A Escola Vai à Bolívia

Francisco Medeiros e Joaquim Gama

Mais dois representantes da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco estão de malas prontas para a Bolívia. Depois da viagem dos aprendizes Érik Moura e Nadia Verdun, que desembarcaram lá em julho, agora será a vez de Joaquim Gama e Francisco Medeiros – respectivamente, coordenador pedagógico e coordenador do curso de Atuação da Escola – marcar presença no país.

A missão deles em terra estrangeira será a de acompanhar o trabalho feito pela Escuela Nacional de Teatro (ENT), que fica em Santa Cruz de la Sierra, onde os dois aprendizes estão, graças a um intercâmbio artístico entre a SP Escola de Teatro e a escola boliviana.

Além disso, Gama e Medeiros têm um encontro marcado com o dramaturgo, diretor e novelista Marcos Malavia, que é fundador da instituição boliviana. Ele virá ao Brasil na semana que vem para ministrar, na próxima quinta-feira (13), o workshop “Introdução à Biodinâmica”, promovido pelo setor de Extensão Cultural da SP Escola de Teatro. Junto com Malavia, um aluno da ENT, Antonio Peredo Gonzales, vem para estudar na Escola, cumprindo a outra parte do intercâmbio.

“Vamos assistir a um espetáculo montado pelos alunos da escola (do qual Érik e Nadia estão participando) e conversar com o fundador Marcos Malavia sobre outras possibilidades de troca que possam surgir a partir de agora”, comenta Gama.

 

Conexão Brás – Santa Cruz de la Sierra

No dia 16 de julho, Érik Moura e Nadia Verdum, aprendizes do curso de Atuação, embarcaram para a Bolívia para estudar na Escuela Nacional de Teatro.

Para documentar essa experiência e compartilhar com aqueles que não tiveram a chance de conhecer o país, foi criado o blog “Conexão Brás – Santa Cruz de la Sierra”. O endereço virtual é frequentemente atualizado pelos aprendizes, com muitas curiosidades. Vale a visita! Para acessar o diário de bordo, clique aqui.

 

* Notícia publicada em 06/09/2012 (http://spescoladeteatro.org.br/noticias/ver.php?id=2384)

The school goes to Bolivia

Francisco Medeiros e Joaquim Gama

Two more representatives of the SP Drama School – Training Centre for the Performing Arts are packed to go to Bolivia. After the trip of students Érik Moura and Nadia Verdun, who disembarked in July, now it’s Joaquim Gama and Francisco Medeiros’s turn – the pedagogical coordinator and coordinator of the School’s Acting course – to make their presence felt in the country.

Their mission abroad will be to follow the work done by the Escuela Nacional de Teatro (ENT), located in Santa Cruz de la Sierra, where the two students are staying thanks to an artistic exchange program between SP Drama School and the Bolivian school.

Besides, Gama and Medeiros have an appointment with playwright, director and novelist Marcos Malavia, founder of the Bolivian institution. He will be coming to Brazil next week to teach, on Thursday (13), the workshop “Introduction to Biodynamics”, promoted by SP Drama School’s Cultural Extension section. Along with Malavia, an ENT student, Antonio Peredo Gonzales, is coming to study at the school, fulfilling the other half of the program.

“We are going to watch the show put on by the school’s students (which will have Erik and Nadia’s participation) and talk to the founder Marcos Malavia about other exchange possibilities that may pop up from now on,” comments Gama.

 

Bras – Santa Cruz de la Sierra Connection

On July 16, Érik Moura and Nadia Verdum, students of the Acting course, left for Bolivia to study at the Escuela Nacional de Teatro.

In order to document this experience and share it with those who didn’t have the chance to visit the country, we have created the blog “Conexão Brás – Santa Cruz de la Sierra”. The site is often updated by the students with a number of interesting facts. It’s worth the visit! To enter the travel log, click here.

Sonoplastia com Pimenta

John Cage, tido como um dos principais compositores do século 20, completaria cem anos, se vivo estivesse, em 5 de setembro. Para homenageá-lo, várias celebrações estão sendo feitas ao redor do mundo. Um dos que participam ativamente delas é o músico, arquiteto e artista multimídia brasileiro Emanuel Pimenta, que vive entre a Suíça e Nova York.

Pimenta estava de passagem pelo Brasil, quando Raul Teixeira e Wilson Sukorski, respectivamente coordenador e artista convidado do curso de Sonoplastia da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, que o conhecem de longa data, aproveitaram para fazer um convite antes que ele voltasse para a Europa: o de ministrar uma aula aos aprendizes.

E assim foi. Durante a tarde de ontem (29), os aprendizes tiveram contato com o artista, que visitou a Escola pela primeira vez. Por cerca de três horas, Pimenta falou, especialmente, sobre Cage, sua relação com ele e sobre sua própria produção artística. Mas a conversa foi muito além de tópicos: apresentou conceitos de música, filosofia, arte, cultura e tecnologia, entre várias histórias curiosas.

O americano John Cage foi pioneiro da música aleatória e da música eletroacústica, e ainda exerceu influência sobre a dança, graças à sua parceria com o coreógrafo Merce Cunningham. Pimenta colaborou com Cage durante seus últimos sete anos de vida. “O principal objetivo de Cage e Cunningham era quebrar a prisão cultural em que vivemos. Estamos inseridos em um sistema ultra-repressor, nesse sentido”, comentou o convidado.

Depois de mostrar obras de Cage, o artista exibiu algumas das partituras de sua própria autoria, ressaltando que, no início dos anos 1980, ele mesmo teria sido o responsável pelo conceito “arquitetura virtual”, que hoje é utilizado como disciplina específica em universidades do mundo inteiro. “Design sensorial” e “nanodecisões” são outros dos conceitos criados por ele.

Sukorski, que já conhece o convidado há quase 40 anos, destaca a importância de um encontro dessa natureza: “É o que chamamos de fonte de pesquisa primária, uma pessoa falando sobre ela mesma. Ele tem uma importância histórica para o Brasil, como compositor e agitador cultural, e está há uns 20 ou 25 anos no topo da música contemporânea”.

O artista residente de Sonoplastia, Rodolfo Valente, concorda e diz que “é importante que o curso esteja conectado com a produção atual de música contemporânea”.

Ao final da aula, Raul Teixeira não poupou elogios a Pimenta e fez questão de agradecer pela oportunidade. “Fiquei encantado pela dimensão humana de um artista como ele e pela possibilidade de a Escola receber nomes como esse. É um cara ligado à alta tecnologia e antenado com o que há de mais moderno no mundo. A forma como ele se coloca à disposição para compartilhar um conhecimento tão extenso demonstra sua generosidade”, finaliza.

Como produto das comemorações do centenário de Cage, também existe a possibilidade de lançamento de um livro, em 2013, organizado por Pimenta. Como todos os seus outros livros mais recentes, deverá ser vendido pelo site Amazon, a preço de custo.

 

O artista

Emanuel Pimenta colaborou com John Cage nos seus últimos sete anos de vida, como compositor, e também como compositor para Merce Cunningham, durante cerca de 25 anos, em Nova York, até sua morte.

Vive entre Locarno, Suíça, e Nova York. Há cerca de 27 anos, mudou-se para a Europa. Fez mais de 600 concertos em todo o mundo, com a sua música, junto com John Cage, Merce Cunningham, David Tudor e Takehisa Kosugi. Publicou mais de 50 livros e gravou também mais de 50 CD’s.

Para conferir todo o trabalho do artista, acesse seu site oficial, aqui.

Sound Design With Pimenta

John Cage, celebrated as one of the most important composers of the 20th century, would be 100 years old, if he were alive, on September 5th. Around the world, a number of celebrations will pay tribute to him. A person actively involved in them is the Brazilian musician, architect and multimedia artist Emanuel Pimenta, who lives between Switzerland and New York.

Pimenta, whose name means spicy, was passing through Brazil, when Raul Teixeira and Wilson Sukorski, coordinator and guest artist of the Sound Design course of the SP Drama School – Training Centre for the Performing Arts, who have known him for a long time, took the opportunity to make an invitation before he got back to Europe: to teach a class to the students.

And that’s how it went. The students spent the afternoon yesterday (29) with the artist, who was visiting the School for the first time. For about three hours, Pimenta talked, mostly about Cage, his relationship with the composer and about his own artistic production. The conversation, however, went well beyond the topics of discussion: while telling many fascinating stories, Pimenta presented concepts of music, philosophy, art, culture and technology.

The American John Cage was a pioneer in aleatory and electroacoustic music, and also influenced dance, thanks to his partnership with choreographer Merce Cunningham. Pimenta collaborated with Cage during the seven last years of his life. “Cage and Cunningham’s main goal was to break open the cultural prison in which we live. We are inserted in an ultra-repressive system in that sense”, commented the guest.

After showing Cage’s work, the artist exhibited a few musical scores of his own, remembering that, early in the 1980’s, he had been responsible for the concept of “virtual architecture”, which today is used as a specific subject at universities around the world. “Sense design” and “nanodecisions” are other concepts also developed by him.

Sukorski, who has known him for almost 40 years, highlights the importance of such a meeting: “This is what we call primary research source – a person talking about himself. Pimenta has great historical importance to Brazil, both as composer and as cultural agitator. For 20 or 25 years he has been on top of contemporary music.”

The sound design resident artist, Rodolfo Valente, agrees and says that “the course must be connected to the present production of contemporary music”.

At the end of class, Raul Teixeira was all compliments to Pimenta and made a point of thanking him for the opportunity. “I was delighted by the human dimension present in such an artist, and by the fact that the School can receive a name of his stature. He is connected to high technology and to what’s most modern in the world. The way he makes himself available to share such extensive knowledge demonstrates his generosity,” he adds.

A possible product of the celebrations of Cage’s 100th birthday is the 2013 launch of a book organized by Pimenta. Like all his latest books, this one should be sold through the Amazon website at cost price.

 

The artist

Emanuel Pimenta collaborated with John Cage in the last seven years of the composer’s life, and also as composer for Merce Cunningham for 25 years in New York, until Cunningham died.

He lives in Locarno, Switzerland, and in New York. He moved to Europe 27 years ago and gives over 600 concerts around the world, displaying his music, along with John Cage’s, Merce Cunningham’s, David Tudor’s and Takehisa Kosugi’s. He has published over 50 books and recorded more than 50 CD’s.

If you want to check the artist’s work, enter his official website, here.

As Crianças de François Kahn

Sob a perspectiva fragmentada de uma personagem infantil, os aprendizes de Atuação do Módulo Amarelo abriram sua sala de trabalho na Sede Roosevelt da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, na manhã do dia 25 de agosto. Debruçados sobre o texto “Crianças na Rua Principal”, de Franz Kafka, e dirigidos por François Kahn, mostraram o resultado das duas semanas de aulas sob orientação do ator e dramaturgo francês.

Conforme disse Ivam Cabral, diretor executivo da Escola, quando Khan chegou à Instituição, “uma das principais qualidades do trabalho dele está em conseguir harmonizar, com perfeição, o físico com o texto”. E assim aconteceu. Dividindo a turma em dois grupos, Kahn trabalhou exercícios de memorização que se dividiam em uma “lição de casa” e atividades em sala de aula, que ligavam a sincronização física do corpo com a mente e, como o método para lembrar todo o texto foi reescrevê-lo diversas vezes, os aprendizes também tiveram de lidar com a impressão da palavra escrita contra a sensação da fala unida à ação, o que a aprendiz Bruna Paula de Moraes definiu, dizendo: “Foi um grande desafio e ia crescendo conforme nos familiarizávamos com o texto”. Cristiano Alfer, outro aprendiz que participou do trabalho, observou que “a ordem, a narração e o jogo físico, ao mesmo tempo, exigem muita concentração”.

Aprendizes do Módulo Amarelo em "Crianças na Rua Principal" (Foto: Hélio Dusk)

Por meio de um sorteio no início de cada cena, Kahn acabou por não deixar que cada aprendiz tivesse falas fixas. Eles se baseavam na criança que quisessem e, com o texto na ponta da língua, pegavam as falas que eram sorteadas. Com a companhia de Verônica Veloso e Francisco Medeiros, Kahn quis mostrar, segundo suas próprias palavras, que “é possível trabalhar texto e ação separadamente e, depois, uni-los”. “Quis eliminar todos os ‘lugares comuns’ sobre crianças que os aprendizes pudessem ter. Dei liberdade aos atores e só fui moldando ao longo do trabalho”, explica.
Para Lauanda Portela Varone, “o estado de atenção, tanto físico quanto mental, para a memorização do texto exigiram uma concentração maior e uma postura mais séria”, o que Nayara Tosin Rocha define como “a busca da simplicidade, do silêncio, da fuga do comum e da tentativa de dar a energia certa e pontual, a intenção de cada palavra”.

No geral, os métodos de memorização e a união do físico com o texto foram os pontos altos do trabalho, segundo os próprios aprendizes, e a participação de Khan em sua formação parece representar algo mais do que só mais um trabalho.

Da criança que cada um representou, porém, experiências também foram tiradas. Em uma conversa após a abertura de sala para o trabalho, cada aprendiz relatou suas sensações e uma discussão se abriu acerca do texto narrado fragmentadamente por uma personagem ainda criança, que contava sua história.

Nayara Tosin Rocha e Stella Maris Kraft Figueiredo (Foto: Hélio Dusk)

“Depois os pássaros ergueram voo como se fossem um chuvisco, eu os acompanhei com o olhar, vi como subiram num fôlego até não acreditar mais que eles subiam, mas sim que eu estava caindo e, segurando firme nas cordas, comecei a balançar um pouco, de fraqueza. Em breve balançava mais forte quando o sopro de ar ficou mais fresco e em lugar dos pássaros em voo apareceram as estrelas trêmulas”. (Trecho extraído do texto “Crianças na Rua Principal”, de Franz Kafka)

François Kahn’s Children

From the fragmented perspective of a child character, the acting students of the Yellow Module have opened the doors to their work room at the Roosevelt headquarters of the SP Drama School – Training Centre for the Performing Arts, on 25 august. Leaning over the text “Children on Main Street”, by Franz Kafka, and directed by François Kahn, the students have shown the results of two weeks of classes guided by the French actor and playwright.

As said Ivam Cabral, the School’s executive director, when Khan came to the Institution, “one of the key qualities of his work is in perfectly harmonizing the physical with the text.” And so it happened. Splitting the group into two, Kahn worked memorization exercises – part homework and part class activity – which proposed a physical synchronization of the body and the mind and, as the method to remember the whole text was to rewrite it several times, the students also had to deal with the impression of the written word against the sensation of speech linked to action, which student Bruna Paula de Moraes defined as: “It was a great challenge, which grew as we got more familiar with the text.” Cristiano Alfer, another participating student, observed that “the order, the narration and the physical game, all together, require great concentration.”

Yellow Module Students in “Children on Main Street " (Photo: Hélio Dusk)

By randomly distributing lines at the beginning of each scene, Kahn didn’t let the students have fixed lines. They based themselves on the child they wanted and, with the text on the tip of their tongues, they got the lines that were drawn by chance. In the company of Verônica Veloso and Francisco Medeiros, Kahn wanted to show that, in his own words, “one can work the text and the action separately and, later, join them.” “I wanted to eliminate all ‘common places’ on children that the students might have. I gave the actors freedom and all I did was shape them along the work,” he explains.

To Lauanda Portela Varone, “the state of alertness, both physical and mental, necessary for memorization, demanded greater concentration and a more serious posture,” which Nayara Tosin Rocha defines as “the search for simplicity, silence, escape from the ordinary and the attempt to give the right and precise energy, the intention of every word.”

Overall, the memorization methods and the union of the physical with the text were the highlights of the work, according to the students themselves, and Khan’s participation in their education seems to have been more than just another day’s work.

From the child that each of them played, however, they drew many experiences. Chatting after the opening of the work, each student narrated their sensations, which started a discussion about the text narrated fragmentally by a child character telling his story.

 

Nayara Tosin Rocha and Stella Maris Kraft Figueiredo (Photo: Hélio Dusk)

“After the birds took flight like light rain, I followed them with my gaze. I saw them coming up in one breath until I no longer thought they were coming up, but that I was falling down and, holding on to the ropes, I started to sway, briefly, weakly. Soon I was swinging faster when the breath of air became fresher and, where the flying birds had been, there appeared many shimmering stars.” (Excerpt from the text “Children on Main Street”, by Franz Kafka)

O Ator Narrador e o Teatro de Câmara

“É com imensa alegria que eu vejo, juntos, dois grandes nomes do teatro contemporâneo, a brasileira Maria Thais e o francês François Kahn. É uma honra tê-los aqui nesta noite.” Foram essas as palavras escolhidas por Francisco Medeiros, coordenador do curso de Atuação da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, para abrir a Mesa de Discussão que aconteceu na noite de 13 de agosto, na Sede Roosevelt da Instituição.

Norteado pelo tema ”O Ator Narrador e o Teatro de Câmara”, o encontro reuniu uma plateia de mais de 50 pessoas, para ouvir François Kahn falar sobre sua experiência a respeito do assunto proposto. E olha que ele tem o que dizer… Desde a década de 90, o ator faz, na Itália, o que chama de Teatro de Câmara, no qual se apresenta em casas de pessoas que o contratam para encenar textos clássicos de autores como Proust e Kafka. O detalhe é que François faz sozinho todo o espetáculo: desde a produção até a iluminação, passando por figurino e elementos de cena. “Viajo de trem e chego sozinho à casa da pessoa, com uma única maleta na mão, o que passa uma sensação de alguém desprotegido, pronto para ser acolhido pelo anfitrião”, conta.

Ele ainda pontua algumas “regras” que, segundo ele, devem existir no Teatro de Câmara: “De maneira alguma o espectador deve ser forçado a perceber algo da cena. Não deve existir mentira nem manipulação entre o ator/narrador e a plateia. Ele não deve tocar no público, fazer com que ele tome parte da cena de modo autoritário; seu olhar deve fluir, sem se fixar em um único elemento na plateia. Isso pode constranger quem esta assistindo à apresentação. Também gosto de iluminar o público, com uma luz fraca, para ver e ser visto por ele”, pontua o francês.

Ser sozinho no palco foi a maneira que François Kahn encontrou para manter seu trabalho de pesquisa sem ruptura, o que acabava acontecendo no final da década de 80 e início da década de 90, quando uma crise econômica séria passou a afetar as companhia de teatro da Polônia, onde ele estudava com Jerzy Grotowski, em seu Teatro Laboratório.

Aliás, foi com o mestre polonês que ele enveredou pelo experimento Teatro das Fontes, que deu a base para o desenvolvimento de seu Teatro de Câmara. E histórias engraçadas não faltam a Kahn que, em sua experiência de levar o teatro a algumas casas, chegou a ver alguns de seus espectadores mais idosos dormirem enquanto ele atuava. “Mas Grotowski sempre dizia que não há mal algum em a plateia dormir durante o espetáculo. Nesse instante, o que o ator tem de fazer é simplesmente diminuir o tom de sua voz para não atrapalhar a soneca do público”, disse ele, arrancando risos dos ouvintes da palestra.

Francisco Medeiros apresenta os convidados da Mesa de Discussão: a brasileira Maria Thais e o francês François Khan

“Costumo dizer que o teatro de representação entrega para o público tudo pronto, até o sentido da história. Na narrativa, não. Ela alarga a possibilidade de extensão do teatro e a imaginação do narrador. O espectador também é autor”, observou a professora, pesquisadora e diretora teatral Maria Thaís.

Depois da explanação de Kahn e Maria Thaís, foi a fez de a plateia fazer perguntas aos participantes da Mesa. O primeiro foi Cristiano Alfer, aprendiz do curso de Atuação, Módulo Amarelo, da SP Escola de Teatro. Ele queria saber como se dá esse teatro nas casas, feito por François Kahn, e qual o caminho para desenvolver esse tipo de trabalho? “De início, foi tudo feito de modo ‘clandestino’, com divulgação apenas via e-mail. Depois, aconteceu o que se chama de ‘boca a boca’ e, a partir daí, criei uma rede grande e fiel de público”, contou Kahn.

François em cena
Para quem quer ter uma ideia do tipo de trabalho desenvolvido pelo francês, fica o convite: dias 27 de agosto e 3 de setembro, ele apresenta o monólogo “Moloch”, na Sede Roosevelt da SP Escola de Teatro, a partir das 20h, com entrada franca. A peça foi produzida a partir de notas sobre o julgamento em que Allen Ginsberg (poeta americano da geração beat) foi testemunha de defesa, num processo político dos Estados Unidos de 1969. Mas, no domingo, 26 de agosto, às 18h, ele vai apresentar o monólogo na casa onde está hospedado, aqui em São Paulo, nos moldes do trabalho que desenvolve na Itália. Ingressos a R$ 25. Lugares limitados. O endereço é: Centro Iyengar Yoga São Paulo (Rua São Gall, 488, Lapa, tel. 3862-0158).

The Storyteller Actor and Chamber Theatre

“It is with great joy that I see two leading names of contemporary theater together: Maria Thais, from Brazil, and François Kahn, from France. It is an honor to have them here tonight.” With these words, Francisco Medeiros, coordinator of the acting course of the SP Theatre School – Training Centre for the Performing Arts, opened the round table held 13 august at the Institution’s Roosevelt headquarters.

Guided by the theme “The Storyteller Actor and Chamber Theatre,” the meeting assembled an audience of more than 50 people to listen to François Kahn speak about his experiences on the subject. Here are a few samples of what he had to say: since the 1990s, in Italy, the actor has practiced that which he calls Chamber Theatre, presenting himself in the homes of people who hire him to stage classic texts by authors such as Proust and Kafka. François performs the entire show by himself: from the production to the lighting design, including costumes and props. “I travel by train and arrive alone at the person’s home carrying a single suitcase, giving the idea that I am unprotected, ready to be welcomed by the host,” he says.

He also points out a few “rules” which, he feels, should be part of Chamber Theatre: “the spectator shouldn’t in any way be forced to become aware of anything in the scene. There must be no manipulation or lying between the actor/narrator and the audience. The actor must not physically touch the public or make them a part of the scene in an authoritarian manner, his gaze should flow without settling on any single member of the audience, as that might intimidate those watching the presentation. I also like to use dim lights on the audience, so I can see and be seen by them,” sates the French artist.

To be alone on the stage is the way François Kahn has found to keep his research going without interruptions, as happened in the late 80s and early 90s, when a severe economic crisis impacted theater companies in Poland, where he was studying under Jerzy Grotowski in his Laboratory Theatre.

As a matter of fact, it was while working with the Polish master that he embarked on the experiment Theatre of Sources, which was the basis for the development of his Chamber Theatre. Kahn doesn’t go short of amusing anecdotes. In the experience of bringing theater to people’s homes, he has seen some of his elderly audience members fall asleep during the presentation. “Grotowski always said that there is no harm in audience members falling asleep during a play. When that happens, all you have to do is lower the tone of your voice and not disturb the public’s nap,” he said, making the lecture audience laugh.

 

Francisco Medeiros presents Thais Maria and Fançois Khan

 

“I often say that theater of representation delivers to the public everything chewed up, even the meaning of the story. In narrative theatre, that doesn’t happen. It expands the possibility of extension in the theater and the narrator’s imagination. The audience is also an author,” said the teacher, researcher and theater director Maria Thais.

After Kahn’s and Maria Thaís’s explanation, it was the audience’s turn to ask questions to the Round Table participants. The first to ask was Cristiano Alfer, acting student of the Yellow Module of SP Theatre School. He wanted to know how François Kahn’s at-home theater works and how one can one develop this kind of work. “At first the initiative was sort of ‘underground’, with e-mail communication only. Then came the so-called ‘word of mouth’ and, from there, I built a large and loyal audience network,” said Kahn.

François on the scene
For those who want to have a better idea of the type of work developed by the French actor, here is the invitation: on August 27th and September 3rd, he will present the monologue “Moloch” at the Roosevelt headquarters of SP Theatre School, starting at 8pm, free admission. The play was produced from the notes on the political trial in which Allen Ginsberg (American poet of the Beat Generation) was a defense witness in the United States, in 1969. But on Sunday, August 26th at 6pm, he will present the monologue in the house where he is staying, here in São Paulo, along the lines of his work in Italy. Tickets are R$ 25. Limited seats. The address is: Iyengar Yoga Center São Paulo (Rua São Gall, 488, Lapa, tel. 3862-0158).

O Papel do Dramaturg

Com casa lotada – mais de 70 pessoas na plateia -, o dramaturgista, tradutor e professor alemão Henry Thorau participou da Mesa de Discussão “Funções do Dramaturg no Teatro Contemporâneo”. O encontro também teve como convidado Antonio Gilberto, sob mediação de Evill Rebouças, na Sede Roosevelt da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, no dia 9 de agosto.

Atualmente professor titular na Universidade de Trier, em Berlim, Thorau ainda é o orientador do curso de Extensão Cultural “O Que É Ser um Dramaturg e Seu Papel na Encenação do Texto”, também ministrado na sede Roosevelt da Instituição. Durante o debate, que durou três horas e lançou luz sobre o papel do dramaturgista no fazer teatral, o alemão foi enfático: “O dramaturgista (dramaturg, em alemão) não deve ficar restrito à produção do texto. Ele é uma espécie de ‘engenheiro’ da montagem teatral, o crítico interno da encenação”.

Antonio Gilberto, Henry Thorau e Evill Rebouças (Foto: Arquivo SP Escola de Teatro)

A partir daí, Thorau citou exemplos de montagens alemãs, cujo papel do dramaturgista foi fundamental em sua concepção. “Na Alemanha, por exemplo, no auge do feminismo, na década de 60, eu me lembro de uma adaptação de ‘Macbeth’, feita com um elenco só de mulheres. Havia até cenas lésbicas’, lembra.

E no Brasil? Qual o papel do dramaturgista? “No País, ainda é pequeno. Mas eu posso dizer que ele é verdadeiramente importante. Numa montagem também de ‘Macbeth’, aqui no Brasil, com direção do Ulysses Cruz e estrelada pelo Stênio Garcia, eu presenciei o quanto foi importante o papel desempenhado pela dramaturgista Valderez Cardoso Gomes. Ela contribuiu de maneira fundamental para enriquecer a montagem”, ressaltou Evill Rebouças.

Logo depois da explanação dos debatedores, o encontro foi aberto para perguntas feitas pela plateia. Uma delas veio do Aprendiz João de Freitas, do Curso de Dramaturgia da SP Escola de Teatro. Ele queria saber se, como no Brasil, na Alemanha, o conceito de dramaturgia é tão abrangente, englobando definições como as de ator, autor, peça e se, também por lá, há um curso específico para dramaturgista. Thorau explicou que, na Alemanha, os conceitos são mais pontuais e que, sim, há cursos para a formação de dramaturgistas. “Eles existem na Universidade das Artes, em Berlim, onde há uma cadeira só para dramaturgistas, aliás, muito concorrida, na relação candidato/vaga de 400/10. Há ainda cursos em Hamburgo, Munique”, encerrou Thorau.

The Role of the Dramaturg

With a packed house of more than 70 people – the German dramaturgist, translator and professor Henry Thorau attended the Round Table “Functions of the Dramaturg in Contemporary Theatre”. The meeting also invited Antonio Gilberto, under the mediation of Evill Rebouças, at the Roosevelt Headquarters of SP Theatre School – Training Centre for the Performing Arts, on 9 august.

Currently a professor at the University of Trier, in Berlin, Thorau is also the counselor for the course on Cultural Extension “What it is to be a Dramaturg and his Role in Staging the Text,” also taught at the Roosevelt headquarters of the Institution. During the debate, which went on for three hours and shed light on the role of the dramaturgist in the theater, the German author was emphatic: “The dramaturgist (dramaturg in German) should not be restricted to the production of the text. He is a kind of ‘engineer’ of the stage production, the inner critic of the staging.”

Antonio Gilberto, Henry Thorau and Evill Rebouças

Thorau brought some examples of German productions, where the dramaturgist was a key part of the conception. “In Germany, for example, at the height of feminism in the 60s, I remember an adaptation of ‘Macbeth’ with an all-female cast. There were even lesbian scenes,” he recalls.

How about Brazil? What is the role of the dramaturgist in our country? “Here, he still has a small role. But I can say that it is a truly important one. In another production of ‘Macbeth’, here in Brazil, under the direction of Ulysses Cruz, starring Stênio Garcia, I witnessed the importance of the role played by dramaturgist Valderez Cardoso Gomes. She contributed in a fundamental way to enrich the production,” said Evill Rebouças.

Soon after the explanation of the debaters, the meeting was opened to questions from the audience. One came from João de Freitas, playwriting student at SP Theatre School. He wanted to know if, in Germany, the concept of dramaturgy is as comprehensive as it is in Brazil, encompassing the definitions of actor, writer, play, and if in his country, there is a specific course for dramaturgists. Thorau explained that, in Germany, the concepts are more specific and, yes, there are courses to train dramaturgists. “They are offered at the University of the Arts in Berlin, where they have an exclusive department for dramaturgists, which is, indeed, very busy: there are 400 candidates per opening. There are also courses in Hamburg and Munich,” Thorau finished.