Caetano Vilela é encenador, iluminador e ator

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Eu não amo o teatro. Eu escolhi o teatro como forma de expressão, sem direito a exclusividade. A ópera, a música, a literatura e as artes plásticas também são plataformas para as minhas inquietações. Desconfio e tenho medo dos ‘amantes’ em geral.

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
Montagem profissional foi “Hamlet”, em 1984, dirigida pelo Marcio Aurelio. Lembro que era grandioso e desastroso ao mesmo tempo. Eu me lembro também do Celso Frateschi (Hamlet) interrompendo, irritadíssimo, o famoso solilóquio “ser ou não ser”, quando parte da plateia completou a frase antes dele. Mico!

Houve algum espetáculo que mudou a sua vida?

“Eletra Com Creta” e a “Trilogia Kafka”, de Gerald Thomas.

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro foi...
Foram três espetáculos que me fizerem ter a certeza das minhas escolhas: “Leonce e Lena” (1987) dirigido pelo William Pereira; “Eletra Com Creta” (1987), do Gerald Thomas, e a adaptação das novelas de Guimarães Rosa, dirigida por Ulysses Cruz, em "Corpo de Baile" (1988).


Você teve algum padrinho no teatro?

No teatro, não. Eu sempre escolhi com quem queria trabalhar e ia com a cara e a coragem provar que eu merecia estar ali. Agora, na ópera, eu tive o Iacov Hillel, que praticamente me adotou. Como eu abandonei meus estudos no colegial (nem terminei), para me dedicar ao teatro, o que eu tive foram tutores, que me orientaram intelectualmente em várias áreas. Nas artes plásticas foi Paulo Penna; no teatro, o dramaturgo Jaime Compri, do Grupo Boi Voador, e, na ópera, o maestro Luiz Fernando Malheiro.

Já saiu no meio de um espetáculo?
Não, tenho vergonha. Quando a peça é muito ruim ou me irrita, eu olho para as varas de luz e começo a contar mentalmente os refletores.


Teatro ou cinema?
Teatro. É mais barato e efêmero. O cinema, embora me inspire mais, tem essa aura de imortalidade, que me assusta um pouco.


Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
“O Balcão”, naquela famosa encenação do Victor Garcia para a Ruth Escobar. Queria ter vivido aquela efervescência política dos anos 60.


Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Vários! A todos aqueles que me influenciaram ou mudaram o meu modo de pensar o teatro: “Leonce e Lena”/William Pereira, “Trilogia Kafka”/Gerald Thomas, “Corpo de Baile”/Ulysses Cruz, “O Despertar da Primavera”/Ulysses Cruz, Giovanni/Iacov Hillel, “O Concílio do Amor”/Gabriel Villela, “M.O.R.T.E.”/Gerald Thomas, “O Livro de Jó”/Antônio Araújo, “O Idiota” /Cibele Forjaz  e mais alguns outros.


Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro?
Atualmente estou fascinado com o trabalho dramatúrgico, nada óbvio, que Roberto Alvim desenvolve com a sua companhia. Seu conceito de Dramáticas Transhumano é uma renovação extremamente bem-vinda. No exterior, sempre me chamou atenção o trabalho do Romeo Castellucci para a Societas Raffaello Sanzio. Para mim, Castellucci é o novo Artaud do teatro mundial, radicalmente provocador e esteticamente inquietante.

Qual companhia brasileira você mais admira?
Obviamente, a Cia. de Ópera Seca (fundada por Gerald Thomas, e, desde 2009, dirigida por mim no Brasil). Eu também admiro os trabalhos da Cia. dos Atores (RJ), Club Noir (SP), Cia. Brasileira de Teatro (PR), Teatro da Vertigem (SP), Armazém Cia. de Teatro (PR/RJ), Cia. Livre (SP), Cia. Balagan (SP), Os Satyros (SP), Os Fofos Encenam (SP) e Cia. Hiato (SP).


Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?

Não costumo perder peças dos “monstros sagrados”: Marília Pêra, Fernanda Montenegro, Renata Sorrah e Marco Nanini. Também não perco nada que o Antunes Filho faça.


Qual gênero teatral você mais aprecia?

O bem realizado.


Em qual lugar da plateia você gosta de se sentar?
Ultimamente não é o lugar na plateia que me incomoda, mas as pessoas que se sentam ao meu redor. O público está cada vez mais desatento e mal-educado com seus celulares e guloseimas.


Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Em primeiro lugar, temos pouquíssimos encenadores. O que se vê mesmo são “diretores de teatro” mais preocupados em defender seu próprio estilo, o que engessa toda e qualquer direção, em função de uma estética que pode ou não servir ao espetáculo. 


Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

No Brasil, com uma companhia que não dependesse da burocracia governamental para existir e que tivesse sua própria sede, se sustentando com a sua própria programação.


Cite uma Iluminação surpreendente.
Gerald Thomas e Wagner Pinto na ópera “Mato Grosso”, de Philip Glass.

Cite um cenário surpreendente.
A biblioteca criada pela
Daniela Thomas para “Trilogia Kafka” e a floresta realista cercada por um riacho em “Cartas Portuguesas”, do Fernando Melo da Costa, para a encenação de Bia Lessa.


Cite um ator que surpreendeu as suas expectativas
Lee Taylor em “Policarpo Quaresma”.

O que não é teatro?
Sinto muito pelos adeptos, mas psicodrama não é teatro.


A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Lógico! O artista sempre pode tudo e cabe ao público e aos historiadores analisar e julgar a validade das suas ações criadoras.


Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Deixar a tecnologia cada vez mais artesanal e invisível. 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
“Hamlet”
e algumas outras de Shakespeare. Não leio e não coleciono peças de teatro. Na minha estante, só tenho as que trabalhei ou são fontes de pesquisa para outros trabalhos específicos.


Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Pela ordem: Gerald Thomas, Tom Stoppard, Marco Nanini e Júlia Lemmertz. 


Qual o papel da sua vida?

Da minha vida e da humanidade: “Hamlet”.

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
Uma pergunta para M.Gorki (Máximo Gorki, escritor, romancista, dramaturgo, contista e ativista político russo): “Você não se arrepende de ter sido tão fraco, ambicioso e mau caráter durante o regime stalinista?”.

O teatro está vivo?
Espero que sim, caso contrário nós estamos todos mortos.

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O ator, iluminador e encenador Caetano Vilela

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20/08/2012

Papo de Teatro com Caetano Vilela

O ator, iluminador e encenador Caetano Vilela

O ator, iluminador e encenador Caetano Vilela

Caetano Vilela é encenador, iluminador e ator

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Eu não amo o teatro. Eu escolhi o teatro como forma de expressão, sem direito a exclusividade. A ópera, a música, a literatura e as artes plásticas também são plataformas para as minhas inquietações. Desconfio e tenho medo dos ‘amantes’ em geral.

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
Montagem profissional foi “Hamlet”, em 1984, dirigida pelo Marcio Aurelio. Lembro que era grandioso e desastroso ao mesmo tempo. Eu me lembro também do Celso Frateschi (Hamlet) interrompendo, irritadíssimo, o famoso solilóquio “ser ou não ser”, quando parte da plateia completou a frase antes dele. Mico!

Houve algum espetáculo que mudou a sua vida?

“Eletra Com Creta” e a “Trilogia Kafka”, de Gerald Thomas.

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro foi...
Foram três espetáculos que me fizerem ter a certeza das minhas escolhas: “Leonce e Lena” (1987) dirigido pelo William Pereira; “Eletra Com Creta” (1987), do Gerald Thomas, e a adaptação das novelas de Guimarães Rosa, dirigida por Ulysses Cruz, em "Corpo de Baile" (1988).


Você teve algum padrinho no teatro?

No teatro, não. Eu sempre escolhi com quem queria trabalhar e ia com a cara e a coragem provar que eu merecia estar ali. Agora, na ópera, eu tive o Iacov Hillel, que praticamente me adotou. Como eu abandonei meus estudos no colegial (nem terminei), para me dedicar ao teatro, o que eu tive foram tutores, que me orientaram intelectualmente em várias áreas. Nas artes plásticas foi Paulo Penna; no teatro, o dramaturgo Jaime Compri, do Grupo Boi Voador, e, na ópera, o maestro Luiz Fernando Malheiro.

Já saiu no meio de um espetáculo?
Não, tenho vergonha. Quando a peça é muito ruim ou me irrita, eu olho para as varas de luz e começo a contar mentalmente os refletores.


Teatro ou cinema?
Teatro. É mais barato e efêmero. O cinema, embora me inspire mais, tem essa aura de imortalidade, que me assusta um pouco.


Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
“O Balcão”, naquela famosa encenação do Victor Garcia para a Ruth Escobar. Queria ter vivido aquela efervescência política dos anos 60.


Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Vários! A todos aqueles que me influenciaram ou mudaram o meu modo de pensar o teatro: “Leonce e Lena”/William Pereira, “Trilogia Kafka”/Gerald Thomas, “Corpo de Baile”/Ulysses Cruz, “O Despertar da Primavera”/Ulysses Cruz, Giovanni/Iacov Hillel, “O Concílio do Amor”/Gabriel Villela, “M.O.R.T.E.”/Gerald Thomas, “O Livro de Jó”/Antônio Araújo, “O Idiota” /Cibele Forjaz  e mais alguns outros.


Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro?
Atualmente estou fascinado com o trabalho dramatúrgico, nada óbvio, que Roberto Alvim desenvolve com a sua companhia. Seu conceito de Dramáticas Transhumano é uma renovação extremamente bem-vinda. No exterior, sempre me chamou atenção o trabalho do Romeo Castellucci para a Societas Raffaello Sanzio. Para mim, Castellucci é o novo Artaud do teatro mundial, radicalmente provocador e esteticamente inquietante.

Qual companhia brasileira você mais admira?
Obviamente, a Cia. de Ópera Seca (fundada por Gerald Thomas, e, desde 2009, dirigida por mim no Brasil). Eu também admiro os trabalhos da Cia. dos Atores (RJ), Club Noir (SP), Cia. Brasileira de Teatro (PR), Teatro da Vertigem (SP), Armazém Cia. de Teatro (PR/RJ), Cia. Livre (SP), Cia. Balagan (SP), Os Satyros (SP), Os Fofos Encenam (SP) e Cia. Hiato (SP).


Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?

Não costumo perder peças dos “monstros sagrados”: Marília Pêra, Fernanda Montenegro, Renata Sorrah e Marco Nanini. Também não perco nada que o Antunes Filho faça.


Qual gênero teatral você mais aprecia?

O bem realizado.


Em qual lugar da plateia você gosta de se sentar?
Ultimamente não é o lugar na plateia que me incomoda, mas as pessoas que se sentam ao meu redor. O público está cada vez mais desatento e mal-educado com seus celulares e guloseimas.


Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Em primeiro lugar, temos pouquíssimos encenadores. O que se vê mesmo são “diretores de teatro” mais preocupados em defender seu próprio estilo, o que engessa toda e qualquer direção, em função de uma estética que pode ou não servir ao espetáculo. 


Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

No Brasil, com uma companhia que não dependesse da burocracia governamental para existir e que tivesse sua própria sede, se sustentando com a sua própria programação.


Cite uma Iluminação surpreendente.
Gerald Thomas e Wagner Pinto na ópera “Mato Grosso”, de Philip Glass.

Cite um cenário surpreendente.
A biblioteca criada pela
Daniela Thomas para “Trilogia Kafka” e a floresta realista cercada por um riacho em “Cartas Portuguesas”, do Fernando Melo da Costa, para a encenação de Bia Lessa.


Cite um ator que surpreendeu as suas expectativas
Lee Taylor em “Policarpo Quaresma”.

O que não é teatro?
Sinto muito pelos adeptos, mas psicodrama não é teatro.


A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Lógico! O artista sempre pode tudo e cabe ao público e aos historiadores analisar e julgar a validade das suas ações criadoras.


Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Deixar a tecnologia cada vez mais artesanal e invisível. 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
“Hamlet”
e algumas outras de Shakespeare. Não leio e não coleciono peças de teatro. Na minha estante, só tenho as que trabalhei ou são fontes de pesquisa para outros trabalhos específicos.


Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Pela ordem: Gerald Thomas, Tom Stoppard, Marco Nanini e Júlia Lemmertz. 


Qual o papel da sua vida?

Da minha vida e da humanidade: “Hamlet”.

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
Uma pergunta para M.Gorki (Máximo Gorki, escritor, romancista, dramaturgo, contista e ativista político russo): “Você não se arrepende de ter sido tão fraco, ambicioso e mau caráter durante o regime stalinista?”.

O teatro está vivo?
Espero que sim, caso contrário nós estamos todos mortos.


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