DE: ALBERTO GUZIK

1. A dor de um amigo
Não consigo ajudar o amigo querido que está deprimido ao meu lado. Percebo seu crescente desencanto. “É da vida, isso passa”, diz ele. Mas em seus olhos luminosos tenho percebido menos luz nas últimas semanas. Em lugar da vibração, há uma melancolia que não pode disfarçar. Imagino o que o aflige, mas não falamos sobre isso. Uma certa distância se estabeleceu entre nós por conta dessa fase (que seja só isso, for God’s sake) de dor de viver do meu amigo. Uma distância que nenhum de nós consegue transpor com facilidade, pois somos dois tímidos que se mascaram de clowns para poderem viver a vida. Eu fico sem graça de não poder fazer nada. Me sinto meio que impotente. Amo esse meu amigo, sei que ele me ama, mas na hora da necessidade do outro a gente pode fazer tão pouca coisa. Quanto mais vivo mais inerme me sinto. Lutamos tanto pra fazer uma diferença, pra mudar as coisas. Mas a simples melancolia de um amigo me faz perceber quão pequeno é meu querer, meu poder. Isso incomoda. Machuca. Por dentro.

2. Medo
Com quantas frustrações temos de conviver todos os dias? Com quantas derrotas e injustiças? Eu tenho medo da mesquinharia que causa a infelicidade, da obtusidade que dificulta caminhos, da estupidez que tenta cimentar idéias. Eu tenho medo das forças negativas que toda ação positiva desencadeiam. E não adianta ter medo. Ele não leva a nada. É preciso agir, por mais que a ação possa ser uma fonte de dor. Estou muito triste. Mas haverei de contornar também esta fase. Se bem lembro, termino "Risco de Vida" com esta frase: "A vida é um exercício de medo. E de superação do medo. Fazer o quê?"

3. DIA DO TEATRO                                                                                                                                 

hOJE É O dIA mUNDIAL DO tEATRO. cOMO O MUNDO SERIA MAIS TRISTE, MAIS INFELIZ E MAIS FEIO AINDA SEM ELE! sEM éSQUILO, SEM sHAKESPEARE, SEM cACILDA, SEM zÉ cELSO, SEM OS sATYROS, OS pARLAPATÕES, SEM pETER bROOK, SEM yOSHI oIDA, SEM sTREHLER, SEM aNTUNES, SEM OS cRÍTICOS, AS PREMIAÇÕES, AS JUSTIÇAS, AS INJUSTIÇAS. dISSE sHAKESPEARE QUE O TEATRO É O ESPELHO DA NATUREZA QUE MOSTRA À VIRTUDE E AO VÍCIO SUAS VERDADEIRAS FACES. nÃO PODEMOS VIVER SEM ESSAS IMAGENS QUE NOS GUIAM, NOS ENSINAM, NOS FAZEM PENSAR. nOS FAZEM QUERER SER MELHORES DO QUE SOMOS. sEM TEATRO EU NÃO EXISTIRIA.
  

4. DRAMATURGO
Leitura de "Na Noite da Praça"

Queria ter escrito sobre isso há alguns dias, mas estava deixando a impressão maturar em mim. Na última quinta, Valcazaras organizou uma leitura de “Na Noite da Praça” em sua casa, e me chamou para ouvir. Esse é um momento muito curioso. Aquele em que o escritor percebe que em definitivo agora sua obra saiu de seu controle, está entregue a uma equipe que vai criar a partir dela. Dramaturgo que quer controlar a montagem do que escreve produz e dirige o próprio texto. Não é o meu caso. Esse tipo de dramaturgo nunca fica sabendo de que maneira sua obra inspira os outros, que tipo de leitura ela propicia. Valcazaras, um diretor que eu admiro, está com umas idéias muito loucas pra fazer “Na Noite da Praça”. Falou sobre elas por alto, mas gostei de ouvir que ele quer um palco não italiano, está pensando em uma área de representação em formato de corredor.

Acredito que pode dar muito certo. Da leitura participaram Álvaro Franco (Eloy), Ricardo Corrêa (Leo), Rodrigo Fregnan (Moura) e Marília de Sanctis (Isolina). A paixão com que eles mergulharam nas personagens me deu a certeza de que, com Valcazaras, vão construir alguma coisa de muito bacana com minha história e minhas personagens, que já não são mais minhas, mas deles também. A precisão do Valcazaras como diretor é acima de dúvidas. E fiquei impressionado com a maneira pela qual essas personagens mexeram com a sensibilidade dos atores em uma leitura totalmente incipiente. Muita coisa boa já estava apontada ali, caminhos criativos, inteligentes. Mas por certo Valcazaras vai fazer com que esse processo chegue muito mais longe ainda. Sai da leitura feliz. E subi a Consolação de ônibus, observando no breve trajeto a maneira apaixonada pela qual uns rappers adolescentes falavam de mulheres e das músicas que queriam cantar para elas. Muito incríveis são os seres humanos quando mergulham no caminho da arte.

5. DOMINGO...
E outras coisas
Domingo é dia de almoçar com mãe. Um dia curioso. O almoço rola mais cedo. Em meus dias de horários estapafúrdios, almoço sempre depois das duas ou das três da tarde. E como o almoço sai mais cedo aos domingos, a tarde dura mais. Domingo era um dia que pesava em minha vida. Um dia de interrupção no caminho. Um dia de depressiva programação na tevê, de cinemas e pizzarias cheias de gente que não quer que chegue a segunda-feira. Não gosto dos ícones de domingo. Não gosto do Pedro Bial, não gosto do "Fantástico", não gosto do BBB! Para mim tudo isso tem a cara do domingo tristonho de que as pessoas não conseguem escapar. Hoje chove. Continuo a ler Garcia-Roza. O cara é muito bom. Por que demorei tanto pra descobrir? E meu próximo é "Milênio", do catalão de Barcelona chamado Vázquez Montalbán. Sou fã do cara desde que li "O Labirinto Grego", uns dez anos atrás. E acho que seu "Quinteto de Buenos Aires" é um dos melhores romances da década de 90.

O que mudou a cara dos meus domingos foi meu retorno aos palcos. O fato de ter espetáculo à noite dá uma outra cara para esse dia pasmacento. Agora os domingos pesam muito menos. E é tão energizante fazer teatro! Ontem o espetáculo foi lindo. "Inocência" está a cada dia melhor. Um trabalho delicioso de se participar. Vamos começar a viajar com ele em duas semanas. A primeira viagem será para Santos. A última, para Sorocaba. Nas viagens, Soraya Saíde e Ãngela Barros serão substituídas por Lucélia Machiavelli e Mariana que eu ainda não sei o sobrenome. E já está confirmado: para minha grande satisfação Luís Valcazaras vai dirigir minha peça, "Terça-Feira: Na Noite da Praça", dentro do projeto "Sete Dias". Cabe a ele agora a palavra final sobre o elenco. Valcazaras dirigiu "O Anjo Duro", que há alguns anos levou Berta Zemel de volta aos palcos, e é o encenador de "Abre as Asas Sobre Nós", em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso em produção de André Fusko. Por esse trabalho, Sérgio Roveri está indicado ao Shell de melhor autor de 2006.

6. CAMARIM
Os camarins de teatro talvez sejam os lugares mais interessantes do mundo. Conversas de camarim são fantásticas. Algumas seriíssimas. Outras hilárias. Quando os camarins são pequenos, como acontece nos Satyros, há uma convivência próxima que se cria, uma intimidade muito forte e ao mesmo tempo uma preocupação grande com as questões que envolvem o espetáculo. Preparem-se. Estou selecionando e em breve vou começar a contar aqui histórias de camarim. Em algumas a gente pode dar nomes aos bois. Em outras não. Mas elas precisam ser registradas. São geniais.

Começo com uma curtinha. A atriz premiada e consagrada chega para se arrumar, mas está agitada, em em busca do remédio Targifor, um vidro cheio, que ela esqueceu na bancada do camarim no sábado à noite e desapareceu. "Meu Targifor", diz ela. "Custou 25 reais! Meu Targifor!" Fez um escarcéu por causa do Targifor, que não apareceu. E daí ela se vestiu, se maquiou e se aprontou para entrar em cena personificando com muitra força toda a dor humana. Com ou sem Targifor, o espetáculo tem que continuar.

7. CARNAVAL
A vida inteira eu tentei ser um carnavalesco, gostar de Carnaval, sambar, desfilar. Fui a bailes, a desfiles, tentei de todas as maneiras me interessar, descobrir o meu samba no pé. Fracassei miseravelmente. A única coisa que me delicia(va) eram as marchinhas. Um dos maiores repositórios de críticas de costumes que há. Algumas vezes estupidamente preconceituosas ('A Cabeleira do Zezé'), mas na maioria dos casos certeiras e ferinas. Quem lembra da letra de "Maria Candelária', composta há 50 anos? Sua sátira ao funcionalismo público não está valendo até hoje?

Olhaí:
"Maria Candelária/é alta funcionária/saltou de pára-quedas,/caiu na letra òóóó./Coitada da Maria/trabalha noite e dia/trabalha, trabalha,/trabalha de fazer dóóóóó.../Às duas, vai ao dentista/Às três vai ao café,/Às quatro vai à modista,/Às cinco assina o ponto e dá no pé!/que grande vigarista que ela é!"
       

8. TEATRO
vou nessa
Foi um dia longo esta sexta de calor. Fiquei gravitando ao redor de "Terça-Feira", que quero acabar no fim de semana. Estou possuído pelas personagens da peça sobre a Praça Roosevelt. Mas possuído também por "Inocência", que volta hoje ao cartaz. Em menos de duas horas estarei no palco, vivendo aquela montagem louca, fascinante, que arrebata o elenco e, claro, também o público. Como é bom fazer FAZER teatro TEATRO! Vou nessa.

9. O VAZIO NA CRIAÇÃO TEATRAL/PERSONAGEM
O vazio depois
Muito estranho o vazio que a gente sente depois de terminar uma obra de ficção. No caso do ator, o final do processo de criação é o começo de uma história que só vai se concluir no último dia de apresentação da peça. Nunca vou me esquecer de Ivam Cabral aos prantos, no último dia de “Transex”, perguntando a si e a todos os que estavam perto o que se faz com uma personagem quando a peça termina, pra onde vai aquilo que o ator criou. Foi uma cena emocionante e inesquecível, traduzindo uma aflição que eu sentia na pele e não conseguia expressar. (Que bom que talvez meu ator rei tenha de encarnar de novo a travesti Teresa de Ávila. É intenção da companhia montar toda a trilogia da Praça Roosevelt depois da estréia de “Em Sete Dias...”)

Mas voltando ao escritor, terminada a redação da obra, conclui-se o processo. E nós ficamos meio que no ar, desconsertados. Meu dia hoje foi curioso. Fiz tudo muito timidamente, como que pedindo licença. Estou moroso. Não tive energia para atacar já um outro trabalho que tenho de concluir. Ficou para amanhã. “Terça-feira: Na Noite da Praça” ainda requer releitura, reajustes. Mas está terminada a peça. Já foi lida até por alguém que não eu. Mandei-a ontem para três amigos muito próximos. Um deles já leu e mandou retorno numa mensagem sucinta mas animadora.

Mesmo com ajustes e reparos à frente, sei que o ímpeto do processo de criação terminou. Não vou mais conviver todos os dias, como vinha fazendo desde o final do ano passado, com Eloy Helol, Leovigildo, Isolina e o odioso Moura. Agora eu abro mão deles, para que diretor e atores e cenógrafo e figurinista e sonoplasta e iluminador lhes dêem forma. Fico muito feliz com isso. Mas dói, também. Não é tão simples.

10. Dor de ser
Quando termina a dor? Quando começa a alegria? Quando o ser humano fica pronto? Mas espera aí. Ele fica pronto? Acho que não. Esse processo de formação do ser começa no nascimento e termina na morte. E durante a coisa a gente pode aspirar ao fim da dor e ao reinado da alegria? Ninguém disse isso. Viver é um aprendizado penoso de muitos sofrimentos e alguns prazeres. Como é difícil. Estou enredado em perguntas quando queria ter respostas para ajudar alguém que amo e que está sofrendo intensamente. Males do espírito, não do corpo. Queria ter respostas que curassem, mas só tenho perguntas. Isso provoca em mim uma sensação triste de impotência. Queria que os olhares fossem intercambiáveis. Que quem amo pudesse ver com meus olhos e vice-versa. Talvez assim a gente pudesse se entender um pouco melhor, e quem sabe juntos entenderíamos o mundo. Mas as coisas não são como a gente quer, né mesmo?

 

11. Dor
Há dias em que a dor de viver torna áspero o mero respirar. Um simples inalar causa reflexos penosos na musculatura que se ressente do árido exercício da existência.

12. Frases que eu adoro em “Inocência”:

“A polícia não é deus.”
“Tudo vai voltar ao estado, mais para a frente.”
“Meus dedos são ágeis e fortes.”
“A vida tem sentido pra você?”
“Perdão, perdão por ter nascido, perdão por ter parido esse filho que...”
“A vida que se esfria lentamente, deixando um núcleo incandescente.”

13. Fracasso
Doloroso é viver. Grande novidade. Mas é verdade. Doloroso é viver. A cada dia. A cada mendigo deitado na calçada. A cada criança no farol. A cada esperto que quer nos fazer de trouxas. A cada pronunciamento de políticos. A cada amigo que se percebe mais e mais distante sem que se atine com o motivo do afastamento. (A cada demonstração de temperamento de nosso patético prefeito, que agora destratou um trabalhador, eleitor seu, que ousava protestar contra o senhor prefeito! Como é grotesco o Kassab, meu deus.)

Doloroso é viver. As derrotas são doídas, mas as vitórias também. Não posso me queixar. Venho tendo muitas e lindas vitórias. Sou um privilegiado, um abençoado. Tenho muito que agradecer. Ainda assim, doloroso é viver. Conviver com as pequenas derrotas cotidianas que nos assombram a alma, que nos tiram o sono, que nos fazem ficar à noite pensando e pensando. Nas pequenas injustiças que cometemos. Nas pequenas injustiças de que somos vítimas.

Tudo isso para dizer que ontem eu fui abordado por uma criança, na esquina da Peixoto com a Frei Caneca, perto do açougue e da padaria. Um menino bem vestido até. Dez anos, talvez. Cabelo castanho cortado curto. Rosto claro. De calça jeans, tênis e camiseta. Não estava sujo nem tinha aparência de mendigo. Mas sentava-se no chão, encostado na parede, cabeça pendendo para a frente. Partindo dos olhos boiando em tristeza, vindo lá de baixo aquele olhar me atingiu como um soco. Ele estendeu os braços magros em minha direção, palmas viradas para cima e murmurou uma frase inaudível. Eu me esquivei. “Hoje não tenho.”

Tentei imaginar como, por que aquele menino com aquela roupinha limpa, com aquele ar de criança que tem casa, que tem família, estava ali pedindo esmola. Queria ter conversado com ele. Mas, maldição de São Paulo, estava em cima da hora. E continuei a descer a Frei, em direção ao shopping e à escola. Uma escola de gente bonita, bem alimentada, que usa as roupas mais descoladas que há e não tem consciência dos privilégios de que desfruta.

O olhar daquele menino, no fim de tarde poluído do quente quente verão paulistano, me acompanhou noite adentro, aulas adentro. Um gosto amargo em minha boca. Uma sensação de impotência. O homem é o lobo do homem. A gente tenta levar uma vida digna, criativa, esteticamente significativa. Meu currículo é cheio de realizações. Mas por quê sinto que tudo que faço é tão pouco? Não tenho tempo para me coçar, de tanto trabalho que realizo. E não faço tudo que é preciso fazer. Este não é um exercício de autocomiseração. Não sou disso. È apenas a constatação de um fracasso. Viver dói.

14. Mensagens indesejadas
O grande problema do Orkut e do e-mail é a quantidade absurda de mensagens estranhas que a gente recebe. Cada vez que me mandam  um scrap anunciando o novo espetáculo de não sei quem, ou uma corrente que não pode ser quebrada, sob o risco de minha vida se transformar em um inferno, fico com vontade de ser um impulso elétrico, entrar pelo fio e dar um choque na pessoa que me mandou essa mensagem. E os e-mails fazem publicidade de absolutamente tudo, desde lojas virtuais que estão vendendo equipamentos de mergulho até óleos revolucionários para o motor do seu automóvel. Eu não mergulho e não tenho carro, pombas. Todo o lixo que a gente recebia antigamente pelo correio passou agora pra internet. E a quantidade de ofertas de Viagra e Ciális, então? Devem pensar que eu sou o maior broxa (ou brocha?, nunca sei) do planeta. Tem até oferta de empréstimo mediante hipoteca em Miami, Flo.

Que tenho eu a ver com propriedades em Miami? Como meu endereço chegou até essa gente toda? Agora comecei a receber ofertas de filmes pornôs. Compra pelo cartão, embalagem discreta. Gays e héteros. Já recebi convite pra leilão de cavalos, pra liquidação de verão e de inverno, pra vernissage, pra estréia de filme. É muito. Se eu fosse fazer tudo, ver todos os filmes pornôs, comprar os viagras, não faria mais nada na vida. E minha vida seria uma bela merda. Já bloqueio os popups na minha máquina. Mas as mensagens indesejadas não dá pra bloquear, a não ser barrando também as mensagens desejadas. E isso não vou fazer. Tenho o trabalho de apagar um monte de e-mails todos os dias. Mas faz parte do mundo da internet. Um dia preciso escrever sobre isso.

Vivi muito tempo sem ela. E agora dependo dela de uma forma absurda. Merece uma reflexão. Divago ao redor disso em um final de tarde de sábado. Faz muito calor. Prepara-se uma boa chuva. Tempo de verão e de carnaval. É carnaval semana que vem. Como este ano está passando rápido. Já estamos no carnaval! E começarem a chegar mensagens oferecendo pacotes turísticos. Carnaval em Salvador, no Rio, no Recife/Olinda, Floripa, sei lá onde mais. Eita.

15. VOLTANDO À FICÇÃO

Estou terminando uma nova peça. Faz tempo que não escrevia para teatro. Tinha esquecido de como é difícil e ao mesmo tempo empolgante. Fiz muito teatro desde minha derradeira peça (“Errado”, 2002), mas desde então não escrevi mais para o palco. Aliás, deixei de escrever ficção desde que o palco, especificamente o palco dos Satyros, me sugou com uma força arrebatadora e irresistível. Foi necessário o convite do Rodolfo e do Ivam, que pensaram em mim como um dos dramaturgos do projeto “Em Sete Dias se Fez a Praça Roosevelt”, para que eu retornasse à ficção. É muito diferente ser impregnado por uma personagem no território do ator e ser impregnado por várias personagens no território do escritor. A pressão sobre o ator é física, é coletiva, do diretor, dos colegas de elenco, de todas as testemunhas da criação atoral, que se expressa no corpo. A pressão sobre o dramaturgo é outra.

Tem a ver com o resultado. Com a data de entrega do texto. Mas o processo é vivido pelo artista solitariamente. Tem hoje os processos colaborativos, que são fascinantes, mas mesmo neles em um determinado momento o escritor tem que sentar-se, solitário, ante o bloco de papel, a máquina de escrever, o computador, e pôr em palavras concretas, de um modo sempre doloroso, as idéias. Tanto no modo tradicional da escrita teatral (o autor isolado) quanto no coletivo processo colaborativo (o autor em ação/reação com o grupo) o caso é deixar-se engravidar pelas personagens. Descobrir a voz delas. Reproduzir isso no texto. Em muitos momentos, na maior parte deles, eu de fato ouço as personagens dizendo seu texto para mim. Sussurrando em meu ouvido Tem gente que cria esquema, organograma, antes de escrever. Eu me deixo levar pela história.

Como se fosse um espectador, alguém para quem essa história está sendo contada pela primeira vez. Me deixo dominar pelas personagens. Elas é que conduzem a narrativa. Não eu. Sei de onde saímos e onde temos que chegar. Mas elas é que me mostram o caminho. E me apaixono por elas. No momento, estou perdido de paixão por Eloy, o estilista que todos ferram, por Leo, o garoto de programa que é sobrevivente e “de menor”, por Isolina, a deliciosa balconista do bar, que sabe tudo, e até pelo filho da puta Moura, o canalha preconceituoso que inferniza a vida de todos os que não se comportam do jeito que ele acha correto. Eles são os protagonistas de “Terça-Feira: Na Noite da Praça”, minha contribuição para o projeto, que vai entrar em cartaz na primeira semana de abril. Os outros autores são Sérgio Roveri, Marici Salomão, Mário Bortolotto, João Silvério Trevisan, Mário Viana e Jarbas Capusso Filho. Estou curiosíssimo para saber o que eles estão fazendo. Uau!

16. Cenas do Cotidiano
Coisas interessantes acontecem o tempo todo. Pequenos filmes que se desenovelam sob nosso nariz a cada dia, a cada hora. A condição humana, suas misérias, seus desatinos, são vividos e revividos em todos os cantos da terra infiniteternamente. Pequenos filmes que se desenovelam sob nossos narizes, quando não somos nós que os protagonizamos.

Fui hoje almoçar num porquilo aqui perto de casa. Estava costurando um texto no computador e não queria perder tempo. Para não pegar o lugar cheio, apareci lá depois das duas da tarde. Queria me sentar perto da janela. Era a área mais ocupada do restô, e fique numa mesa contígua à de um casal. O moço com aparência de bancário, calça e camisa sociais, sapatos de couro dêscombinando com o cinto, bonitas mãos. A moça cheinha, calça cargo bege, blusinha bem justa, denunciando os quilinhos a mais, rosto bonito, cabelos claros presos num coque molenga, grandes argolas douradas nas orelhas, unhas pintadas de preto, toque surpreendentemente moderno para uma figura no todo muito bem comportada.

Os dois estavam sentados um ao lado do outro, na parede da janela. Sentei-me em oposição a eles. Nunca vou esquecer das explicações que minha amiga Ba dava sobre o feng-chui. “Nunca dê as costas para a janela ou a porta, pois o inimigo pode ataca-lo por aí”, ou alguma coisa assim. O fato é que sempre que posso fico de frente para as janelas. E portas. E isso fez com que eu presenciasse a cena que se desenrolava com o casal.

Estavam discutindo em voz muito baixa. Não ouvi o que diziam, e nem tentei. Mas a partir do momento em que percebi que estavam se chocando, não consegui prestar atenção em outra coisa. A todo momento os dois atraíam meu olhar. Nada mais desagradável que ter alguém te encarando num momento desses. Então, quando percebi o que estava fazendo, me policiei para olhar para a frente. Mas não conseguia deixar de acompanhar a movimentação dos dois com o rabo do olho.

Só ouvi a moça dizer uma frase: “E daí a culpada sou eu”. E uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Ela a limpou com um gesto delicado. Ele a abraçava, dava tapinhas nas costas cheias dela. Tapinhas. Como se quisesse confortar um animal, um cachorro, um bezerro. Tapinhas bem sem graça. E a mão se afastava das costas da moça de belo rosto e fazia círculos no ar, como se o dono da mão estivesse se afogando e procurasse algo em que se agarrar. Ela falava baixo e com veemência. A cabeça girava no ar sinalizando “não”, “não”. Ele falava ponderado, tentando argumentar.

Consegui ficar um bom tempo sem prestar atenção a eles, para alívio de minha reputação de homem bem educado, e quando voltei a observá-los de soslaio, ela estava com a mão no braço dele, o torso inclinado para o rapaz, ouvindo atentamente o que lhe era dito. De novo desviei minha atenção. Observei o povo que circulava pela rua. E de repente, olho pro lado, os dois estão se beijando. A moça gordinha das unhas pintadas de preto entregava-se apaixonadamente ao beijo. Ele, não sei. Não fiquei encarando pra conferir. Já tinha espionado demais a crise dos dois. Quando me levantei para ir embora, ela gargalhava e ele parecia bem mais aliviado. Vim para casa pensando. Aquela moça bem comportada com aquelas unhas cobertas de esmalte preto, um instrumento tão punk de expressão! Aquele moço que dava tapinhas com as mãos bonitas de unhas polidas na manicure. Que será deles. Por que o destino não nos permite saber o fim dessas histórias que testemunhamos em um flagrante que chega e se vai?

E fiquei pensando em como o escritor e o ator são vampiros das emoções alheias, da vida alheia. Vampiros do bem, não tiram a energia dos outros. Mas vivem se alimentando com o que vêem e ouvem. Como é louco isso! O escritor e o ator que não têm suas antenas aguçadas e não captam o que acontece ao redor são, vamos dizer, muito menos ricos do que poderiam ser.

17. Mulheres
Dia delas            

Hoje é dia internacional da mulher. E eu queria registrar aqui a opinião que tenho faz tempo, de que o planeta só vai tomar jeito no dia em que os homens forem apeados do poder e as mulheres assumirem as rédeas dos governos todos.

Se a Terra tem salvação, ela haverá de estar nas mãos das mulheres. Não prego a vitória do feminismo sobre o machismo. Desejo a vitória do abrangente espírito feminino sobre a estúpida e guerreira combatividade/competitividade masculina.
           

18. Transar não é "elegante"           

Pode haver muita estética em gestos e closes nos filmes eróticos (nos eróticos, não nos pornográficos), mas quando se chega ao finalmente, no sexo não há finura. Pra quem gosta de coisas dignas, nada pode haver de mais indigno do que uma transa. Aquele vai-vem, aquelas posições todas enroscadas, aqueles pelos e peles suadas, aqueles gemidos... É muito excitante, mas que não é estético, não é mesmo. Vi ontem o famoso "Calígula" com Malcolm McDowell e Helen Mirren, e fiquei pensando essas coisas. O filme  é uma ruindade só. Mas uma produção de primeira com um elenco multiestelar. E quase se faz sexo explícito na tela. Ejaculação tem de monte, já na primeira cena. Mas o sexo lá não é bonito, não é estético, não é porno-soft. É animalesco, desengonçado.

É uma virtude desse "Calígula". Mostrar que o ato sexual em si, como na vida real, não é "elegante", não é "chic". É bruto, é tosco, é arfante, é inarticulado. Lembro de uma piadinha. Os lordes membros de um clube londrino descobrem que um deles já passou dos 50 e nunca transou. Ficam horrorizados, acham que isso depõe contra o bom nome do clube. Levam o lorde virgem a um bordel. Ele escolhe uma garota, vai para o quarto, os outros ficam esperando. Depois de um tempo ele volta. Os outros, ansiosos: "E aí? Eaí?" O lorde desvirginado:"Bem, a sensação é boa, mas a posição, francamente, é ridícula". Sendo ridículo e assumindo posições indignas o ser humano tem assegurado tanto o seu prazer quanto a reprodução da espécie. Não é algo que faz pensar?

19. ALGUNS DIAS
Alguns dias são mágicos, outros são apenas mais alguns dias. Hoje o meu foi um dia da segunda espécie, não da primeira. Por que isso acontece? Por que há tantas perguntas sem resposta? E por que há tantas respostas cujas perguntas não conseguimos descobrir? Édipo seria mais feliz se não tivesse decifrado o enigma da Esfinge. Ou o Destino teria dado um jeito de pegá-lo na curva com uma outra armadilha? Cheguei assim da escola, com essas idéias girando na minha cabeça. Mas feliz por sentir que meu trabalho com os alunos está rendendo bons dividendos. Precisam ver como essa garotada que nunca tinha lido uma tragédia grega na vida (não todos, mas quase) está achando a embocadura da bela tradução de Mário da Gama Kury para "Antígona".

Hoje teve uma convenção de bijuterias lá no Shopping Frei Caneca. Convenção de bijuterias é uma coisa hilária, né? E o que me deixou besta foi a cara dos bijuteristas. Todos e todas parecem clones uns dos outros. Gente se fazendo de séria e importante, como se estivessem discutindo o efeito estufa e não os looks bijutéricos da próxima temporada. E isso tudo pra quê? Pra virar objeto de venda das barracas de camelôs na 25 de Março e adjacências. Eu, hein

20. Domingo e Dor
Domingo sol calor sandálias havaianasMesa de almoço, saboroso e bem feitoMas a dor que vejo naqueles olhos que eu amoContamina o meu apetite e o meu dia.

21. DIAS ESTRANHOS
Tá tudo muito estranho hoje. Tá esquisito. De vez em quando eu tenho desses dias em que fico muito em dúvida sobre o que é que a gente está fazendo aqui. Pra que tanto tudo? Não seria melhor dizer não?  É disso que trata "inocência". Estou convivendo com essas idéias há meses. Mas de vez em quando elas se impõe na realidade. Quando há um dia como hoje, cinza e claro, chuvoso e seco, ventoso e abafado. A natureza é contraditória. E isso torna tudo mais estranho ainda. Dá um nó na alma.      
 

22. MÚSICA
Sigur Rós                            

Escrevo ao som de Sigur Rós. Na verdade, vim para o blog para escrever sobre o Sigur Rós. Não como crítico musical, que eu não sou. Como ouvinte. Nem sei de que modo descobri esse grupo islandês. Ouvi o som em algum lugar e sai procurando.

A Trama tinha lançado o álbum “Agaetis Byrjun” (já soube o que significa, não lembro mais) no Brasil em 2000. Ele foi gravado na Islândia em 1998. Nesses últimos nove anos o grupo se tornou internacional a ponto de fazer viagens de trabalho pela África, de ir a Miami para fornecer som a um novo balé da companhia do lendário Merce Cunningham. Agora estão em estúdio gravando um novo disco, que deve ser lançado ainda em 2007. Essas informações todas são pescadas do site da banda, Eighteen Seconds Before Sunrise (Dezoito Segundos Antes do Nascer do Sol) no endereço http://sigur-ros.co.uk.

O som desses garotos é pungente. Assombra, perturba. Em certos momentos parece um quarteto de cordas do século 19, em outros, uma orquestra de fantasmas, meio dissonante, meio desengonçada, e de repente dão a impressão de estar experimentando os sons espaciais de que os grupos de rock progressivo dos anos 70 gostavam tanto, e em outra volta do caminho envereda por umas dissonâncias e rupturas dignas dos dodecafônicos. Um som estranho, viajante, que fica nos habitando. Sigur Rós. Fazia muito tempo que não ouvia. Ontem, por alguma razão, estava falando da banda pra o Brunno, que não conhecia. Quis ouvir. Não houve meio de achar o cd. Cheguei a pensar, paranóico, que alguém tinha roubado o disco de minha modesta e bagunçada cdteca. Mas não. Hoje achei o trabalho dos meninos da Islândia.

O cd é modesto, uma capinha de papelão preto com um desenho futurista na capa de um ser com mãos reptílicas, pequenas asas e cabeça enorme com pequena boca sorridente que flutua num fundo negro com os pezinhos encolhidos e as mãos segurando um cordão umbilical  truncado. Difícil de achar numa prateleira cheia de capas de plástico. Esconde-se entre elas. Quando encontrei, dei-me conta de que fazia tempo que não ouvia. Sigur Rós. Quis conferir se a impressão inicial de espanto e maravilha se sustentava. E ainda se sustenta. Que eu conheça, nada parecido com essa mistura maluca de sons surgiu nos últimos anos. É uma experiência muito forte que eles provocam no ouvinte. Preciso procurar traduções das letras que uma voz em andrógino falsete ecoa pelas faixas. Sempre me propus a fazer isso na internet e nunca tive tempo. Mas queria saber do que eles falam. Vai ver, de repente são os maiores reacionários. Mas fazendo o som louco que fazem, duvido.  Matei a saudade do Sigur Rós e deixo por escrito meu testemunho de admiração por sua música.

23. Pássaros no Centro
Há pássaros na janela da casa de minha mãe. Ela não mora em nenhum sítio nos arredores da capital, mas no próprio centro, no miolo da megalópole, num apartamento no 11.ª andar, ao lado da Biblioteca Municipal, pertinho da São Luís e da Sete de Abril. Pois desde que ela voltou para casa, depois de um mês no hospital, no comecinho de 2006, uma senhora que então trabalhava para ela como enfermeira e acompanhante teve a idéia de pôr um bebedouro para pássaros, desses de plástico, com umas florzinhas coloridas, pendurado na moldura da persiana da sala de visitas.

A moldura não é fixa, e sim móvel. Avança além da parede, permitindo à persiana, que desce de uma caixa no alto da janela, várias alturas e posições no controle da luz. Depois, a mesma senhora teve a idéia de pôr uma banana cortada ao meio, no sentido do comprimento, no parapeito da janela onde ficava o bebedouro. O ritual da água e da fruta repete-se desde então. Resultado: minha mãe e todo mundo que freqüenta a casa dela descobriu que há pássaros no centro da cidade. De todos os tipos, tamanhos e cores. Não apenas pombas ousadas e desasseadas e agressivas. Aves de muitos tipos e jeitos e feitios. Cinzentas, coloridas, grandes, pequenas. Até beija-flores já vi por lá. Poucos, mas vi.  Nunca me interessei por ornitologia, mas várias vezes já pensei em ver se encontro um livro sobre pássaros de São Paulo para deixar por lá e ver se identifico algum espécime quando vai se alimentar. Hoje foi um dia especial. Primeiro apareceu uma avezinha toda amarela, com uma listra marrom da cabeça à cauda e asas marrons. Linda. Depois surgiu um trio de pássaros escuros de barriga branca. Dois maiores e um menorzinho. Um dos grandes ficou na barra da moldura, empoleirado, vigiando, virando a cabecinha para cá e para lá. O pequeno ficou ao lado dele.


A outra ave maior veio até a banana, comeu um pouco, e daí bicou a fruta, voou até a moldura da persiana e colocou o naco de banana no bico do pássaro menor que piava e batia asas. Isso se repetiu umas cinco ou seis vezes, durante cerca de 10 ou 15 segundos, se tanto. E daí os três levantaram vôo. O menor dos pássaros, por engano ou não, em vez de voar para as árvores da Praça Dom José Gaspar, atrás da Biblioteca Mário de Andrade, voou para dentro da sala de visitas de minha mãe, deu uma circulada por ali e daí saiu para a luz pela janela escancarada. Minha mãe é muito idosa e sua saúde deixa a desejar. Enxerga muito mal. Mas ainda vê um pouco. E testemunhou a cena. Seu sorriso e o brilho que lampejou em seus olhos, quando viu o pequeno pássaro sendo alimentado e depois acompanhou seu breve vôo pela sala, eu vou guardar comigo.

 

 

24. Reencontro
Velhos amigos são uma bênção. Nos reencontramos ontem. A sós. Depois de muito tempo muito. Nos olhamos nos olhos. E as histórias brotaram. E velhas feridas foram tocadas e finalmente puderam cicatrizar. O balanço de perdas e danos foi feito. E o perdão foi pedido e negado, porque não havia necessidade dele. E o abraço de despedida, na madrugada fria de São Paulo, a cidade em que nos conhecemos e em cujas ruas e noites nossa amizade floresceu, foi um abraço de alô, de seja bem vindo de volta. Bendita vida que reserva esses presentes. Bendita vida. Porque este mundo é muito áspero, não costumo soltar bênçãos com freqüência, apesar de estar ensaiando o papel de um sacristão. Mas o evento da noite de ontem, desta madrugada, merece todas as brahás, as bênçãos judaicas. Fiquei comovido. Estou até agora.

25. Fashion victim
Fashion victms, as vítimas da moda, então entre as figuras mais engraçadas da cidade. Não só desta, acho, mas de todas as cidades. Aqui na minha área, que foi durante muito tempo um bairrinho pacato de classe média e de repente virou uma área fervida, cheia de resturantes, de clubs, de bares, com shopping a pouca distância, as fashion victims são encontráveis com muita facilidade. Acabo de ver uma.

Foi interessante. Almocei com minha mãe, que mora no Centro, ao lado da Biblioteca Municipal. Saí da casa dela e subi até o início da Augusta, onde ainda se chama Martins Fontes, pra pegar o busão. Ia dar aula, então subi até o ponto que fica na altura da interseção com a Peixoto Gomide, pra então descer a pé a Frei Caneca até o shopping. Adoro andar a pé. A vítima da moda estava no ônibus. No calor da tarde vestia calça jins azul escura bem justa e grudada na perna, uma camiseta preta bem colada no corpo e uma jaqueta jeans com apliques de couro preto. Uma corrente prateada no pescoço e outra corrente brilhante e grossa presa no passador fronteiro da calça, que circundava para desaparecer no bolso traseiro direito. Alguns anéis prateados completavam o conjunto da obra. Óculos escuros tipo homem-aranha, daqueles que tapam totalmente a área dos olhos e suas laterais. Cabelos cortados tipo moicano, repuxados para o alto da cabeça, mantidos espetados por algum gel meio brilhoso. E sapatos pretos de couro. Muito estreitos e de bico quadrado e beeem fino. O menino deveria ter uns vinte e poucos.

Estava bem ao meu lado no busão quase vazio do sábado à tarde. S saltei dois pontos depois de embarcar. E o garoto desceu também na parada da Peixoto. E foi caminhando na minha frente, descendo a Frei. Pensei que ele ia entrar no shopping, como eu. E não deu outra. Dei uma passada na farmácia do SFC antes de subir pra aula. Precisava de spray de própolis. Desde a última gripe, a minha anda meio detonada. Estava pagando a compra quando vi o garoto de preto e azul junto de outro caixa. Comprou alguma coisa e saiu. Quando estava me dirigindo pras escadas rolantes, vi o guri sentado em um banco do corredor, em frente a uma ótica. Ele havia tirado um dos sapatos e, muito absorto, aplicava um bandaid no calcanhar. Tadinho. O sapato estava fazendo bolhas. Não podia ser mais moderno o desenho do calçado. Mas estava acabando com os pés do cara. Subi rumo a minha aula, lembrando de um sapato de verniz preto que eu tive quando minha idade deveria regular com a desse garoto de hoje. E o meu também acabava com meus pés. E eu insistia em usar mesmo assim. Comprava bandaid e lá ia eu pisando firme. Como a gente é besta, meu deus! Hoje o mandamento primeiro de uma roupa pra mim é conforto. Se estiver na moda, melhor. Mas ter bolhas pra usar o sapato que todos os fashionistas estão usando, jamais. Ainda bem que a gente aprende alguma coisa com a idade.

26. Declaração enigmática 
É preciso agora ter muita fé e acender velas virtuais e fazer pedidos intensos. Não é hora de ter fé nos deuses ou no messias ou na salvação que vem das alturas celestes, porque isso tudo é tão improvável. Trata-se aqui de fé na vida, na possibilidade de coisas muito boas de repente acontecerem. em certas ocasiões mensageiros providenciais atravessam o caminho do pedestre. Daí, é cruzar os dedos e torcer para que a possibilidade se transforme em realidade. Evoé!

27. Minha ignorância. E o Dia dos Pais
Neste domingo cinzento, Dia dos Pais, penso no meu, morto há 13 nos, enterrado no Cemitério Israelita do Butantã. Penso na nossa tormentosa relação. E penso em minha vida. E em descobertas recentes, que dizem respeito a outras histórias, e nada têm  ver com a figura paterna, e me fazem perceber que não me conheço bem e não sei de fato quem sou. Conheço algumas partes de minha pessoa, mas há abismos inteiros que nunca penetrei. Penso nos acasos que fizeram de mim este ser que concorda com Sócrates e tem de admitir: “Só sei que nada sei”. É assustador tomar consciência dessa ignorância toda. De qualquer forma, é encorajador sempre saber-se tão insciente. Posso tentar lançar alguma luz nas minhas trevas. Um processo estonteante. Mas viver causa vertigens. Feliz Dia dos Pais.

28. Dimensões
O incômodo que o elefante causou não me deixou surpreso nem triste. Mas o incômodo trazido pela pulga me pegou de surpresa. Doeu pelo tamanho do rancor e da mentira.

29. Dia difícil
Ontem foi o triste dia de descobrir que, por trás de sonhos, há muitos problemas que se escondem. muita luta é necessária para que os sonhos continuem a ser sonhos que se traduzirão em ação e se tornarão reais. Não é simples nem fácil. Mas se a vida fosse simples e fácil ela viria com manual de instruções e o telefone do Serviço de Atendimento ao Consumidor, não é?

De: Alberto Guzik Para: Alberto Guzik
SP Escola de Teatro