faz falando, orientando, contando histórias, parábolas, ditados, dando imensos sermões. Então, aquelas observações dali do leito de morte, os comentários para si mesma, eram suas falas – quando sua voz não ecoava mais. Escrever esta história na norma culta, é calar alguém que passou a vida tentando ser ouvida. Além disso, eu não acredito que a norma culta dê conta de transmitir o real sentimento, que só a oralidade tem. Lembrar da função dos griôs — que são guardiões da ancestralidade e que preservam a identidade e o vigor da palavra falada nas terras da África Ocidental — foi fundamental para que eu decidisse dar a verdadeira voz à Dona Val.
Bob Sousa – Em diversos momentos, a obra sugere que as lembranças são uma tentativa de organizar os significados da existência. Você acredita que a literatura tem a capacidade de reconstituir aquilo que a realidade perdeu ou ela serve justamente para revelar os vazios que jamais poderão ser preenchidos?
I.P – A memória é um suspiro, também. O filme “O Escafandro e Borboleta” me ajudou nesse sentido. É a história do editor da revista Elle que sofreu um acidente vascular e passou o restante de sua vida deitado se comunicando pelo piscar de um olho com sua enfermeira – e escreveu seu livro. Esse filme ajudou a entender que a gente deve respeito à memória de quem parte, não só lembranças da pessoa em si, mas das lembranças dela, do que ela exprimia por meio de sua nostalgia. Então,a literatura não é só entretenimento ou a viagem na história. Ela é essencial para mantermos vivos os legados e as memórias, para que se perca pouco – porque um pouco da realidade sempre se perde – ao passo que essa linguagem artística preenche lacunas importantes da vida de pessoas anônimas. A oralidade é literatura. Registrar toda essa palavra dita, ajuda a manter os pensamentos de uma personagem humana, importante para toda uma família e agregados.
Bob Sousa – Embora a morte seja o ponto de partida da narrativa, o livro parece afirmar uma intensa pulsão de vida. O que a trajetória de Valquíria e a escrita deste romance lhe ensinaram sobre permanência, legado e sobre aquilo que continua existindo depois que alguém parte?
I.P – Eu acreditei que essa narrativa era o último pulso de vida de alguém, por isso foi tão intenso. Uma explosão de pensamentos e lembranças de uma pessoa que sabe que tem pouco tempo para pensar no maior número de coisas possível, como se o neto, que estava ao seu lado, pudesse estar compartilhando desse momento. Eu aprendi que deveria ter ouvido mais, apesar de achar que ouvi muito. Eu deveria ter exercitado uma escuta ativa, apesar de conviver com uma pessoa autoritária.
Hoje, que tenho um filho de quase cinco anos, conduzo-me ao diálogo constante para que eu e ele possamos nos descobrir cada vez mais, para que ele entenda o que é a finitude e o valor do que fica de alguém que parte. Escrevendo, acabei sendo ajudado com a paternidade, pensando muitas vezes: “Comigo não era assim. Agora posso fazer melhor”.
E de certa forma, foi como se eu me preparasse para a morte evidente. Pergunto-me sempre: Como eu quero morrer? Terei a chance de poder escolher? Conseguirei falar tudo o que eu quero? Eu poderei ouvir música? Conseguirei ler? Eu poderei comer ou beber algo que quero? Vão realmente deixar uma televisão ligada na minha frente ou no meu quarto o dia todo? A finitude deve, realmente, por regra, ser sóbria? Mas quem disse que esse momento é de sobriedade? Dói ou não dói? E espero, de verdade, que, quando acontecer, seja longe de datas importantes.

