Em qual revolução estamos agora? (Pier Paolo Pasolini)

Publicado em: 13/08/2018

MAURÍCIO PARONI
Especial para a SP Escola de Teatro

Chá e Cadernos 100.11

Pier Paolo Pasolini. Da série “Pasolini a Chia”. Foto: Dino Pedriali/Galeria L’Opera para o Corriere della Sera

Ele. Sempre ele: Pier Paolo Pasolini (*), assassinado brutalmente pelas mãos de um garoto de programa em 2 de novembro de 1975, em Ostia, como reza oficialmente a mal realizada investigação do Estado Italiano – Provavelmente auxiliado por militantes fascistas. O fato aliviou o alto Vaticano, os fariseus, os carolas, toda a direita hidrófoba mundial, os vários sinédrios de esquerda, os políticos pequeno burgueses moralizantes, os esquerdistas de salão, os banqueiros, os tios e as tias do consumismo geral. A execução desse incomodo gênio poético injetou botox no sorriso dos autocráticos de todas as cores e no discurso do poder constituído contemporâneo.

Até hoje.

Gostaria tecer muitas considerações (**), mas talvez seja mais útil traduzir este artigo de 1973, publicado no jornal milanês Corriere della Sera, escrito por Pasolini sobre e publicidade dos Jesus jeans; Faz 40 anos, mas parece ter sido escrito ontem. (***)

O “louco” slogan de Jesus Jeans
Pier Paolo Pasolini

A linguagem empresarial é uma linguagem, por definição, puramente comunicativa: os “lugares” onde é produzida são os lugares onde a ciência é “aplicada”, isto é, são lugares de pragmatismo puro. Técnicos falam entre si em jargão especializado, numa função estrita e rigidamente comunicativa. O cânone linguístico que vigora dentro da fábrica tende, pois, a expandir-se também fora dele: é claro que quem produz quer ter uma relação comercial absolutamente clara com quem consome.

Há apenas um caso de expressividade – mas expressividade aberrante – na linguagem puramente comunicativa da indústria: é o caso do slogan. O slogan deve ser expressivo de fato, para impressionar e convencer. Mas tal expressividade é monstruosa porque ela imediatamente torna-se estereotipada, e fixa-se numa rigidez que é exatamente o oposto da mesma, a qual está eternamente em mudança e oferece interpretações infinitas.

A falsa expressividade do slogan é, portanto, a ponta máxima da nova linguagem técnica que substitui a linguagem humanista. É o símbolo da vida linguística do futuro, que é um mundo inexpressivo, sem particularidades e diversidades culturais, perfeitamente homologado e aculturado. De um mundo que, para nós, últimos depositários de uma visão múltipla, magmática, religiosa e racional da vida, aparenta um mundo de morte.

Entretanto, é possível prever um mundo tão negativo? É possível prever um futuro como um “fim de tudo”? Alguém – como eu – tende a fazê-lo por desespero: o amor pelo mundo vivido e experimentado impede que se pense em outro que seja igualmente real; que se possa criar outros valores semelhantes aos que tornaram preciosa uma vida. Essa visão apocalítica do futuro é justificável, mas provavelmente inexata.

Parece loucura, mas um recente slogan que se tornou fulminantemente famoso, o dos jeans “Jesus” – “Não terás outros jeans antes de mim” -, surge como um fato novo, uma exceção à regra fixa do slogan, revelando uma imprevista possibilidade expressiva, indicando uma diferente evolução que a convencionalidade – logo adotada pelos desesperados que querem sentir o futuro enquanto morte – fazia muito razoavelmente prever.

Veja-se a reação de L’Osservatore Romano [Jornal diário do Vaticano] a esse slogan: com seu italianozinho antiquado, espiritualista e meio intragável, o colunista do Osservatore Romano entoa um trinado, certamente não bíblico, para promover uma vitimização dos pobres, indefesos, inocentes. É o mesmo tom com o qual são escritas, por exemplo, as queixas contra a imoralidade desenfreada na literatura ou no cinema. Mas o tom choramingão e moralizante esconde a vontade ameaçadora do poder: enquanto o colunista finge-se cordeiro ao lamentar-se em seu bem escrito italiano, o poder trabalha por trás para reprimir, suprimir, esmagar os malvados que são causa daquele sofrimento. Os magistrados e os policiais estão em alerta; o aparato estatal coloca-se imediatamente a serviço do espírito. Ao sermão lamentoso e longo do Osservatore sucede-se o procedimento legal do poder: o escritor ou o cineasta blasfemo é imediatamente alvejado e silenciado.

Enfim, no caso de uma revolta de tipo humanístico – possível sob o velho capitalismo e sob a primeira revolução industrial – a Igreja tinha a possibilidade de intervir e reprimir contradizendo brutalmente uma certa vontade formalmente democrática e liberal do poder do Estado. O mecanismo era simples: uma parte deste poder – o judiciário e a polícia, por exemplo – assumiam uma função conservadora ou reacionária, e, como tal, colocavam automaticamente os seus instrumentos de poder para servir a Igreja. Há, portanto, uma dupla conexão de má fé nessa relação entre Igreja e Estado: de sua parte, a Igreja aceita o Estado burguês no lugar do monárquico ou feudal, dando-lhe a sua aprovação e seu apoio, sem o qual atualmente o poder do Estado não poderia existir; mas, para fazer isso, a Igreja deve admitir e aprovar as exigências liberais e as formalidades democráticas, o que faz somente se obtiver do poder a autorização para limitá-las e suprimí-las. Autorizações, por outro lado, que o poder burguês concede-lhes com todo o coração. De fato, sua aliança com a Igreja como instrumentum regni outra coisa não é que isso: mascarar o próprio antiliberalismo e a substancial antidemocracia confiando a função antiliberal e antidemocrática à Igreja, aceita por má fé como instituição religiosa superior. Em suma, a Igreja fez um pacto com o diabo, isto é, o Estado burguês. Não há contradição mais escandalosa do que entre a religião e a burguesia, sendo esta última o oposto da religião. O poder monárquico ou feudal era-lhe menos contraditório, no fundo. O fascismo, portanto, como um momento regressivo do capitalismo, era, objetivamente do ponto de vista da Igreja, menos diabólico que o regime democrático: o fascismo era uma blasfêmia, mas não minava internamente a Igreja porque era uma falsa ideologia nova. O Concordato [Acordo] não era um sacrilégio na década de trinta, mas o é hoje, pois o fascismo sequer arranhou a Igreja, ao passo que o neocapitalismo atual a destrói. A aceitação do fascismo foi um episódio atroz, mas a aceitação da civilização burguesa capitalista é um fato definitivo cujo cinismo não é apenas uma mancha, enésima na história da Igreja, mas um erro histórico que a Igreja vai pagar provavelmente com o seu declínio. Ela não intuiu – eternizada em sua função institucional – que a burguesia representa um novo espírito que não é certamente o fascista: mas um novo espírito que se apresenta inicialmente competitivo com a religião (somente salvando o clericalismo) para em seguida tomar o seu lugar no fornecimento, aos seres humanos, de uma visão de vida total ou única (daí não precisar mais do clericalismo como um instrumento de poder).

Na verdade, como eu disse, às queixas patéticas do articulista do Osservatore, segue-se imediatamente – em casos de oposição “clássica” – a ação do judiciário e da polícia. Mas é um caso de sobrevivência. O Vaticano ainda encontra velhos homens fiéis no aparato do poder do Estado: eles são, de fato, velhos. O futuro não pertence nem aos velhos cardeais, nem aos velhos políticos, nem aos velhos magistrados, nem aos velhos policiais. O futuro pertence à jovem burguesia que não precisa mais manter o poder com os clássicos instrumentos; que já não sabe o que fazer com a Igreja, que, até agora, acabou genericamente por pertencer pelas humanidades ao mundo do passado, que constitui um impedimento para a nova revolução industrial; Na verdade, o novo poder burguês precisa criar nos consumidores um espírito totalmente pragmático e hedonístico: um universo tecnicista e puramente terreno é onde pode acontecer naturalmente o ciclo de produção e consumo. Para a religião, e sobretudo para a Igreja, não há mais espaço. A luta repressiva que o novo capitalismo ainda está lutando através da Igreja é uma luta final destinada, na lógica burguesa, a ser vencida em breve com a consequente dissolução “natural” da Igreja.

Parece loucura, repito, mas o caso dos jeans “Jesus” é uma amostra de tudo isso. Aqueles que produziram e lançaram estes jeans no mercado utilizando prosaicamente um dos Dez Mandamentos via slogan, demonstram, provavelmente, uma certa falta de senso de culpa, isto é, a inconsciência daqueles que já nem pensam mais em certos problemas – estão além do limite do nosso modo de vida e do nosso horizonte mental. Há, no cinismo desse slogan, uma intensidade e uma inocência de tipo totalmente novo, embora provavelmente amadurecidas no passado pelo passar de muitas décadas (por um período mais curto na Itália). Este diz apenas, em seu laconismo fenomênico que atinge a nossa consciência de maneira completa e definitiva, que os novos técnicos e industriais são completamente laicos, mas de uma laicidade que já não é medida pela religião. Essa laicidade é um “novo” valor nascido da entropia burguesa na qual a religião definha enquanto forma de autoridade e poder que ainda sobrevive enquanto explorável produto natural de consumo e maciça forma folclorística.

Mas o interesse por esse slogan não é apenas negativo, não representa só uma nova forma na qual a Igreja é redimensionada brutalmente ao que ela realmente representa hoje: há nela também um interesse positivo, isto é, a possibilidade imprevista de ideologizar, portanto de tornar expressiva a linguagem do slogan, portanto presumivelmente a linguagem de todo o mundo tecnológico. O espírito blasfemo desse slogan não se limita a uma apostasia, a uma observação pura que engessa a expressividade dentro da comunicatividade pura. É algo mais que um achado inocente (cujo modelo é o anglo-saxão “Cristo super-star”): ao contrário, ele se presta a uma interpretação, coisa que só pode ser infinita: portanto, mantém no slogan aspectos ideológicos e estéticos característicos da expressividade. Significa – talvez – que até mesmo o futuro que para nós, religiosos e humanistas, aparenta engessamento e morte, será histórico num modo novo; que a necessidade de comunicação pura da produção será contradita de alguma maneira. Na verdade, o slogan desses jeans não se limita a comunicar a necessidade do consumo, mas mesmo se apresenta como a nêmesis – ainda que inconsciente – que pune a igreja por seu pacto com o diabo. O articulista do Osservatore dessa vez ficou indefeso e impotente de verdade: mesmo que talvez o judiciário e a policia, imediatamente postos em cristã função, arranquem das paredes da nação esses cartazes e slogans, ,já é um fato irreversível, embora talvez muito antecipado: seu espírito é o novo espírito da segunda revolução industrial e da consequente mutação de valores. 

***

Abaixo, a foto de Oliviero Toscani para a campanha publicitária a cargo de Michael Goettsche e Emanuele Pirella, que cunharam o slogan “quem me ama me segue”, impresso sobre a foto de Oliviero Toscani das nádegas da modelo Donna Jordan. Na verdade, a citação bíblica é “Se alguém quiser vir atrás de mim, negue a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”. (do Evangelho segundo Mateus, 16, 24; compare também Mc 8, 34, Lc 9, 23 e Jo 12, 26).

Reprodução: depop.com

(*) Qual é a revolução em que estamos agora? – No Corriere della Sera, com o título “O slogan louco de jeans de Jesus”, publicado em 17 de maio de 1973; em seguida, nos ensaios Scritti Corsari com o novo título de “Análise Linguística de um slogan”

(**) Para ver na edição original:
http://media2.corriere.it/corriere/pdf/2015/CORSERA_19730517_L_NAZ_NUL_02_00_A.pdf

(***)

Ver estes artigos e podcast para mais informações sobre Pasolini, por Paroni:

Palavra em Cena | Pasolini no Brasil

Papo com Paroni | Uma distopia real – Futebol do teatro

Palavra em Cena | Pasolini – poder, consumismo e arte





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