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Dramaturgo, dramaturg, dramaturgista

Publicado em: 24/10/2017

MAURÍCIO PARONI
Especial para a SP Escola de Teatro
Chá e Cadernos 100.4

 

São termos usados com imprecisão em generalizações de âmbito técnico; traduzo, portanto, duas definições exemplares dos autores e dramaturgistas italianos Renato Gabrielli e da Renata Molinari (*), ainda que especificamente ligadas aos teatros contemporâneos italiano e europeu.

O que é um dramaturg?

Esse termo alemão denomina uma figura profissional que desenvolve uma gama de funções muito ampla, diferentemente do nosso “dramaturgo” que, no senso comum, equivale ao “autor de textos teatrais”. O criador desse papel foi um grande reformador teatral, ativo na segunda metade do Século XVIII, Gotthold Ephraim Lessing (é fundamental a sua Dramaturgia de Hamburgo”). Mas o que significa, hoje em dia, ser um dramaturg – ou dramaturgista?

1. O “dramaturg de gabinete”

Consolidou-se, na estrutura de seus teatros estáveis municipais, graças a uma longa tradição da Alemanha e de outros países de língua alemã, a presença de um ou dois dramaturgs. Recordemos algumas de suas mansões: definir, junto à direção artística, a programação da temporada teatral; fazer a curadoria das relações do teatro com os autores; estabelecer profícuas coligações entre os autores e os encenadores; comunicar a linha cultural do teatro através de publicações, eventos e demais iniciativas promocionais; definir estratégias de relações com o publico e a imprensa; por fim, intervir diretamente na produção dos vários espetáculos provendo suporte critico ao encenador para a interpretação de cada texto. Poucos dramaturgs alemães são também autores; Portanto, é obvio que sobretudo nos grandes teatros tendam a especializarem-se e a cobrir somente uma ou duas das funções acima descritas. É um serio modelo de teatro publico de forte acento pedagógico que confia ao dramaturgo de gabinete um conjunto de incumbências ligadas à direção politico–cultural e  à gestão burocrática; incumbências que nos teatros públicos italianos são subdivididas entre diversas figuras profissionais: da seção de comunicação ao consultor literário, do promoter ao curador do arquivo histórico. Mesmo que tenha sido vangloriada por décadas e experimentada esporadicamente, uma real introdução desse tipo de dramaturg exigiria uma reforma radical do teatro italiano.

2. O “dramaturg de cena”

Diferentemente do de gabinete, o “dramaturg de cena” cobre uma função que, mesmo não coincidindo com a autorialidade pura, situa-se muito perto dela; em relação ao projeto de encenação e ás exigências praticas da companhia, desenvolve o tipo de trabalho dramatúrgico do qual nos ocupamos: da tradução à adaptação de textos preexistentes e à pesquisa de materiais bibliográficos, iconográficos ou de qualquer gênero que possibilite reflexão critica e criativa a quem trabalhe diretamente em cena. Em delicadíssimo equilíbrio com quem cura a encenação e com os atores, o dramaturg chega a explorar um campo bem mais amplo que a simples escritura teatral. Renata Molinari escreve a propósito com clareza exemplar: (2007, p. 16):

Quando se diz “dramaturgia do espaço”, “dramaturgia da luz”, “dramaturgia dos fatos”, alude-se a uma composição de elementos funcionais e estruturais em si,  que viram narrativos em seu tramar-se e podem, em certas ocasiões de cena, substituírem a narração por palavras e ações, e, narrativamente, integrando-a – não somente reforçando, enfatizando ou enquadrando: integram-na, portanto, levando a estória adiante. Um desenho arquitetônico preciso então permite não somente ler, mas também habitar a cena que ajudamos a construir.]

(**)

Para mais artigos sobre os autores e argumento assunto, basta acessar outros cadernos: 

http://www.spescoladeteatro.org.br/papo-com-paroni-um-grande-autor-contemporaneo-renato-gabrielli 

Papo com Paroni | Renata Molinari, Thierry Salmon e a Arena Dramática: influência I

Recomendo vivamente uma visita ao site do autor Renato Gabrielli, em italiano:  http://www.renatogabrielli.it/

(*) Renato Gabrielli – Autor teatral e roteirista cinematográfico de obra extensíssima, ensina e coordena o curso de escritura teatral na Escola de Arte Dramática “Paolo Grassi” em Milão – Ex Piccolo Teatro. Entre seus textos representados na Itália, Europa e Brasil: Cartas à Noiva, Moro e seu carrasco, encenado no Brasil por Gianni Ratto, ed. Vita e Pensiero, 1994), Giudici, Mobile Thriller, Três, A mulher que lê ed. Cue Press, 2015.

Renata Molinari – Escritora, dramaturg e professora universitária de fama internacional, seguiu como dramaturg o trabalho de Jerzy Grotowski e participou continuamente da carreira artística de Thierry Salmon assinando a dramaturgia de seus principais projetos; É colaboradora histórica da Ubulibri e, em particular, a edição do Patalogo; Colaborou com o Laboratório Il Teatr de Jerzy Grotowski 1959-1969 (Fundação Pontedera Teatro, 2001). Editou com Jean-Paul Manganaro a edição italiana de Succubi e Supplizi de Antonin Artaud. Adelphi, 200); Autores poloneses sobre Grotowski, Titivillus, 2005; Palavras para comer (O alfabeto urbano, Nápoles, 2005, publicou com o Centro Teatral de Friuli Venezia Giulia: linguagem materna, um laboratório, 2002; a vocação teatral – um laboratório no Mittelfest, o príncipe constante; com Claudio Meldolesi, de 2007, O trabalho do dramaturg, Ubulibri, Milão. Em 2008, Viagem ao Teatro Thierry Salmon. Através de Os demônios, de Dostoevskij, Ubulibri, Milão.

(**)Extraído de Scrivere per il teatro, Renato Gabrielli, Carocci, 2015, Reimpressão 2016, disponível no papel e no kindle.

http://www.carocci.it/index.php?option=com_carocci&task=schedalibro&Itemid=72&isbn=9788843076635

 

Renato Gabrielli

 

Renata Molinari




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