Praça Roosevelt Seduz Argentinos

A nova Praça Roosevelt: inauguração será amanhã (29)

3, 2, 1… Faltam menos de 24 horas para que a Praça Roosevelt seja reinaugurada, neste sábado (29), dando novos ares ao Centro de São Paulo. As obras tiveram um custo de R$ 55 milhões e incluíram a recuperação estrutural de uma área de 19 mil m².

A restauração começou em 2010, na tentativa de ajudar a revitalizar o local, que entrou em decadência em meados dos anos 90, depois de um período de glória. Assim, até o início do século 21 a região era conhecida como ponto de usuários de drogas e marginais. Com a reforma, a prefeitura quer livrar a imagem negativa que a praça tinha.Mas bem antes de as obras começarem, a praça conheceu seu primeiro sopro de revitalização com a chegada da companhia de teatro Os Satyros, que inaugurou sua sede ali em 2000. Depois do grupo, outros também resolveram se fixar nas redondezas, transformando o lugar em nicho teatral da capital paulista.Tamanha foi a contribuição da companhia de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, que o jornal argentino La Nacion dedicou um artigo inteiro à revitalização da Praça Roosevelt, não se esquecendo de dar crédito a seus pioneiros: Os Satyros.Clique aqui para ler o texto original. Abaixo, sua tradução para o português, assinada por Cibele Custódio:

“Um Modelo Paulista para iniciativa Portenha

Por Leonardo Tarifeño

Um exemplo podia ser São Paulo. Mais precisamente a Praça Roosevelt, localizada entre as Ruas Consolação e Augusta, no centro da megalópole brasileira. Projetada no final dos anos 60, como parte de um grande projeto cultural, a Roosevelt tornou-se o centro de disputas políticas e, por isso, nunca chegou a concretizar o sonho para o qual foi planejada. De fato, as idas e vindas orçamentárias, arquitetônicas e conceituais terminaram por desligá-la de sua função original, que, segundo Paulo Mendes da Rocha, então Presidente da sede Paulista do Instituto de Arquitetos do Brasil, apresentava um bom exemplo de tudo o que não poderia ter em uma praça. Pontes inacabadas, estruturas frágeis e um cimento sólido confirmavam a ideia de Mendes da Rocha e abriram a porta para uma maior degradação, refletida em um grande amontoado de tristeza e concreto.

No final dos anos 90, a Praça Roosevelt viveu sua época de declínio. O bairro, que antes havia sido o paraíso da boemia (o corredor que ía do Cine Bijou ao bar Djalma’s, onde Elis Regina fez seu primeiro show em São Paulo), transformou-se. As pontes abandonadas se tornaram refúgio perfeito para criminosos, traficantes de drogas e crianças de rua. Durante anos, a Roosevelt competiu com a Crackolândia, o lugar onde perambulam os viciados em crack e é conhecido como a zona mais violenta e perigosa da cidade. No início do século 21 chegaram os artistas do grupo Os Satyros, que se instalaram em um dos vários edifícios em frente à praça. Os Satyros transformaram o local em um teatro aberto, popular e vanguardista. Sua proposta foi tão ousada, que, aos poucos, os vizinhos começaram a sentir, novamente, um forte orgulho por viver em um bairro que era sinônimo de fracasso urbano. Boêmios e artistas de outros bairros apareciam na praça para ver o grupo. Uma dramaturga alemã escreveu uma peça sobre a vida cotidiana do bairro. O desfile da Parada Gay foi o ponto final de sua pesquisa. Pequenos e grandes empresários se entusiasmaram e começaram a investir nos arredores, com lojas especializadas, bares, livraria e eventos artísticos ligados ao teatro.

Além do teatro, Os Satyros abriu um bar na praça e passou a promover um grande evento artístico, chamado Satyrianas, em que os espectadores pagavam o que podiam para ver os espetáculos. Hoje, graças a essas ações pioneiras, a Praça Roosevelt se consagrou como um dos grandes pólos culturais da cidade. São Paulo recuperou o foco de atividade econômica e os vizinhos sentem que a rua se tornou um patrimônio e que de nenhuma maneira deve ser abandonada nas mãos preguiçosas de políticos ou da marginalidade social.

Talvez o exemplo da Praça Roosevelt sirva como um espelho para a iniciativa que propõe instalar bares e serviços nas praças Portenhas. O espaço público é um lugar de convivência, que se ganha através do compartilhamento. O bairro é o lar, a extensão comunitária da casa e essa paisagem da praça funciona como um cenário de formação e encontro, que nenhuma cidade pode se dar ao luxo de desprezar.

No caso de Buenos Aires, a metamorfose que vai da praça (para o qual ela circula) ao cenário democrático (que vive) fica por conta dos representantes da classe política. O tempo dirá se eles estarão à altura de viver a experiência artística que fez história em São Paulo.”

 

* Texto publicado em 28 de setembro (http://www.spescoladeteatro.org.br/noticias/ver.php?id=2429)

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