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Performance Homérica

Publicado em: 07/11/2017

MAURÍCIO PARONI
Especial para a SP Escola de Teatro
Chá e Cadernos 100.5

 

Narrar é performar e vice versa: não saberia distinguir performance de narração enquanto categorias. Tal visão é particular da formação à antiga que tive – que não necessariamente é anti-contemporânea. Ao contrario: sou defensor e praticante da contemporaneidade. Simplesmente traço um percurso e um pensamento diferentes, num mar com ondas de cristas ainda mais vertiginosas. [1]

Homero, o primeiro grande narrador do Ocidente é, em si, uma performance: por haver apenas transcritos, não se sabe se existe a pessoa correspondente àqueles textos.

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Análoga é a linguagem da Bíblia, desde os apóstolos até Lutero – Brecht a lia diariamente para aprimorar seu modo de redigir falas; o é a linguagem do Alcorão – o livro sagrado do Islã, que teria sido revelado pelo arcanjo Gabriel ao ouvidos de Maomé; o é a do Mahābhārata – o Veda de Krishna, poema sagrado hinduísta -; o é a do Kalevala, a epopeia nacional da Finlândia; o é a dos Contos de Genji – onde eventos e personagens evoluem no quotidiano da vida real despida de um enredo especificamente programado; o é a linguagem de uma infinidade de antiquíssimas sagas dos dois hemisférios.

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A etimologia do nome Homero traz uma simbologia eloquente: “aquele que não vê” (I Me Horon – ὁ μὴ ὁρῶν): a cegueira como signo de dons proféticos e profunda sabedoria; “cego” seria a “pessoa que é acompanhada por alguém” (Homu erchomai – ὁμοῦ ἔρχομαι): que “anda junto”; que “encontra” (omērêin – ὀμηρεῖν). Havia, de fato, pequenas reuniões de Homerides, os que entoavam cânticos os quais, mais tarde, seriam partes dos mais famosos poemas do grego arcaico.

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Uma inversa ironia sobre nosso gênero humano reside na etimologia da palavra grega théatron: “de onde se vê”. A visão dos grandes mitos homéricos – aquele que não vê – chega até nós via remanescentes transcrições dos tragediógrafos gregos. A atividade que nos ligou diretamente àqueles mitos não se fez através do papel, mas através de toda e qualquer atividade teatral ligada especificamente ou não ao assunto mítico, século após século.
A esse respeito, o leitor tente uma experiência excitante: repense a própria vida numa lógica “trágica”. Sim, a sua biografia… Tente entabular uma identificação existencial privada com cada categoria vivida por protagonistas trágicos. Encontram-se elencadas na Arte Poética do filosofo Aristóteles. Vamos, coragem… para facilitar, descrevo, rusticamente, algumas delas:

a. Hybris – o desafio aos poderes constituídos (leis religiosas, civis, familiares, naturais) que ameaça a ordem do cosmos e potencia o caos.

b. Pathos – o sofrimento, imposto pelo Destino (Ananké), causado por aquele desafio.

c. Ágon – o conflito decorrente da hybris do protagonista (você!) em luta contra os que zelam pela ordem estabelecida (diké).

d. Ananké – o destino inevitável.

e. Peripécia – um acontecimento que altera o rumo daqueles eventos.

f. Anagnórisis – a constatação do teor trágico dos eventos acidentais.

g. Catástrofe – o final resultante do conflito entre a sua hybris (desafio) e a ananké (destino).

h. Katharsis – a purificação das emoções dessa sua estória de vida através do terror (phobos) e da piedade (eleos),

Você, herói dessa viagem, poderá intuir o que era ser um espectador na Grécia Clássica; intuir que somos feitos da mesma pasta, ainda que distando milênios do contexto e da mentalidade clássica; intuir que somos teimosamente humanos, apesar de imersos numa desesperadora contemporaneidade em transformação vertiginosa.

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Voltemos à poesia de Homero. Esta, provavelmente, era cantada por um grupo a outro nas estradas entre as cidades-estado. Tais deslocamentos são exemplos emblemáticos de performance contemporânea – passava-se de cantor a espectador e vice versa segundo o deslocamento físico; Eram geográficos e não apenas biográficos; Eram um cordel pagão ou um refrão de torcedores entoado na movimentação entre cidades – em vez de num estádio fixo; Eram sofisticados como o cordel, ainda existente, dos repentistas toscanos criadores do material poético utilizado por Dante Alighieri (1265-1321) na construção do Italiano de sua Divina Commedia.

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Lendário em si, Homero descende de Orfeu, o mítico poeta que amansava as feras com o seu canto. Esse me parece o ideal do poeta: amansar bestialidade gratuita para distribuir civilidade. Qualquer bom autor sabe tocar a mente, civilizada ou selvagem, de quem entra em contato com a sua obra. Isso é condição para se chamar – ou não – algo de teatro. A barbárie pode existir no palco na forma de pretensão desprezível do artista narcisista de qualquer matiz, ideologia ou classe. Mas teatro de verdade se dá somente na mente do narratário – aquele que vê.

Pelo menos quando se hipotiza sobre a poesia dos primórdios do Teatro Ocidental, qualquer narração é uma performance homérica; qualquer performance homérica é uma narração.

 

[1] [Escrevo da Itália, lugar que me inspira a especular a Historia do outro lado da questão. Se é possível o maniqueísmo dos tais “dois” lados. Ou mesmo da “questão”.]

 

Bibliografia e pesquisa
Grande Dizionario Garzanti
Wikipedia

 

 

William-Adolphe Bouguereau – Homero e seu Guia. Foto: Reprodução

Luca Giordano – Caronte e Morfeu. Foto: Reprodução

 




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