Anjos Pornográficos
De Enciclopedia do Teatro
Em 1999, os atores brasileiros Nathália Corrêa e Miguel Hernandez ingressaram na Academia Contemporânea do Espectáculo, na cidade do Porto, em Portugal, como bolsistas do fundo de cultura europeu para estudarem interpretação. A escola, dirigida por Antonio Capelo e Pedro Aparício tem como uma das características receber alunos de vários países de língua portuguesa. Nesse ambiente de estudo, pesquisa e reflexão, foi criada a Cia Anjos Pornográficos junto com os atores portugueses Antonio Julio Ribeiro e Antonio Silva.
Nesse primeiro momento, os componentes da companhia procuram desenvolver um trabalho em que pudessem por em prática as pesquisas realizadas, particularmente a diferente perspectiva de cada cultura diante de uma obra. Assim, uniram-se à Caldeira 213, associação de artistas plásticos e dentro da sede numa cave no centro histórico, colocaram em prática sua pesquisa nas montagens "Navalha" (drama de Plínio Marcos), "Tiestes" (tragédia de Sêneca) e "Roma" (espetáculo baseado nas idéias de John Cage), todos com cenografia e figurinos de Rute Moreda e realizados em 2000.
Nessa primeira fase descobrem caminhos para seu processo produtivo e aprofundam as questões que os estimulavam a criação. Em 2001, a cidade do Porto como capital cultural da Europa de então, recebia ampla programação e puderam ampliar suas referencias ao colaborar com companhias como Kumulus,(França), Natural Theatre (Inglaterra) e Fura Dels Baus (Espanha).
Por causa dessas experiências com a variedade de abordagens e processos de trabalho acrescentam à investigação de perspectivas culturais a atenção sobre a variedade de linguagens tecnológicas que influenciam o homem contemporâneo juntamente a uma pesquisa de espaços cênicos.
Assim, adaptam textos de Nelson Rodrigues, Sanchis Sinisterra, Alberto Pimenta para a criação de cenas e apresentação em cafés teatro da cidade. O amadurecimento dessa prática naturalmente conduziu à organização desses fragmentos no espetáculo "Óculos" (2001), e à radicalidade na experimentação de espaços de apresentação como jardins públicos, desfiles de moda e festivais de teatro.
Durante esse processo a companhia cresceu com a integração de novos artistas: as atrizes Andréa Moisés e Raquel Pereira, o ator Ricardo Maia e o músico Rui Gomes.
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Pesquisa
As reflexões sobre os dilemas do homem contemporâneo fundamentam a investigação da companhia Anjos Pornográficos desde sua fundação em Porto/Portugal. No princípio a procura de diferenças de percepção condicionadas pelo referencial cultural de cada interprete, de cada país, em relação com as diversas linguagens tecnológicas e suas consequências no cotidiano. Esse o fio condutor dos quatro primeiros espetáculos, envolvendo a pesquisa das obras de Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Sêneca e a investigação de espaços cênicos: jardins, passarelas, cafés-teatro, caves de vinho além de teatros convencionais.
Essa primeira busca da multiplicidade de meios interpretativos e tecnológicos os leva a uma necessidade de voltar à essência do evento cênico, da exposição do ator em relação à plateia, e da significação dessa exposição em cada contexto.
Os atores da Anjos Pornográficos buuscam na obra de Samuel Beckett e Fernando Pessoa, a aproximação da essência poética e sua aplicação cênica. Aos espetáculos realizados a partir da obra desses autores referenciais aliam um aprofundamento na utilização de novos espaços e configurações cênicas, como o topo de um prédio transformado em passarela teatral.
Após o retorno e radicação da companhia no Brasil, com a reaproximação de sua terra natal após longa ausência, voltam seus estudos para as primeiras influências ibéricas na cultura brasileira, suas manifestações na rica cultura nordestina e os traços e características éticas e comportamentais que herdamos desde os tempos da colonização. A obra de Francisco Pereira da Silva alicerçou seus anseios e estreiam a primeira produção brasileira com uma comédia crítica e épica sobre a endêmica corrupção em nossa cultura. Esta obra é um parêntese, um retorno a uma tentativa de compreensão e esclarecimento de nossas raízes.
Pesquisa Atual
Novamente os Anjos Pornográficos voltam à obra de Beckett, agora com um recorte sobre a finitude da vida abordando o elemento trágico e as angústias que acompanham a velhice. "Começar a Terminar", com Antonio Abujamra foi o espetáculo resultado dessa pesquisa. Na sequência, um outro olhar sobre esse assunto, é o que buscam com o espetáculo "Paraíso", de Dib Carneiro Neto, após um período de vivência e trocas com pessoas em idade avançada que frequentam instituições de terceira idade.
Atualmente, o que move o grupo é a investigação do elemento trágico no homem contemporâneo: suas angústias, ansiedades, desejos, ilusões e abismos. E como traduzir essas descobertas em teatro que se comunique com o homem em seu contexto atual.
Também sentiram a necessidade de intercâmbio com outros coletivos. Daí a parceira com o Grupo Tronco, de Belo Horizonte, no estudo do Teatro da Catastrofe, proposta do dramaturgo inglês Howard Barker.
Espetáculos
- 2000/2002- Óculos, textos de Nelson Rodrigues, Alberto Pimenta, Sófocles, Sanchis Sinisterra e Samuel Beckett
- 2002- Beckett's, de Samuel Beckett, dramaturgia de João Paulo Costa e Miguel Hernandez, encenação de João Paulo Costa
- 2003/2007- Os Marinheiros, de Fernando Pessoa, dramaturgia e direção de Miguel Hernandez
- 2005- Cristo Proclamado, direção e dramaturgia de Miguel Hernandez
- 2008/2010- Começar a Terminar, de Samuel Beckett, dramaturgia de Antonio Abujamra, Miguel Hernandez e Gregório Bacic, direção de Antonio Abujamra
- 2011- Paraíso, de Dib Carneiro Neto, direção de Antonio Abujamra
