PARA: ALBERTO GUZIK
:: Por Raul Teixeira, sonoplasta
Meu caro amigo e mestre dos palcos Alberto Guzik,
A trajetória de um artista é agregada aos estudos, leituras, convivência entre os amigos, troca de experiências e companheirismo.
O grande prazer na minha trajetória foi poder ouvi-lo em palestras, ler vários livros, artigos, críticas extremamente cuidadosas e importantes para a história do teatro e, mais recentemente, vê-lo atuando nos palcos.
Há dois anos, num convívio próximo e constante na construção e elaboração da SP Escola de Teatro, pude conhecê-lo mais de perto e aprender com seus pensamentos e atitudes (muito do que você já havia me mostrado).
Guzik, esta homenagem pelo legado artístico que você nos proporciona como homem de teatro e amante das artes do palco é um reconhecimento de tudo que você nos ensinou.
:: Por Antonio Carlos de Moraes Sartini, gestor cultural
O Alberto Guzik é um caso raro. Alguém já viu um crítico teatral que após três décadas criticando larga tudo e vira ator? Ou melhor, volta a ser ator? E melhor ainda, ator dos bons, despojado, criativo! Sem dúvida, ele é corajoso! Que bom, ficamos sem um crítico competente, mas ganhamos um ator delicioso.
Sempre fui leitor assíduo de suas críticas no Jornal da Tarde e jamais vou esquecer quando escreveu sobre os magníficos atores do Teatro Nacional de Bucareste que vieram apresentar, em 1991, uma das coisas mais lindas que já vi no teatro e que tive a alegria de ser um dos produtores: “Trilogia Ântica”. Um texto delicioso, quem não leu, azar.
:: Por Astier Basílio, poeta paraibano
Aplauso para Alberto Guzik
Aplauso para Alberto Guzik
Em teus olhos, Alberto, eu sinto pássaros
que concluem a noção do infinito
e o azul que espalhas fez um pacto
com o que há de mais belo. É impossível
Não amar tua voz que tem formato
de um aperto de mão, de um abraço íntimo.
Tudo, sim, vale a pena, disse o Bardo,
como se escrevesse tendo visto
Tua alma de amplos, largos, vastos,
horizontes que cabem num sorriso
que em teu rosto tu deixas desenhado,
Como estrela capaz de um céu ou o risco
de uma felicidade. O nosso aplauso
bate igual coração. Sem fim ou início.
:: Por Carlos Hee, jornalista e escritor
Conheci Alberto Guzik nos anos 70, quando Luiz Roberto Galizia, grande ator e saudoso fundador do Grupo do Ornitorrinco, me levou ao apartamento dele, para conversarmos e passar o tempo antes de uma sessão do espetáculo com as músicas de Brecht e Weill nos porões do Teatro Oficina. Foi nessa noite que fui apresentado a ele, que já era um conhecido crítico teatral. Mal sabia, naquele dia, que tanto eu como o Guzik viríamos a trabalhar juntos, no Estadão, nem que escreveríamos um livro, cada um de nós, sobre um tema de certa forma comum, e que ambos colocaríamos o Galizia como personagem.
Guzik lançou seu livro “Risco de Vida” muito antes de eu lançar o “Trem Fantasma”. Ele foi um dos primeiros a ler meus originais e imediatamente percebeu que tivemos a mesma idéia de colocar o Galizia como personagem. Não só porque ele fora importante para nós dois, como também por ter sido uma figura excepcional que nos deixou muito cedo. Em sua enorme generosidade, Guzik apontou a coincidência e aprovou o que eu tinha escrito. Assim como fazia nas várias vezes em que trocamos originais para saber a opinião um do outro.
Quando fui colocado na função de crítico teatral, Guzik foi o exemplo que segui para analisar um espetáculo teatral. Afinal, seu conhecimento sobre o assunto sempre foi incontestável e sua maneira de escrever serviu de guia para meu desempenho nesse trabalho, que durou bem menos do que eu esperava, mais por uma questão de veículo do que por falta de estímulo. Aliás, o que não me faltou foi estímulo, principalmente do próprio Guzik, com quem eu sempre conversava sobre espetáculos que havíamos assistido. E, normalmente, tínhamos opiniões parecidas.
Quando ainda dividíamos a mesma redação, Guzik decidiu que era hora de finalmente retornar aos palcos. Deixou de ser o analista para ser o alvo, ao integrar a companhia Os Satyros. E, mais uma vez, ele mostrou-se corajoso, ao deixar a confortável posição de crítico para enfrentar a plateia. Talvez os tantos anos que passou observado o trabalho alheio o tenha ajudado a compor os tantos personagens que viveu no teatro da Praça Roosevelt. Assisti a todos seus espetáculos e ele me impressionava por não se intimidar em despojar-se para se mostrar por inteiro ao público. Sempre com sua voz grave e inconfundível.
Tanto no palco como na redação do jornal, Alberto Guzik jamais esqueceu um detalhe importante de sua personalidade: a generosidade. Foi por ele ser tão generoso que eu soube, naquela noite dos longínquos anos 70, que mesmo sem desfrutar continuamente da presença de Alberto Guzik, sempre o tive como um grande amigo. Amigo daqueles que são tão difíceis de encontrar e cultivar. Para sempre.
:: Por Laura Cardoso, atriz
Querido, particularmente com os meus trabalhos, você me deu muitas e muitas alegrias, com toda a sua inteligência e generosidade! Muito amor!
:: Por Raul Barretto, ator
Embora o que aparece seja a cabeça, o maior brilho do Alberto mora no coração. Inteligência, generosidade e companheirismo.
:: Por José Simões, pesquisador de teatro
Para Alberto, o teatro é risco. Risco de encantar e ousar! Evoé!
:: Por Hugo Possolo, ator e diretor
Em tempos de ausência, a presença se faz em imagens e lembranças. Tenho do Alberto várias versões: a do crítico, a do artista e, principalmente, a do amigo generoso. Em todas as faces que dele vejo, coincide um ser humano instigante, provocativo e muito culto, daqueles que dá um imenso prazer em conviver.
Alberto, quando escrevia nos jornais, soube ser crítico sem ser manipulador daquele pequeno poder tentador, dos que fazem do quarto poder uma arma pessoal. Ao contrário de usar sua função, colocou-a a disposição de artistas. Sem conviver com ele, eu já o tinha como amigo, quando escreveu sobre minha encenação de “Pantagruel”. Não era uma crítica positiva e, por isso, falo com tranquilidade que foi a melhor que já li a respeito do trabalho dos Parlapatões, pois lançava o questionamento de que rumo tomaríamos. Foi um texto que nos ajudou a pensar profundamente novos caminhos em nossa trajetória. Não estranhei, portanto, quando Alberto deixou a crítica para dedicar-se a um grupo, os Satyros. Seu conhecimento permitia a aventura como artista.
Hoje e desde a criação da SP Escola de Teatro, tenho o privilégio de conviver com o Alberto, que se tornou, de fato, um grande amigo. Pude perceber sua visão sobre o teatro, que passa com bom humor sobre todas as dificuldades e encara com absoluta seriedade o compromisso de fazer de uma idéia coletiva, a de formação de jovens artistas, um marco em nossas vidas. Viva o Alberto! Viva o Guzik! Viva o Teatro!
:: Por Gabriela Mellão, jornalista e dramaturga
Guzik sempre foi uma referência para mim. No início, de sabedoria, erudição, profissionalismo. Lia seus escritos sobre teatro e pensava: “como pode alguém saber tanto?” Depois, por uma bondade da vida, o mito ganhou contornos de homem. Nos conhecemos e ele revelou-se como sempre sábio, mas também imensamente humano: apaixonado pela vida e pela arte, generoso, idealista e carinhoso.
Conto aqui duas histórias que ilustram um pouco o caráter elevado de Guzik. Ele escreveu o prefácio do meu livro publicado na coleção Primeiras Obras, organizada pelo Ivam Cabral. Não me conhecia. Soube dos meus escritos pelo Ivam. Pediu para lê-los e se ofereceu para me apresentar aos leitores. Não limitou-se a compor uma apresentação. Escreveu um tratado sobre minha obra. Fiquei imensamente tocada.
Em uma das vezes que nos vimos, no final de uma de suas apresentações teatrais, ele carregava um vaso de violetas que havia ganhado de uma amiga. Segurava o vaso com um cuidado comovente.
Sua paixão pela arte me inspirou a escrever uma peça, “Correnteza”, um presente para Guzik exercer seu ofício de ator fazendo uso de toda a potência criadora que há dentro de si.
:: Por Fernanda D´Umbra, atriz
Todos os dias o Teatro recebe esse amor sem fim que vem do Guzik. E a vida aqui em cima das tábuas é linda e cheia de histórias que fizemos juntos, todos os dias.
:: Por Luiz Valcazaras, diretor e dramaturgo
O Guzik, como uma bússula, sempre sabe para onde é o norte. Orienta vários atores e artistas numa direção séria e vertical. E qualquer caminho que ele decide percorrer eu o respeito!
:: Por Patricia Gaspar, atriz
Você é um crítico da maior dignidade, com muito amor e respeito pelo teatro, pelo ofício do ator. Muito bacana você viver isso tudo na pele atuando e se dando o direito de viver o palco em sua amplitude. Penso em você sempre com muito carinho e admiração.
:: Por Helena Ignez, atriz
Meu amor, acabei de ver você no filme “Luz nas Trevas”. Você é só luz. Te amo!
:: Por Marcelino Freire, escritor
Falar de Alberto Guzik é pensar assim: na coragem. Na cara à tapa. É pensar em teimosia. Quando tinha a trajetória garantida, como crítico teatral, Gusik resolveu mudar. Voltar a ser ator. Zerar. Guzik sempre apostou nisto: na renovação. Na pulsação. E recomeçou glorioso lá no Satyros. Acompanhei tudo de perto. De jornalista reconhecido, Guzik também publicou livros. Romance, biografias, ensaios, contos. E que livro de contos! Sempre digo para ele: dos contos certeiros que ele reuniu no seu "O Que É Ser Rio, E Correr?", pela Editora Iluminuras. Guzik é esta criatura, desde sempre, inspiradora. Exemplo de artista. Inteligente, bem-humorado. Sério. Dessas raras grandezas que temos. Professor, diretor. Mestre atento.
Ele quem primeiro me apresentou o talento do Sérgio Roveri. E me apresentou, generosamente, tantas outras pessoas. Boas. Que ele, feliz, gostava de ver. Crescer. Guzik é grande. É de um coração grande. E lindo! Falar de Alberto Guzik é sempre pouco. Muitos que ele é. Múltiplo que ele é. Desbravador. De si. Minha admiração por ele. Devoção por ele.
Amor, sem fim.
:: Por Germano Pereira, ator
Alberto Guzik é um grande homem. Homem de Teatro. Um pensador inquieto, preocupado com a existência, criador. Inicia ator, se afasta para ser crítico brilhante, romancista, escritor, e felizmente volta aos palcos com a gente nos Satyros! Me ensinou muito, foi um professor! Nos seus últimos dois espetáculos sua irreverência, em um deles contracenávamos juntos, no outro lembro quando acabou a luz do teatro e ele improvisou durante 10 minutos sem falar nada, apenas com sua presença cênica. Mais uma grande aula! Termino falando dele citando Goethe: Luz, luz, luz, mais luz, mais luz!...
:: Por Imara Reis, atriz
Outro dia eu estava pensando na nossa profissão, métier, ofício ou sacerdócio; realmente não sei qual a melhor maneira de chamar. Até pelo fato de que alguns de nós, como o Guzik, abraçam esse fazer teatral com todos esses aspectos que essas palavras comportam, incluindo no pacote outras tantas, como obsessão, veneração, ternura e devoção. Mais: como doação e semeadura. E o Guzik é amplo, entregue, dedicado e apaixonado. Ou seja, exemplar. E não só para nós, seus colegas. É também um exemplo a ser seguido por profissionais de outras áreas. Um mundo, cheio de Albertos Guziks, seria mais bacana e melhor para se viver.
:: Por Angela Barros, atriz
No dia 9, dia do teu aniversário, eu fui te ver e levei um punhado de flores imaginárias porque lá, eles não permitem a entrada com flores que não sejam imaginárias. Mas, mesmo assim, não me deixaram entrar. Pena... Daí, lá na porta eu cantei bem baixinho um enorme: "Parabéns a você"! Se você tivesse me visto, você ia gostar: Eu lá na porta cantando... “Nesta data querida! VIVA!”
:: Por Mauricio Paroni de Castro, diretor e dramaturgo
"A vida em cada momento engloba tanto o corpo como o espírito, entidade e ambiente de todos os seres sensíveis em todas as condições de vida, assim como seres insensíveis: plantas, céus e terra até as mais minúsculas partículas de pó. A vida em cada momento permeia o universo e revela-se em todos os fenômenos. Quem entende essa verdade demonstra a integridade da vida como mundo fenomenal." Te envio essas palavras do meu mestre Nichiren porque você, como um dos escritores mais brilhantes que já conheci, escreve com a tua vida e isso pende e penderá sempre a favor do homem que conheço.
:: Por Aguinaldo Ribeiro da Cunha, advogado, pesquisador e crítico teatral
Escrever sobre meu amigo e colega Alberto Guzik é um prazer e uma honra. Grande crítico, grande homem de teatro, neste texto faço uma retrospectiva de nosso relacionamento, além de ressaltar a grande figura de teatro que Guzik sempre foi.
Nos conhecemos no início da década de 70 - quem nos apresentou foi nosso amigo comum, Luiz Roberto Galizia, extraordinário homem de teatro, ator, diretor, teórico, e queridíssimo amigo.
Em 1970, Galizia já cursava a ECA e, por insistência de seu pai, advogado, prestou vestibular na Faculdade do Largo de São Francisco – onde eu cursava o terceiro ano de Direito. Como já éramos amigos desde 1969, ele me pediu para acompanhá-lo no dia da matrícula. Fui pensando em protegê-lo dos trotes dos veteranos. Mas Galizia era uma personalidade única, fascinante, muito pouco ortodoxa: dispensou minha proteção e, alegremente, aceitou os trotes. Adorou cortarem o cabelo dele, ser pintado no corpo, dizia aos veteranos: pintem mais, por favor. Na verdade, divertiu-se mais que os algozes – que, frustrados, pararam de brincar com ele. Diga-se de passagem que Galizia jamais tornou a voltar à São Francisco, nem mesmo por um único dia.
Logo depois, parece-me que por volta de 1972, ele, envolvido com o teatro e com o pessoal de teatro, apresentou-me Alberto Guzik – seu amigo fraterno, eram muito unidos e próximos, pareciam almas gêmeas.
Foi um encontro fugaz, que não resultou em amizade imediata, talvez por estarem eles, Guzik e Galizia, totalmente envolvidos com o teatro, e eu, concluindo nesse ano o curso de Direito, integralmente absorvido em minha nova profissão. Nem pensava em teatro, a não ser como assíduo frequentador (ia todos os domingos ver alguma peça, via tudo, lia, pesquisava, gostava muito, mas à distância – apesar de, esporadicamente, desde 74, escrever na imprensa sobre história do teatro brasileiro ou exercitando-me em pequenos textos críticos).
Mais tarde, voltamos a nos reencontrar, Guzik e eu, quando dei meus primeiros passos na crítica teatral em 1985 (nesse mesmo ano, em fevereiro, Galizia faleceu). Guzik era uma referência importante para mim, como crítico influente e respeitado, juntamente com Sábato Magaldi, Ilka Zanotto, Jefferson Del Rios, Mariângela Alves de Lima e Yan Michalski.
No ano seguinte, filiei-me à APCA, e em 1987, quando organizei o I Seminário de Crítica Teatral juntamente com Mariângela, sob coordenação de Sábato e do saudoso mestre Décio de Almeida Prado, Guzik e eu nos aproximamos pela primeira vez, agora em torno de um objeto comum, o teatro.
Mas esses meus passos na crítica eram ainda incipientes, na verdade ainda não totalmente profissionais. Meu trabalho como advogado na área pública estadual era prioritário, ocupava-me o tempo inteiro.
Somente a partir de 1995, quando tornei-me crítico do Diário Popular, do qual fui colaborador durante nove anos, até 2003, é que tive a felicidade de me aproximar verdadeiramente de Guzik. Sentia-me amigo dele, cúmplice no teatro.
Seu trabalho como crítico no Jornal da Tarde era fundamental para o teatro paulista, por seu talento como teórico, sua seriedade, seu amor à arte teatral – e servia-me de referência, de inspiração. O livro que Guzik escreveu, brilhantemente, sobre o Teatro Brasileiro de Comédia foi lido e relido por mim incontáveis vezes (já havia lido anteriormente o Dionisios sobre o TBC, que Celso Curi, outro amigo muito querido, fizera com Guzik).
Nos encontrávamos nos teatros, em nosso trabalho de acompanhar a temporada teatral, algumas vezes voltávamos juntos para casa, conversávamos bastante, participávamos de reuniões na APCA. Nesse período, quando li seu extraordinário livro Risco de Vida, pareceu-me que o conhecia desde sempre. Que obra maravilhosa!
Lembro-me que fui ao lançamento do livro, num restaurante-bar da Alameda Tietê, com minha prima e amiga Miriam Muniz – ela, de quem sempre fui muito próximo, gostava demais do Guzik, como pessoa e como profissional, falava sempre dele, afetuosamente, eram amigos. Lemos o livro em dois dias, separadamente, ela e eu. Nos telefonamos assim que terminamos, assombrados pela beleza do que havíamos lido: ambos telefonamos imediatamente ao Guzik para cumprimentá-lo, saudá-lo efusivamente pelo belíssimo romance. Miriam ficou impressionadíssima, e eu também.
Senti muito, por um lado, quando ele se retirou da crítica, por considerar que era uma perda para o teatro brasileiro, perda difícil de ser reposta. Mas fiquei contente em vê-lo envolvido numa nova atividade, como ator, como profissional do teatro, desta vez “por dentro”, digamos assim, e não mais, “de fora”.
Passei a acompanhar o trabalho de Guzik com atenção, impressionado com seu desprendimento, sua imersão total no jogo cênico, na proposta do trabalho de grupo com os Sátyros. Eram todos muito queridos e objetos de minha admiração, Guzik e os Sátyros (conheci Rodolfo e Ivam acho que em 1987, antes mesmo de ver o primeiro trabalho do grupo). Lembro-me claramente de Inocência – trabalho magnífico, coletivamente, que atingia o público com força, cativando-o desde a primeira cena! Isso, para citar apenas um dos espetáculos que vi no teatrinho da Praça Roosevelt, depois da entrada de Guzik no grupo.
Ele no palco, eu afastado da crítica semanal na imprensa há alguns anos, embora escrevendo na internet e envolvido na Associação dos Críticos, era natural que houvesse um afastamento.
Ficamos um bom período sem nos vermos, sem conversarmos, sem aquela cumplicidade que o trabalho comum na crítica teatral nos proporcionava nos anos 90.
Senti muito esse afastamento.
Fui vê-lo no monólogo da velha senhora, diverti-me muito, gostei bastante – e conversamos brevemente no camarim, quando fui cumprimentá-lo, animado com o que havia visto. Lindo trabalho o de Guzik no palco, pela intensidade e paixão interiores – que dele emanavam em suas atuações.
Alberto Guzik merece todas as homenagens, como homem de teatro que é, na essência, ator, crítico e professor completos.
:: Por Soraya Aguillera, atriz
Eu e meus filhos, Isadora e Kauê, agradecemos por todos os saudosos momentos que vivemos juntos. Você faz parte das nossas vidas. Está na história dos meus filhos o homem além do brilhante profissional. Com amor e saudade.
:: Por Esther Góes e Ariel Borghi, atores e diretores
Sua trajetória de vida e obra dedicada ao teatro e ao teatro brasileiro merece destaque entre os maiores. Honestidade intelectual, critério, respeito e generosidade combinados na atuação como crítico de teatro, busca incansável do artista, na direção e interpretação. Sempre capaz de recomeçar, querer, construir, contribuir.
:: Por João Fábio Cabral, dramaturgo, diretor e ator
Como é bom sempre encontrar com o Guzik, é um momento onde doçura, delicadeza e generosidade estão sempre presentes. Aí você senta com ele em algum boteco e percebe que ele ainda é mais, mais e mais que isso, ele é inteligente, tem humor, ele é artista, é humano, ele é tão lindo que parece sonho. Alberto deve ser - deve não - é o tipo de pessoa pra casar. Um amigo que vale muito, muito talvez seja pouco, acho que é essencial na vida de muita gente. Então Alberto Guzik é felicidade? É!!! E felicidade eu quero sempre por perto, sempre. Viva Alberto, viva!!!
:: Por Célia Forte, jornalista, produtora e dramaturga
Eu, pessoalmente, vejo uma parte de minha vida profissional passar numa velocidade incrível diante dos meus olhos. Acho que agora Guzik irá escrever a segunda biografia de Paulo Autran. Tranquilos e certos, sempre, de terem cumprido brilhantemente seus papéis. Por aqui, vamos todos reverenciar essa personalidade que foi, que é Alberto Guzik.
:: Por ClÉo De PÁris, atriz
O Alberto me deu dois anjinhos de cristal no meu aniversário. Escreveu dois textos especialmente pra mim e foi meu pai em muitas peças. Me chamava de filhota. Eu a ele, de paizinho. Ríamos só com troca de olhares, de tanta cumplicidade. O Alberto era uma festa! Cheio de ideias, cheio de vida, cheio de planos, cheio de conhecimento.
Sonhamos muitos sonhos juntos, imaginamos muitas delícias... Eu adorava os ditados que ele catava e ele os meus.
Ríamos muito de bobagens e isso transformava alguns momentos da vida em uma maravilha. O que eu mais gostava era quando ele dizia: “pra quem é bacalhau basta.” E ele gostava quando eu dizia: “louco tem que deixar correr pro lado que dispara”. E ele amava, mas amava muito, quando eu dizia um que inventei: “Rímel e amor, se for barato não presta". Eu gosto de lembrar dele sorrindo pra mim.
Nosso amor era de repetições, assim do jeito dos amores verdadeiros, assim como fazer a mesma peça todo dia. Assim, simples assim.
:: De Caetano Vilela, diretor Cênico, iluminador e ator
Guzik, querido fiquei tão feliz da última vez que te visitei no hospital que apaguei do meu coração a tristeza da minha primeira visita ao te ver inconsciente saindo de uma delicada cirurgia.
Foi surpreendente encontrá-lo com humor, lutando, não só contra uma doença delicada mas também, contra todos os fantasmas que enlouquecem qualquer um que tem a vida brecada pelo destino e é obrigado a repensá-la numa longa e dolorosa sessão de análise sem terapeuta.
Ri muito quando você me disse que não era louco de, naquela situação, ler “O Lobo da Estepe” de Herman Hesse e que logo nas primeiras páginas o trocou por qualquer coisa de Agatha Christie. Talvez por você já ter vivido tudo como o personagem intelectual de Hesse, que depois dos 50 anos troca as certezas da vida burguesa pela mundana vida boêmia do jazz, putas e os desvarios dos undergrounds anos 20.
Lembro da surpresa geral da classe artística quando soube que o ‘mestre e crítico’ Alberto Guzik havia se tornado ator, e ‘pior’, no meio de travestis, bêbados, poetas e desvairados sonhadores no meio da praça Roosevelt! Nada mais ‘hesse’ de ser do que descobrir ser dono de mais de mil almas depois dos 50 anos.
Lembro ainda no final da minha visita quando você praticamente implorou, segurando minha mão, para que eu fizesse um plano de saúde e, como sempre, esquecia de você e se preocupava com os outros querendo saber como estava caminhando os meus projetos e em como você poderia me ajudar.
Você já ajudou meu amigo, me ensinou que generosidade é uma virtude que tem que se pregar com constância e que na nossa profissão não existe medo, só dor. E a dor nos fortalece!
:: Tributo gauche - a Alberto Guzik...
No Mito dos Confins, a palavra toca fisicamente os mortos. São palavras bastante concretas convertidas, paradoxalmente, em metáforas. Os povos primitivos estão mais perto dos elementos e das cercas que separam o humano do animal e os vivos dos mortos, donde ‘confins’. Quando uma palavra bendita emociona um vivente que a ouve, a ponto de arrepiar a sua pele, significa que o falecido escutou a oração: a mensagem tocou seu destinatário, que envia um sinal de volta, como aquelas confirmações de recebimento de email, ou como protocolo de recebimento na forma do arrepio...
Conheci o Guzik nos anos 50. Eu nasci e ele era meu tio. Ele tinha livros, discos [long-play!], revistas, vocabulário, conversa, filmes, peças, espetáculos, amigos interessantes, roupas modernas, conhecimento, cultura, erudição... Falava línguas com o impecável accent, tão chique!, quase pernóstico. Além de tudo e principalmente, ele tinha as chaves que abriam as portas secretas e proibidas. Um universo que eu adorava.
É, eu adorava o Guzik! Mas muitas águas passaram por debaixo da ponte e, apesar de todo amor, tive uma relação difícil e conflitada com ele.
Inquieto; atrevido; plural; sem noção de seu tamanho, por isso, inseguro; possuidor de um alto poder de sedução, quase hipnótico [do qual eu me defendia]; desajeitado; objeto do meu amor e do meu ódio; o mais gói dos judeus, para cuja alma se rezou uma missa católica na Igreja da Consolação [sugerida por seus amigos e autorizada pela família]; infantil e maduro; mal-educado e elegante; contraditório; parcial; inadequado; irreverente; apaixonado; injusto; mesquinho e generoso ao mesmo tempo; amante de encrenca e avesso a encrencas também ao mesmo tempo; como ele me deu trabalho!
Briguei com ele em 95, após a publicação de ‘Risco de Vida’. Entre outros motivos, enxerguei no livro que eu não fazia parte da sua vida [equivocadamente, talvez – mas talvez não]. E acho que nunca o perdoei por ele ter sido mais do mundo que da família. Essas são as razões confessáveis. Por quinze anos estive rompido com ele: na verdade, seus últimos quinze anos - que eu evidentemente não sabia que seriam os últimos.
Nunca perdi de vista as suas faculdades mentais hipertrofiadas. Mesmo no auge da minha indisposição, sempre reconheci a excelência das suas críticas teatrais, a qualidade de seu texto e o rigor e o método de seu pensamento largo.
‘Amigos brigam e des-brigam!’, me disse ele na última conversa, no hospital. ‘Amigos brigam e, quando um deles fica doente, des-brigam!’, concordei. ‘E depois que o doente sara, brigam de novo’, completamos a idéia. Nós rimos. Estávamos falando sobre nós. E, sem nenhuma modéstia, estávamos dizendo um ao outro: olha só como nós sabemos fazer a coisa certa. Nós somos bacanas! Diferente de gente que briga e nunca mais faz as pazes. Nós somos ‘os caras’! Amoroso, nosso encontro fazia parecer que não houvera intervalo tão longo. Eu me dei conta de que tinha saudades dele. Havia esquecido como podia ser boa a sua companhia.
Ele tinha desde sempre um traço adolescente, como uma marca tatuada. E quando se é família, sustentar o inferno de uma permanente oposição, não é assim tão fácil, afinal de contas...
Lá atrás, quando nasci, ele era mesmo adolescente. Com 66, até dia 26/6, dia de sua morte, ainda era um legítimo teenager. Planos e projetos, olhou o mundo com enorme curiosidade até o fim.
A adolescência fez com que jamais envelhecesse. No discurso, na linguagem, na plasticidade, nas antenas que captavam toda brisa, na graça, era jovem. Não obviamente no sentido barato do termo [do botox], mas – bem ao contrário - no sentido de desafiar limites, de buscar o novo, onde quer que o farejasse. E que faro! A adolescência, exaustiva e desconfortável, condena a posições sempre instáveis e precárias e provisórias, porque daqui a pouco tudo já vai ser diferente. Ele soube incansavelmente reformular suas rotas.
Outro dia, olhei as fotos de um link de uma homenagem feita a Alberto pela SP Escola de Teatro, no dia do seu aniversário, 9/6. Ele está lá, em todas as fotos, rodeado de jovens, entre 20 e 40 anos. Meninas lindas e meninos lindos. Que inveja!
Aos 60 anos, ele poderia querer ficar em casa, tomando chá com canja e vendo televisão. Mas, ao invés, foi para o palco correr risco, experimentar, desafiar, corrigir ainda mais uma vez sua rota, ser feliz...
Carregou a marca admirável e insuportável de conservar intacta a não-submissão à ordem. O amor ao estrangeiro. Amor àquilo que é não-familiar... Não é por aí, então, justamente onde eu [não] entro?! Como desejei ser não-família do Alberto...
Na contramão, dionisíaco, não se deixava domesticar. Muito hormônio pra dar conta! Quantas antipatias ele comprou! Como é que alguém que, do meu ponto de vista, foi tão filho, - maldito e amado - pode ter deixado tanta gente órfã? Em tempo: adolescência supõe uma Lei à qual se opor e, assim, como se sabe, afirma necessariamente os pais e a filiação, mais do que qualquer etapa da vida.
Encontrei um conhecido num almoço um dia antes da morte de Alberto. Ele me disse: ‘Guzik morreu ontem’. Havia circulado um boato de que ele falecera na véspera - a partir de quando os médicos desligaram as máquinas, reconhecendo finalmente que nada mais havia a ser feito. Expliquei que Alberto estava muito mal, mas ainda vivo. Ao compreender que eu era sobrinho do Guzik, o conhecido comentou: ‘Nunca soube que o Alberto tinha família’. Talvez um comentário fortuito. Mas sintomático!
Guzik visitava a sua mãe, no mínimo, uma vez por semana e a ela telefonava, diariamente, nas últimas décadas pelo menos, senão a vida toda. Até que eu me afastasse, víamo-nos semanalmente por quase quarenta anos. Continuou a encontrar-se com sua irmã e seu sobrinho [o caçula] com regularidade e freqüência semanal. Visceralmente ligado a sua casa de origem, por que cargas d’água dava a impressão de não ter família??
Seus pais eram russos. Atravessaram o Atlântico. Chegaram jovens demais e pobres demais. A mãe, costureira. O pai, camelô-itinerante. Teria sido músico, mas deixara o pistão na Rússia. Sem pistão, empurrava uma carroça de porta em porta, aqui em São Paulo, nos anos 30 e 40, vendendo panelas. Klienteltchik, é como se diz: fazia clientela. Foram morar no Cambuci e mergulharam na feijoada e na brasilidade, mas não esqueceram jamais como se faz varenikes.
Quando sobrava dinheiro, compravam livros. Compraram também um violino e um piano. Fanny estudou piano; Alberto, violino. O som de seu violino, reza a lenda familiar, lembrava o de um gato sendo esfolado vivo.
As ondas do choque entre o borsht e a caipirinha atingiram Alberto muito mais que a nós, sobrinhos, da geração seguinte. Ele nos serviu de anteparo e filtro, como um mangue. O conflito das culturas nos chegava atenuado. Nossa distância da Europa era confortavelmente maior. Nós podíamos rir do sotaque e da severidade; ele, não.
Eram comunistas, seus pais. Para eles, a religião é ópio. O prazer, talvez, também. Deus está morto e orgasmo, só para depois da revolução.
A mãe dele ainda vive. Alberto foi embora antes dela. Do alto de sua idade, ela diz sentir-se uma dinossaura que perdeu a hora.
De fato, a cena mais triste de todas foi vê-la chegando, aos 98 anos, para acompanhar a cerimônia de cremação do filho. Ali estava Rei Lear na morte de Cordélia. Ela chora, mas de tempos em tempos diz para nós e para si mesma: ‘as coisas são como são’! Chorei eu, diante da lucidez cortante da mãe que, além de perder a hora, perde o filho. Chora sua dor animal e medonha, mas não se pensa nem vítima, nem coitada, nem mais desgraçada que o resto da humanidade, pelos fatos que não conspiram de acordo com seu desejo centenário. Ela não se sente não-merecedora de seu destino. Sabe ela que nessa vida, numa enorme proporção, naquilo que realmente importa, decidimos tão pouco. Esse terrível saber está nela incrustado tão fundo, que constitui mesmo seu núcleo.
Caso raro, o desejo, nela, não distorce o fato nem a percepção. Os limites estão colocados, ela os reconhece e por eles se guia. Nada de wishful-thinking! Não para a imigrante que veio desembarcar no Brasil, fugida do nazismo. Para sobreviver, ela nunca pode se dar a esse luxo. Não-sionista, nem a terra prometida ela abraçou. No dicionário da judia da diáspora, que teve a sua família morta na guerra, nenhum mecanismo atenua a realidade – mesmo quando a realidade é injusta e insuportável. Aqui nesta casa não se acredita em milagre. Já eu não aprendi tão bem essa lição, e freqüentemente me julgo abandonado pelos deuses – mesmo que o prejuízo seja tão-somente o zelador avisando que vai faltar água por trinta minutos...
Para a velha senhora da Europa Central, que veio do gueto e cuja língua materna era o idish, mas que falava russo, polonês, hebraico e alemão [e português, depois que aqui aportou], seus filhos não seriam jamais menos que reitores da USP. Nenhum de seus filhos foi reitor, nem da USP, nem de outra universidade qualquer. Tampouco seus netos foram reitores. Esse fato grave, a absoluta falta de reitores na família, determinou que ela nos olhasse para sempre com aquele olhar que diz: ‘que gente mixa!’.
Está aí a grandeza da mulher que oferece involuntariamente a monumental e formidável oposição para que o filho dê seu salto épico, proporcional ao tamanho do obstáculo. Para fazer frente à terra-sem-sonho da mãe-russa, um lance de gênio: decretar uma implacável e perene transgressão e ali instalar-se. O pulo do gato.
Pois o filho da imigrante, ao contrário, deseja um mundo no qual as coisas, por um minuto, NÃO sejam como são: o alívio provisório do trauma das coisas condenadas a serem somente do jeito que são! Sonhar a dor e o trauma é desejo e desafio do Teatro essencial e maiúsculo.
Nesse jogo, porém, ao recusar os limites e a realidade dos fatos e, num atrevimento, fingir ‘que as coisas NÃO são do jeito que são’, às vezes, acaba-se revelando melhor a alma e as outras dimensões ocultas e óbvias dessas mesmas coisas. Eis a chave das portas proibidas! E de repente, numa utopia, porque o messias ainda não chegou, milagrosa e judaicamente, em maior medida talvez do que Alberto imaginou, as coisas não são mais e para-todo-sempre do jeito que eram...
A chave dos mistérios, descobri-a muito mais tarde e sozinho, como tem que ser. Usei-a noutra fechadura e abri outras portas que me levaram a outros campos, distintos dos de Guzik. Desemboquei noutro espaço que, ironicamente, em tudo remete à cena do teatro...
Eu também, todo santo dia, no improviso e no escuro, diante de sombras que dançam num fundo de penumbra, submetido a uma economia, sento e espero. E ouço e vejo personagens ganhando forma, exigindo atenção, traduzindo-se num discurso, num embate doloroso, nomeando-se, para depois desaparecerem do cenário, sem deixar rastro nem vestígio. Puf!
Caminhei até aqui, nestes dias de luto. Entendi finalmente alguma coisa. As peças se encaixam, mas é tarde. Para continuar minha briga com Alberto, eu precisaria que ele estivesse vivo, fazendo oposição, plataforma de decolagem, para que eu ensaiasse então meu salto... Empresto assim do mito primeiro e de sua sabedoria, a chance remota de tocá-lo fisicamente, lá nos confins, através da minha palavra...
E da herança toda, reivindico um pedaço, por direito legal e jurídico, publicamente, sangue do meu sangue: seja eu eternamente jovem e curioso, agora e pelo resto da vida. E quando chegar minha hora de me conformar, tomar chá com canja e ver TV, que eu tenha também coragem de consultar meu desejo maldito, infantil e transgressor. Nenhuma culpa. As coisas são como são.
Boa viagem, Alberto. De coração.
Post-scriptum - Uma inacreditável rede de afeto se formou nos mais de 120 dias em que Alberto esteve no hospital. Seus amigos foram tão carinhosos com ele e nos deram tanto apoio que, ao final, a impressão é a de que aumentaram nossa família [que de fato é muito pequena], engordando-a, incluindo-se nela, tomara eternamente... Cléo de Páris; Julia Bobrow; Bárbara Regina Oliveira [primeiro as damas!]; Ivam Cabral e Rodolfo Garcia Vazquez; Sergio Roveri; Laerte Késsimos; Tiago Leal; Drauzio Varella são nomes que me ocorrem agora. Mas sei que estou sendo injusto e que há muito mais gente que costurou os fios que ligaram pessoas tão queridas de maneiras diferentes. Presente póstumo, isto é fruto de Alberto, legado precioso que ele deixa para trás. Nós, a família, mais pobre e mais gorda, agradecemos a todas estas pessoas que [citadas ou não] saberão se reconhecer nestas linhas.
São Paulo, junho/julho 2010. Sergio Zlotnic – psicanalista, mestre, doutor e pós-doutor em psicanálise, pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo [da qual não é reitor]. szlot@uol.com.br