Cia. Hiato
De Enciclopedia do Teatro
Após três anos de trabalho artístico continuado – que gerou os espetáculos "Cachorro Morto" (2007-2008) e "Escuro" (2009-2010)- os jovens artistas (Aline Filócomo, Fernanda Stefanski, Luciana Paes, Mariah Amélia Farah, Paula Picarelli e Thiago Amaral e o diretor Leonardo Moreira), que se uniram para a formação da Cia. Hiato dão continuidade à sua pesquisa.
Inaugurando uma nova etapa que verticaliza sua forma de trabalho, surge o projeto “Em Busca da Memória: Realidade e Invenção.” Este projeto dá continuidade ao trabalho do grupo – unindo investigações cênicas, registro das memórias da cidade, resgate e apresentação de espetáculos, palestras abertas e a criação de um novo espetáculo - e tem a memória como eixo. A memória, entendida não apenas como função essencial para nossa consciência, aprendizados e afetos, mas também como um ato criativo é o que move a Companhia Hiato nessa nova jornada.
Mais do que apenas criar um novo espetáculo, a Companhia quer alicerçar uma proposta de investigação teatral que trafegue pelos diversos campos da operação teatral; teoria e prática, processo e produto, dramaturgia e documentação não são mais pólos estanques de conhecimentos, mas partes congruentes de um processo aberto ao público, contribuindo para o preenchimento de uma lacuna de cultura contemporânea pela disjunção entre um empirismo sem pensamento e um pensamento sem experiência.
Os espetáculos criados pelo grupo nascem de questionamentos muito pessoais: “qual a distância entre o que eu digo e o que você entende/quer entender, do que eu disse? Qual o tamanho da lacuna que existe entre a minha experiência e a linguagem? O que eu consigo expressar da minha experiência?” E, pra responder a essas perguntas, temos que considerar que existem outras formas de perceber o mundo além da norma. E isso nos faz voltar ainda mais e perguntar: como percepções de mundo, comportamentos, formas de pensamento podem ser consideradas adequadas ou inadequadas, se elas são únicas? A Cia. Hiato acredita que transformar essas perguntas em processo criativo é uma forma de, mais do que responder, compartilhar tais incertezas.
Em “Cachorro Morto” o grupo partiu de uma experiência pessoal do diretor e encontrou no autismo e na Síndrome de Asperger um ponto de partida para questionar diferentes formas de apreensão do mundo.
De forma coerente, o grupo então funda um projeto de investigação artística que sempre parte do estudo e compreensão de outras formas de pensamento. O segundo passo do longo trajeto proposto por esses jovens artistas foi a produção de “Escuro”, em que a deficiência serviu de metáfora para a insuficiência do diálogo. O espetáculo não apontava o “diferente”, nem mesmo procurava a sensibilização social do público diante da diferença. Ao contrário, a peça buscava, ao perguntar como se organizaram no homem as possibilidades de conhecimento do mundo, ou de que modos o cérebro processa conhecimento e percepção do real, contar uma história sobre pessoas comuns, sua inadequação, sua linguagem, os hiatos entre suas relações, os olhares que as cercam.
Nem só a temática e a linguagem escolhidas em seus dois espetáculos e nesta nova criação atestam a permanência e relevância desse recente grupo. É importante destacar também uma unidade na forma com que tais peças foram criadas: a criação é sempre colaborativa. O ponto de partida de cada uma delas é desenvolvido através de ensaios e estudos que envolvem improvisação, argumentos, escrita, reescrita, desespero e esperança. O resultado em cena representa o trabalho árduo de muitas pessoas ao longo destes dois anos.
Um trabalho sempre em processo - a cada apresentação, as peças são revistas e influenciadas por diferentes plateias. A cada nova mudança, seja a substituição de algum ator, ou novos técnicos ou novos espaços, descobertas emergem, novas direções são apontadas. Nesse caminho, as peças acabam por se tornar pontos de encontro e partida, destinos – poderíamos até dizer que se tornam “lugares” onde são compartilhadas histórias e inexperiências.
Em um grupo com tão pouco caminho trilhado, é cedo demais para apontar certezas ou teorias sobre o trabalho. Talvez a única certeza seja a de que aquilo que os move a continuarem trabalhando juntos, fazendo as mesmas perguntas juntos é o mergulho sem receios ao novo e inesperado, emprestando seus questionamentos à dramaturgia, seus nomes aos personagens, suas experiências pessoais à criação. E o novo mergulho da Cia. Hiato é também seu terceiro espetáculo: “O Jardim”.
